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Secrets - Versão em Português

CAPÍTULO DOIS - ALEXEI

CAPÍTULO DOIS - ALEXEI

Jul 25, 2026


   A vida sempre foi… inesperada, para não dizer caótica.

   Para soar mais poético e fazer jus a fama dos britânicos, por mais que metade de meu sangue seja italiano (agradeçam minha mãe por isso, já que ela foi ingênua e caiu no charme de um jovem italiano), posso dizer que sonhos e metas fazem parte da vida de qualquer pessoa. Temos deveres com nossa família, amigos, nós mesmos e blá, blá, blá. Precisamos estudar, trabalhar, sonhar, e mais blá, blá, blá.

   Mas, uma coisa é certa, acontecimentos surgem como combustível que nos forçam a seguir em frente… Ou então se transformam em uma barreira que nos para.

   Na grande maioria, ao menos os que me lembro, os acontecimentos em minha vida atrasaram sonhos nos quais o pequeno Alexei planejou com tanto entusiasmo. Planos esses que ele bolou quando ficou de castigo e preso em seu quarto durante boa parte das férias na Itália. Na época, devo admitir, era ridículo levar a sério a ideia de ser um grande ator, namorar a mulher mais gostosa que eu pudesse conhecer e viver como um jovem que vivia sua vida entre sexo e fama.

   Com 12 anos, eu sequer sabia o que era sexo de verdade. Apenas me imaginava ao lado da Megan Fox toda vez que via aquele pôster dos Transformers, cercado de dinheiro, fãs e reconhecimento por um talento que eu sequer tinha na época.

   Mas, jovens e queridos fofoqueiros que estão lendo essa história, venho por meio deste relato mostrar que nem todo sonho que seguimos é de fato aquele que vai nos fazer feliz.

   No meu caso, o sonho do pequeno Alexei se realizou, mas a satisfação por isso era… para ser sincero, tinha seus momentos. Por outro lado, alguns momentos me faziam desejar voltar a ter 12 anos, desistir da ideia de mijar na cabeça do garoto que me bateu na Itália, assim eu não ficaria de castigo e, consequentemente, não sonharia com essa vida.

   Enquanto encarava o teto branco do meu quarto, sentindo o calor dos braços de Ayla em volta de mim e lutando comigo mesmo para levantar da cama, me questionava se aquela realmente era a vida que eu queria.

   Como eu disse, Alexei realizou seu sonho. Ayla não era apenas uma jovem e brilhante roteirista, era linda, com um corpo rechonchudo que fez os sonhos do pequeno garoto de 12 anos soarem ainda melhores na realidade. Não me entendam mal, mulheres com corpos esculturais dignos de serem mais uma das modelos sem sal da Victoria Secrets eram, de fato, gostosas. Mas, contudo, todavia, entretanto, nenhuma delas nunca foi capaz de me fazer tão feliz como Ayla fez. Mesmo que nosso relacionamento tenha… Esfriado? Entrado em pausa? Se tornado um relacionamento celibatário?

   Enfim, as coisas estavam mais calmas entre a gente, mesmo que a chama entre minhas pernas fosse o suficiente para queimar nosso quarto como se estivéssemos no inferno.

   Me virei na cama, abraçando-a de volta e levando o rosto até seus cabelos negros, onde o cheiro de mel e laranja era familiar. Sabia que Ayla estava acordada, seu bocejar era apenas um dos sinais — o outro era seus dedos batucando em meu peito, uma mania que amava e odiava ao mesmo tempo. Quando ela fazia, eu odiava, me fazia cócegas, mas se não fizesse era como uma parte dela que ficava faltando.

   Segurei o riso, e Ayla tremeu levemente, puxando a coberta sobre nós conforme me aconcheguei em seu corpo.

   — Que horas vai sair? — perguntou ela, trazendo de volta a maldita lembrança que eu desejava esquecer.

   Bufei, afundando meu nariz ainda mais em seus cabelos, massageando suas costas na esperança de que um mínimo estímulo fizesse aquele rosto com traços coreanos sumir da minha cabeça.

   Não funcionou.

   Me virei, pegando o celular em cima do móvel ao lado da cama. 7h39.

   — Daqui uma hora — lamentei, sabendo que o dia estava longe de ser animador.

   Ayla se movimentou, arrancando a coberta de cima de mim, praticamente me expulsando do conforto. A claridade do dia ainda machucava meus olhos conforme sentei na cama e cocei os olhos.

   — Faz o café? — pedi.

   Ela resmungou baixo, mas se virou para mim com uma expressão de sono. Sua pele tom de caramelo era divina naquela luz, os cabelos estavam despenteados e levemente armados. Ayla era bonita, não tinha como negar isso. Daquela forma, deitada com o pijama escuro, com o olhar calmo e um sorriso fechado, me perguntava porque via Ayla como uma mulher incrível, mas na qual meus sentimentos se tornavam cada vez mais confusos.

   Um ano atrás, me fazer levantar daquela mesma cama sem me jogar em cima dela e beijá-la como se fosse a pessoa mais importante da minha vida era quase inevitável. Agora, o cansaço fazia meus músculos pesarem, tornando qualquer movimento que eu desejava fazer difícil demais para o esforço. Mesmo que transar pela manhã fosse algo que com certeza me animaria.

   Me inclinei em sua direção, tirando a mecha de cabelo que cobria seus olhos quando dei um beijo breve em seus lábios, que se curvaram em um riso frouxo.

   — Vou tomar meu banho — avisei, fitando seu olhar, apenas uma sombra do que costumava existir ali.

   Ayla permaneceu em silêncio — o quarto permaneceu em silêncio, dando-me a impressão de que até as paredes fossem capazes de entender o que acontecia ali, e faziam de tudo para abafar qualquer mínimo sussurro. Ajeitei a ereção matinal, me xingando internamente por saber que não adiantava tentar ter algo.

   Já tinha alguns dias desde a última vez que transamos, o que para mim era como estar em celibato sem sequer ter a opção de me aliviar. Acreditem, eu tentei, mas nunca fui muito fã de me tocar só para conseguir um alívio momentâneo.

   Acho que Ayla estava cansada de mim nesse sentido. Não sabia se era porque eu estava sendo insuficiente para ela, ou se algo tinha tornado o sexo entre nós entediante para ela. Talvez fossem as duas coisas.

   No banheiro, dentro do box, o silêncio foi quebrado quando liguei o chuveiro e a água quente caiu sobre meu corpo, drenando os últimos resquícios de excitação. A sensação deveria ser peculiar, mas o misto entre o vazio e o entusiasmo por um novo dia criava algo familiar.

   Deixei o shampoo cair em minha mão, lavando os cabelos, e, de repente, aquele rosto surgiu junto da ebulição interna, acabando com toda e qualquer chama que Ayla tinha acendido instantes atrás. Removi o shampoo, livrando o resto da espuma conforme a imagem de San surgia como videiras que se espreitavam pelas beiradas.

   Desde que me tornar seu parceiro de cena virou um fato, já que não podia voltar atrás depois de ter assinado o contrato, bastava pegar no roteiro que tornava-se um desafio me ver interpretando tudo aquilo ao seu lado. Não que eu fizesse questão de me imaginar recriando todas aquelas cenas, mas, me concentrar seria um desafio.

   San era um babaca. O tipo de cara que normalmente despertaria certo interesse da minha parte, mas por ser ele era como se em vez de interesse, o que surgia era nojo e ânsia. Se fôssemos crianças, com certeza já teria mijado na cabeça daquele idiota. Na verdade, acho que mesmo adulto eu faria isso só para compensar a humilhação que passei por conta dele.

   Desgraçado duas caras…

   Aquela não era a primeira e com certeza não seria a última vez onde teria que trabalhar ao lado de alguém no qual eu tinha algum tipo de intriga pessoal. Entretanto, seria a primeira onde o trabalho seria maior. Mais demorado.

   Em trabalhos anteriores eram apenas encontros durante premieres, eventos ou pequenos períodos de gravações para alguma série, participação em algum projeto menor, o que fazia a raiva por tais pessoas soar apenas como um incômodo breve.

   Com San seriam cerca de 8 semanas de gravações. Três países nos quais precisaríamos viajar juntos. Fora as seis semanas de divulgação do filme após a finalização da montagem… 

   Só de pensar em tudo isso minha nuca latejava, fazendo-me deixar o banho antes que eu conseguisse pensar em qualquer desculpa mirabolante para faltar a reunião de elenco e só aparecer no primeiro dia de gravações, o que eu infelizmente não podia fazer.

   Sempre priorizei ser uma pessoa responsável no trabalho. Chegava no horário mercado, me esforçava para não faltar a um dia de gravação, nem mesmo quando fui atropelado por um bicicleta no centro de Londres, durante as gravações do primeiro e único filme de ficção científica que tinha participado até então. Nunca faltei a um compromisso, e iria manter minha reputação.

   Seria difícil, mas iria passar por tal desafio com o máximo de profissionalismo que podia entregar. Não vou mentir, os quase 8 milhões com certeza eram um incentivo a mais para permanecer naquele projeto. Com ou sem o San. Mesmo que, se me perguntarem, sem ele a experiência seria bem melhor.

   Ayla estava sentada na cadeira do balcão quando desci para a cozinha. Gostava de ver como minha camiseta ainda ficava folgada em seu corpo, deixando-a como um cupcake rechonchudo que eu estava doido para devorar sem me importar se isso iria ou não me fazer chegar atrasado.

   O aroma do café dominava o espaço, mas logo o cheiro das torradas que ela comia me deram água na boca. Meu estômago estava vazio. Sequer conseguia me lembrar se tinha ou não jantado na noite anterior, tudo o que me lembrava era de ter chegado em casa, e que de repente eu estava deitado ao lado de Ayla na cama.

   Horas atrás estávamos em uma festa pós lançamento da série de um amigo dela, que por sinal era uma série incrível, e a festa fora melhor ainda. Não tenho o costume de beber muito, mas as coisas saíram um pouco do controle quando Ayla me ofereceu a tequila que virou meu carro chefe a noite toda.

   Ayla abriu um sorriso breve quando me viu entrar na cozinha, me fazendo desejar que ela pedisse para eu ficar ali, deitar com ela no sofá e assistir qualquer coisa apenas como uma desculpa para ficarmos abraçados o dia inteiro.

   — O que acha da gente sair mais tarde? — perguntou ela, deixando o celular de lado ao apoiar o pé na cadeira conforme devorava outra torrada com geleia.

   Sem conseguir me decidir se iria de torradas ou não, fui até a geladeira e peguei os ovos, levando minha mão até onde a frigideira estava pendurada próximo ao balcão de mármore.

   — Onde quer ir?

   — Não sei, a Alicia comentou que queria ir assistir aquele filme do amigo dela… não me lembro…

   — Black Storm? — indaguei. — Você não assistiu ele semana passada?

   — Sim, mas gostei da cenografia dele, quero rever.

   — Por mim tudo bem, só preciso ver que horas a reunião vai acabar.

   No fogão, deixei a frigideira esquentar enquanto roubava a manteiga próxima de Ayla, adicionando um pouco dela na frigideira antes de quebrar dois ovos.

   — Vai acabar muito tarde? — perguntou, me olhando dessa vez.

   Dei de ombros.

   — Acho que até umas sete da noite ela acaba. Hoje é leitura de algumas cenas, revisão da escala de gravações…

   — Toda a parte chata — comentou em uma risada breve.

   — É, não gosto dessa parte também.

   Como uma roteirista promissora, ela sabia muito bem como era estar nos bastidores das produções, entendia quais eram os dias divertidos e quais eram entediantes e exaustivos. Ayla, muito antes de começarmos a namorar, vivia visitando alguns dos estúdios de filmagens nos quais trabalhei.

   Talvez esse tenha sido um dos motivos de termos começado a namorar. Não havia drama desnecessário quando um de nós precisava apenas de alguém para abraçar no fim do dia. Se rolasse sexo, era incrível. Se não tivesse, era pacífico e confortável — talvez essa dinâmica entre nós tenha sido o que realmente fez nosso relacionamento funcionar nos últimos dois anos.

   Mas então o que era pacífico e confortável tornou-se entediante. 

   Agora, enquanto me sentava do outro lado da bancada e me enchia de torrada e ovos, não conseguia ter certeza do que exatamente ela gostava na nossa relação.

   E então, antes que eu pudesse achar uma possível resposta para essa dúvida, os sinos ecoaram pela cozinha conforme o celular vibrou em meu bolso.

   — Onde você está, Alexei? — questionou Lucy quando atendi sua ligação.

   — Bom dia, Lucy, como está? — Perguntei num tom otimista, sabendo que o mau humor dominava ela. — Estou tomando um belo café da manhã, quer vir comer algo também?

   — Você está atrasado, Alexei — bufou ela. — Porque não deixou pra comer lá?

   Afastei o aparelho por um instante, observando as horas. 8h. Amava escutar a voz irritadiça de Lucy pela manhã, era como se meu dia não começasse se ela não me ligasse brava com algo, me dando broncas exageradas ou resmungando sobre algum atraso que só existia na mente dela.

   — Não estamos atrasados, vai dar tempo de chegar sem problemas.

   Novamente, dando jus a característica que usei para descrevê-la na noite de jogos da Alícia há algumas semanas, Lucy resmungou baixo.

   — Eu sabia que não devia ter confiado em você para me dar carona.

   — Qual é, Lucy, já viu eu me atrasar alguma vez? — Em resposta, ela ficou em silêncio. — Você sabe, não vou me atrasar. A não ser que por algum milagre Ayla descida me levar pro banho — brinquei, vendo Ayla revirar os olhos em uma risada contida. — É, infelizmente não vou me atrasar hoje.

   — Você tem 10 minutos, ou juro que arrumo um trabalho onde você precise enfrentar um exército de aranhas — bravejou ela.

   Só de pensar naquilo meu corpo tremeu, como se pudesse sentir aranhas subindo por minhas pernas.

  — Precisava falar isso?

  — Anda logo, Alexei!!!

   Desliguei, deixando o celular em cima do balcão ao me levantar, levando o prato até a pia. Ela iria me xingar por ter desligado na cara dela, mas ela mereceu por ter tocado no assunto proibido.

   — Já vai?

   — Lucy está estressada pelo visto — falei, limpando a mão.

   — Ah, como se isso não fosse normal — riu Ayla.

   Me aproximei dela, abaixando para ficar na altura de seu rosto.

   — O que acha da gente deixar o cinema de lado e sair pra jantar?
Um sorriso fechado surgiu em seus lábios rosados, e naqueles olhos castanhos eu consegui ver certo entusiasmo.

   — Alicia vai ficar chateada.

   — Alicia vai entender — murmurei, me aproximando de sua boca.

   Sua boca ainda tinha resquícios da geleia de morango, mas seus lábios ainda eram macios como sempre. Mesmo que muita coisa estivesse diferente, seu beijo ainda me deixava num misto de satisfação interna e o puro desejo de ter mais.

   Levei minha mão até sua cintura, puxando-a para perto quando deixei minha língua se juntar à dela. Em resposta, Ayla levou suas mãos em volta do meu pescoço, e seu velho costume de acariciar minha nuca com as unhas ainda tinham o mesmo efeito, me fazendo inclinar em sua direção.

   Ayla colou seus peito ao meu, fazendo a excitação dar sinais de vida conforme deixei meus dedos descerem por suas curvas.

   O balde de água gelada veio quando Ayla se afastou de repente, e aquele brilho no olhar havia sumido na mesma rapidez que surgiu.

   — Melhor você ir, antes que a Lucy apareça aqui de novo — murmurou ao se afastar.

   Ayla subiu para o quarto, me deixando em meio a confusão, onde os indícios físicos me diziam que ainda estávamos em sintonia — mas meu peito insistia em dizer que aquilo não era tão real assim.

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