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Secrets - Versão em Português

CAPÍTULO TRÊS - SAN

CAPÍTULO TRÊS - SAN

Aug 03, 2026

    “I know you feel that. Just be kind, and let me burn that inside you. Let me burn the ashes of this love.”

   Ashes - NEIGTHZ



   Diferente do que imaginei, a ansiedade não me dominou quando entrei no pavilhão YY dos estúdios, onde seria a última reunião antes do início das filmagens, na próxima semana.

    Ao centro, onde as cadeiras estavam posicionadas em um círculo, vi algumas pessoas já em seus lugares. Alguns rostos eram familiares, parte da equipe que estavam no dia em que fiz o teste, outros eram novos, alguns até reconheci como parte do elenco anunciado nas redes sociais do diretor.

   Olhei para o lado, vendo um dos assistentes de produção que conheci no teste, enquanto o mesmo carregava uma caixa em direção a uma mesa próxima as cadeiras.

   Ao redor, câmeras e microfones eram ajustados pela equipe.

   — Ansioso?

   Desviei minha atenção para Aiko, que por algum motivo usava óculos escuros e tomava sorvete mesmo num dia chuvoso.

   — Não, acho que vai ser tranquilo hoje — disse, encarando o roteiro em minhas mãos. — Zero preocupações com aquele…

   — Quem você acha que está enganando? — questionou Kang, que permanecia atrás de mim. — Não duvido que já tenha ensaiado o que vai responder quando o Alexei te provocar, ou o que vai dizer para provocar ele… Qual das duas opções?

   Revirei os olhos. Por mais que não fosse mentira, e que de fato tenha pensado em possíveis respostas para qualquer provocação que Alexei pudesse fazer, não queria que Kang tivesse razão.

   — Eu nem pensei nele — falei, ajustando os ombros. — É só um trabalho, não vai acontecer nada semelhante ao dia do teste.

   — Falou com tanta convicção que quase cheguei a acreditar — debochou ele, pegando um pouco do sorvete com a colher que parecia minúscula entre seus dedos.

   — Ainda temos uns 20 minutos antes da reunião começar, então acho que seria bom você tirar essa expressão estranha do rosto e ser mais carismático com o pessoal.

   — Carisma é meu nome do meio — falei, elevando o queixo em meio a um sorriso fechado para Aiko.

   Ela abaixou os óculos, me olhando de cima a baixo.

  — Não hoje, querido. Você está parecendo um adolescente rabugento com os braços cruzados assim.

   Endireitei os braços, balançando-os para tirar a sensação de que havia algo pesado sobre eles.

   — Vai ficar implicando comigo mesmo? Não tem nenhum trabalho de agente pra você não, em? — Olhei ao meu redor por um momento. — Olha ali, eles tem uma planta, que tal ir ver se ela não precisa de água?

   Aiko bateu em meu braço, me fazendo rir.

   — Olha aí, Kang, cadê você me protegendo agora?

   Ele deu de ombros.

   — A culpa é totalmente sua — falou Aiko. — Se não tivesse quase ido pra cima do Alexei no teste, eu não teria que vir dar uma de babá e garantir que você não fizesse nenhuma idiotice.

   Bufei, balançando a cabeça quando desviei minha atenção para a entrada — e lá estava ele.

   Desviei minha atenção antes que passasse ao menos um segundo com minha atenção sob Alexei. Não ia prestar atenção em como aquele boné ficava ridículo nele, ou em como a jaqueta de couro dava um ar badboy falsificado junto com aquele meio sorriso ainda mais falso.

   — A multa é muito alta se a gente cancelar o contrato? — questionei.

   — Apenas 6 milhões, mais 200 mil por dia de atraso na produção causado por sua desistência.

   Me virei, vendo Lucien surgindo como um fantasma ao nosso lado. Como esperado de um britânico, Lucien era alto, sua pele caucasiana parecia mais pálida naquele dia, embora os cabelos loiros e olhos castanhos fossem exatamente como me lembrava.

   Ainda não tinha me acostumando com suas roupas coloridas. Sua camiseta listrada em tons de azul e verde, enquanto a calça era num tom muito claro de verde, o tornavam um caos em termos de moda. Como diretor, no entanto, Lucien Scott era um gênio.

   — Ele não está falando sério — falou Aiko, cumprimentando-o com um breve aperto de mãos.

   — É-É claro, eu só estava brincando.

   Lucien riu em um tom divertido, me permitindo cumprimentá-lo.

   — Sendo piada ou não, a cláusula de desistência está no contrato — falou num brincalhão, embora pudesse sentir certa seriedade escondida. Ele se aproximou, colocando a mão em meu ombro. — Ah, como queria que tivesse a minha visão, San, aí veria que sua desistência seria o fim desse filme. Não é exagero quando digo que você e Alexei nasceram para ser Luke e Joonho.

   Franzi meu cenho em descrença.

   — Acha mesmo isso?

   Aiko bufou.

   — Aff, como eu odeio sua falta de fé — resmungou ela. — Você acha mesmo que ele iria perder tempo contratando um ator qualquer?

   Ele contratou o Alexei, então… pensei.

   Disparei os pensamentos para longe.

   — É normal atores iniciantes terem certo receio, mas acho que você vai conseguir trabalhar muito bem sua confiança — falou Lucien, que me lançou um olhar de quem me dava um incentivo silencioso, fazendo aquele peso sumir dos meus braços. — É só pegar toda confiança que você tem no palco como cantor, e usar nas atuações.

   — Ah, nos palcos é muito mais fácil, não preciso me esforçar tanto. Dançar e cantar é quase natural, atuar é meio… desafiador.

   Lucien sorriu. 

   — Não foi o que me pareceu no seu teste. Mas vamos trabalhar isso durante as filmagens — garantiu ele. — Vou ver como estão as coisas para começar a reunião, mas em breve a gente conversa mais, ok?

   Lucien se afastou, indo em direção a onde parte da produção continuava a mexer nas câmeras. Respirei fundo. Não podia negar que parte de mim ainda estava desacreditado. Ter a oportunidade de atuar nunca foi algo que deu certo antes, pois os ensaios e todos os compromissos com o NEIGHTZ tomava tanto de meu tempo, que parecia um verdadeiro milagre a Aiko ter conseguido convencer a KL me deixar passar esses meses afastado.

   Sabia que a influência de Lucien ajudou muito quando o mesmo conversou com os diretores da KL, firmando um contrato milionário para compensar a falta que eu faria no NEIGHTZ durante todo o tempo que passaria gravando o filme. No fim, boa parte do meu salário acabou sendo diminuído por conta disso, mas isso não me desanimou nem um pouco. Pelo contrário, apenas me fez ficar em um misto de confiança e insegurança.

   Jihoon já me disse, assim como minha terapeuta e a própria Aiko, que às vezes era como se existisse duas personalidades dentro de mim. Uma era confiante, que dançava e cantava sem problemas, era carismática e se entregava a qualquer trabalho sem receio de falhar, mesmo que nem sempre tenha saído tudo perfeito.

   No entanto, uma parte parecia duvidar de tudo o que sabia fazer. Fosse cantar, dançar, atuar, ou o simples fato de caminhar com convicção de quem eu era. Por mais que eu tivesse centenas de provas à minha volta, pessoas de confiança me incentivando e outras que eu admirava confiando em meu talento, acreditar que eu era capaz tornava-se o verdadeiro desafio.

   Quando notei, já tinha cumprimentado o pessoal antes de tomar meu lugar ao lado de Aiko, que parecia entretida com o que via no celular. Percorri meu olhar pelo espaço, onde quase todos já tinham chegado, faltando menos de 5 minutos até o início da reunião.

   À minha esquerda, Erik, o rapaz de 27 anos, cabelos escuros e pele parda, era quem iria dar vida a um dos amigos de Joonho, meu personagem.

   — Ansioso para começar a gravar? — perguntei, tentando puxar assunto, como o mesmo fez nas redes sociais meses atrás quando parte do elenco principal foi anunciado.

   Ele desviou a atenção do roteiro em seu colo, ajustando os óculos ao abrir um sorriso largo.

    — Ah, caramba! Me desculpa, eu não notei que tinha chegado — falou, me oferecendo sua mão em um cumprimento breve.

   Assenti, correspondendo ao seu entusiasmo.

   — É muito cedo para dizer que amei seu último filme? — questionei com certo receio.

   Seu último filme, “As estrelas também sonham”, no qual atuou ao lado de Phillip Collins. Erik riu baixo, ajustando sua postura na cadeira.

   — Depende, é muito cedo para eu trazer meu pôster do NEIGHTZ e pedir um autógrafo?

   — Só se você autografar o meu pôster de As estrelas também sonham — devolvi, mesmo sabendo que meu pôster estava preso na parede do meu quarto em Seoul.

   — Acho que temos um trato então — ele riu baixo, recebendo um sorriso carismático. — E aí, qual cena está mais ansioso para gravar? Ah, espera, você leu o livro?

   — Sim, li, e sou um grande fã dele — admiti. — Acho que…

   Ponderei por um instante, tentando decidir quais eram minhas cenas preferidas do livro.

    Olhei para frente, vendo Alexei sorridente em uma conversa com uma mulher que deveria ter uns 35 anos, cabelos loiros e um olhar totalmente cansado, exatamente como já vi Aiko estar várias vezes.

   Alexei fechou sua expressão, franzindo a testa ao me encarar de volta. Vi ele apertar a garrafa que segurava como se tivesse força o suficiente para amassar o metal na qual era feita a garrafa azul.

   — Me parece que ainda não sabe qual escolher — comentou Erik, me fazendo piscar antes de voltar a olhá-lo. — Sei como é, também estou ansioso para gravar algumas cenas com o pessoal — completou ao indicar nossos colegas de elenco.

   Diferente de mim, que a grande maioria das cenas era de fato ao lado de Alexei, o personagem de Erik normalmente aparecia em ocasiões onde havia mais personagens em cena.

   — Me diz — começou Erik novamente. —, acha que vamos conseguir aproveitar o Canadá além das gravações? Queria esquiar um pouco antes de voltarmos.

   — Se dermos sorte, acho que a gente consegue, sim — falei sorridente, pois também estava pensando nessa possibilidade. — Jihoon já esteve algumas vezes lá, ele disse que vamos estar bem no meio da temporada de Ski, a neve vai estar perfeita. Só precisamos que a sorte esteja ao nosso lado e que algum instrutor esteja disponível no dia.

   — Espero que seu anjo da guarda esteja do seu lado também — comentou Aiko, sem tirar os olhos do celular. — Lembra da última vez que tentou esquiar, não é, San?

   Bufei, e isso fez Erik rir.

   — O que aconteceu da última vez?

   — Nada…

   — Nada demais — interveio ela. — Ele só deslocou o braço e fez um coitado ficar preso em cima de uma árvore.

    — Não foi tão ruim quanto parece — me defendi, sentindo o rosto queimar com o constrangimento. — Aquele cara nem se feriu, e…

   Kang me olhou com julgamento, me silenciando sem dizer mais nada.

    — Bom dia, pessoal! — saudou Lucien, caminhando em direção ao centro da roda, e só então percebi que aparentemente estávamos todos ali. — Primeiramente queria agradecer pela presença de todos nesse projeto, pois pra mim esse filme é muito mais do que a adaptação de um romance. O que vamos fazer nesse filme é algo lindo, e merece ser visto por muitos.

   Sorri ao notar a paixão que a voz de Lucien carregava conforme prosseguiu com seu discurso, fazendo aquele calor acolhedor surgir em meu peito — um pequeno sinal do orgulho por fazer parte daquilo.

   Quando anunciaram que o diretor da adaptação seria Lucien — muito antes de eu pensar na possibilidade de fazer um teste para o filme —, sabia que ele era a escolha perfeita. Havia algo em seus filmes que conseguia equilibrar com maestria a vida real, o destino e o encontro entre duas realidades de forma que cada detalhe (iluminação, enquadramento, elenco, trilha sonora), cada parte tornava-se uma peça de uma obra de arte.

   Segredos entre almas carregava exatamente o que os filmes de Lucien despertavam naqueles que se davam ao luxo de viver as histórias ao assistir seus filmes. Era como se o autor do livro e Lucien fossem duas mentes de uma única pessoa. Um criava histórias através das palavras, enquanto o outro tornava palavras em imagens e sons com um DNA único.

   Levei meu olhar até Alexei, vendo que a única coisa que realmente poderia destruir esse filme era algo tão pequeno, mas que encheu meu peito quando Alexei me olhou de volta.

   Engoli aquela sensação para dentro, respirando fundo ao prestar atenção a Lucien, que agora nos explicava melhor as locações e o planejamento, embora estivesse tudo detalhe no documento que nos enviou junto de uma cópia do roteiro impresso, no qual permanecia em minhas mãos.

   Não era comum que filmes fossem filmados na ordem dos acontecimentos, mas não teria como filmar essa adaptação de outra forma. Além de prático, tendo em conta que a história se passava em três países diferentes, esse era um dos grandes diferenciais de Lucien.

   Seus filmes eram sempre gravados em ordem cronológica, não importasse se isso significasse ir e vir entre dois países 23 vezes, como fizeram durante as filmagens de “As Cartas de Kai”, um de seus filmes mais premiados e aquele que deu a Lucien seu primeiro OSCAR de melhor direção e roteiro.

   — San, o que me diz? — perguntou Lucien.

   Pisquei os olhos, notando a atenção de todos em minha direção.

   Ao seu lado, Alexei permanecia de pé, me observando com certo desdém, mantendo as mãos dentro do bolso da calça em uma postura que parecia me julgar até a alma.

    — D-Desculpa, eu estava…

    — Nem começamos a trabalhar e já está perdido — desdenhou Alexei.
Engoli em seco, sentindo um incômodo na testa quando juntei as sobrancelhas na tentativa de conter aquele maldito calor.

   — Vai tirar a foto — sussurrou Aiko ao meu lado, cutucando minha coxa.

   — Vem, San, vamos tirar uma nós três para divulgação — explicou Lucien, levantando sua mão até meus ombros, me puxando para mais perto.

   Alexei a esquerda de Lucien, enquanto eu permanecia à direita. Livrei um sorriso ali, observando a câmera à nossa frente, onde um rapaz barbudo e de boné fez um breve sinal atrás dela — e então, veio o flash.

   — Ótimo, que tal uma de todo o elenco? Vocês dois no centro — pediu Lucien.

   Não consegui disfarçar quando o sorriso deixou meu rosto. Mesmo assim, permaneci ali quando Lucien se afastou, tomando o lugar do rapaz atrás da câmera ao mesmo tempo que todos se levantaram de suas cadeiras. Erik logo estava ao meu lado.

Um braço passou por trás do meu pescoço, puxando-me para mais perto de seu dono.

   — Sorria, ou vamos ter que repetir — murmurou Alexei.

   Prendi o ar, pois sabia que se não o fizesse meu rosto ficaria vermelho, e uma foto com o cenho franzido e olhos fuzilando Alexei não sairia bem. Então, fiz como ele, levando minha mão até sua cintura, tentando permanecer na mesma pose em que Luke e Joonho ficavam em uma de suas ilustrações mais famosas nas redes.

   — Não precisa me assediar.

   — Prefiro perder os dedos do que te tocar — murmurei em resposta, forçando um sorriso largo como Joonho fazia na ilustração.

   Lucien sorriu em nossa direção.

   — Se quiser posso arrancar eles.

   — Vai se fuder, Alexei.

   — Vai se fuder, San.

   O flash veio, e me afastei de Alexei quase no mesmo instante em que Lucien avisou que tinha a foto.

   — Todos da equipe juntos agora — avisou Lucien, me fazendo permanecer naquela mesma posição. — Aiko, Lucy, todo mundo, vamos.

  — Devo ter atirado pedra na cruz — murmurou Alexei, aproximando-se novamente de mim.

   — Se você atirou uma pedra na cruz, eu com certeza devo ter pregado Jesus nela.

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Esses dois são a definição de metalinguagem. Já estão vivendo o enemies to lovers que vão protagonizar no filme.

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