MEDRE, GAROTA
Uma história sobre partir e ser perseguida.
Escrito por Juliana Resende
* * *
Copyright © 2026 Juliana Resende. Todos os direitos reservados.
Nenhuma parte deste livro pode ser reproduzida ou distribuída de qualquer forma sem a autorização prévia por escrito da autora.
Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens e acontecimentos são produtos da imaginação da autora. Qualquer semelhança com pessoas reais, vivas ou mortas, é mera coincidência.
CAPÍTULO UM — Veneza
Acordei na cama da minha prima com o som dela rindo de alguma coisa no telefone.
A Megan estava encostada na cabeceira, de pijama, cabelo amarrado no alto da cabeça, falando por cima da Bonnie e da Olívia em conferência no viva-voz, do jeito que ela sempre fazia, como se ela conseguisse ouvir todas as conversas acontecendo ao mesmo tempo e escolher qual responder.
— Bom dia, Meg.
— Espera um segundinho, gente. — Ela tampou o microfone. — Bom dia, dorminhoca. Dormiu bem?
— Dormi, sim. Que horas são?
— Quase meio-dia. A gente devia tomar café.
Eu bocejei, me estiquei, e me deixei, por um momento, só existir no calor do quarto dela. A luz do sol entrava de lado pelas cortinas, já forte do jeito que só o sol do cerrado consegue chegar cedo. O ar cheirava a pão de queijo vindo da cozinha. Minha tia tinha viajado com a minha mãe naquela manhã, deixando a gente com a casa, uma geladeira cheia de comida e o tipo de fim de semana que parecia ter sido planejado pra dar problema.
— Com quem cê tá falando?
(Cê — encurtamento de você. Aqui ninguém fala "você" inteiro a não ser que esteja brigando ou recitando o hino nacional.)
— Bonnie e Olivia. Elas vêm pra cá hoje à noite. — Os olhos da Megan brilharam. — A gente vai sair junto e depois numa festa em balada.
Eu me sentei.
— Uma festa em balada? Megan. Eu tenho dezessete anos. Meu aniversário só é no mês que vem.
— Uai, relaxa. Tenho uma amiga que dá um jeito.
(Uai — minha prima começava metade das frases assim. Era uma daquelas palavras goianas que dizia calma, não inventa drama sem precisar dizer nada de verdade.)
— Dá um jeito de quê — me transformar em dezoito?
— É quase isso, sô. — Ela sorriu. — Vai ser bão demais. E você não pode ir de pijama.
(Sô — outra coisa daqui. Era tipo um "cara" ou um "fia". Servia pra suavizar qualquer frase. Megan jogava em tudo.)
Eu me arrastei pra fora da cama.
— Não tenho nada pra vestir.
— Pra isso que serve o centro. — Ela voltou pro telefone. — Desculpa, meninas. A Anna acabou de acordar. Sim, ela vai com a gente hoje à noite.
Um barulho longo e animado veio pelo viva-voz que eu não consegui distinguir. Devia ser a Olivia.
— O que a gente vai fazer hoje? — perguntei.
— Bão, Veneza é pequena. A gente pode ir ao centro. Ver umas lojas. Achar alguma coisa pra você usar. — A Megan inclinou a cabeça, pensativa. — E a gente pode dar uma olhada em quem tá na cidade esse fim de semana.
(Bão era como ela falava "bom". Tinha gente de fora que achava errado. Aqui não era erro — era música.)
Eu revirei os olhos.
— Alguém em especial?
— Cê sabe quem. — Ela sorriu. — Ele vai estar na balada hoje. Vai estar trabalhando.
— Você e os seus contatos.
— Não faço ideia de como dou conta de todos, uai.
Ela pousou o telefone e se espreguiçou.
— Ah — e a mãe já foi com a sua tia. Elas deixaram café da manhã. Pão de queijo. E um empadão goiano na geladeira pra mais tarde.
— Pamonha também?
— Vixe, óbvio que pamonha também. A mãe não saía sem deixar pamonha.
(Vixe — abreviação de virgem, mas ninguém pensava em virgem quando dizia. Era só um jeito da gente registrar surpresa. Vixe Maria era a versão completa, pra quando a surpresa era maior.)
Eu sorri sem querer. Ela sempre lembrava.
A gente comeu encostada no balcão, rindo de nada — o tipo de manhã que você só reconhece como boa depois de saber o que veio depois.
A Megan me fazia sentir segura.
Quero deixar isso registrado.
* * *

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