MEDRE, GAROTA
Uma história sobre partir e ser perseguida.
Escrito por Juliana Resende
* * *
Copyright © 2026 Juliana Resende. Todos os direitos reservados.
Nenhuma parte deste livro pode ser reproduzida ou distribuída de qualquer forma sem a autorização prévia por escrito da autora.
Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens e acontecimentos são produtos da imaginação da autora. Qualquer semelhança com pessoas reais, vivas ou mortas, é mera coincidência.
CAPITULO DOIS - A Loja de Vestidos
Lá pelas duas da tarde a gente estava no centro, quatro meninas e quatro opiniões diferentes sobre cada vestido.
A Bonnie era a mais eficiente — ela conseguia entrar numa loja, escanear uma arara e produzir três opções antes da gente tirar o casaco. A Olivia era a mais perigosa, porque o instinto dela era sempre te empurrar pra alguma coisa mais ousada do que você escolheria. E a Megan era a mais alta, o que era exatamente o que toda saída de compras precisava.
Eu estava segurando um vestido azul claro contra o corpo no espelho quando alguma coisa aconteceu do lado de fora da vitrine.
Um homem passou em frente à loja.
Ele era alto e loiro, e se movia com aquele tipo de confiança relaxada que eu vagamente associava a pessoas que nunca precisaram esperar por nada. Mãos enfiadas nos bolsos. Passada decidida. Eu o vi por talvez um segundo inteiro antes dele sumir da vista, e alguma coisa no meu peito reagiu a ele de uma forma que eu não consegui nomear na hora.
Abaixei o vestido. Fui até a vitrine. Saí na rua.
A rua estava vazia.
Quando voltei pra dentro, as três meninas estavam olhando pra mim.
— Espera — aquele era o Pietro? — eu disse, porque o perfil dele era a única coisa em que eu conseguia me apoiar, o único loiro que eu meio que reconhecia.
As meninas pararam o que estavam fazendo e olharam pela vitrine. O Pietro — que morava duas ruas pra cima da casa da minha tia — estava passando agora, claramente não era o mesmo homem que eu tinha acabado de ver.
— Uai, é ele mesmo — disse a Olivia.
— Qual é a do Pietro, Anna? — a Bonnie sorriu. — Tá afim dele?
— Não! — Eu ri, balançando a cabeça. — Só lembrei dele da festa do Jacob. Sei lá.
A Olivia sorriu de canto. Ela tirou um vestido da arara com uma lentidão deliberada e lançou um olhar significativo pra Megan, que de repente estava muito focada numa saia.
— Talvez seja porque alguém aqui nessa sala ficou com ele.
Os olhos da Megan se arregalaram em pânico absoluto. A Bonnie e eu nos viramos pra ela ao mesmo tempo.
— OLIVIA — disse a Megan, no tom de alguém cuja execução tinha acabado de ser marcada.
— QUÊ?
— Espera — Megan? — Minha voz subiu. — O quê?
— Não é — quer dizer — não é grande coisa, tá?
A Bonnie caiu na gargalhada.
— Megan! Pietro? Vixe Maria, sério? Por que eu só tô sabendo disso agora?
— Não foi nada! Foi uma vez na festa do Jacob. A gente nem planejou. Só... aconteceu.
— Ah, com certeza aconteceu — disse a Olivia, sorrindo.
Eu pousei o vestido e cheguei mais perto da minha prima, ainda processando.
— Mas o Pietro, sô? Como eu não vi isso vindo?
— Eu também não, juro.
A Bonnie sorriu.
— Pô, isso aqui ficou interessante.
(Pô — abreviação de uma palavra que ninguém precisa dizer inteira. Significa surpresa, decepção, ou só "tá".)
A Megan se escondeu meio que atrás do vestido que estava segurando enquanto a gente trocava olhares divertidos ao redor dela, e por um momento tudo foi fácil — só meninas numa loja de vestidos zoando umas às outras sobre meninos, a luz clara da vitrine, o tilintar leve da sineta quando alguém entrava ou saía. O homem que eu tinha visto saiu da minha cabeça. Eu fazia dezoito anos no dia seguinte. A tarde era minha.
Comprei um vestido preto.
* * *

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