MEDRE, GAROTA
Uma história sobre partir e ser perseguida.
Escrito por Juliana Resende
* * *
Copyright © 2026 Juliana Resende. Todos os direitos reservados.
Nenhuma parte deste livro pode ser reproduzida ou distribuída de qualquer forma sem a autorização prévia por escrito da autora.
Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens e acontecimentos são produtos da imaginação da autora. Qualquer semelhança com pessoas reais, vivas ou mortas, é mera coincidência.
* * *
CAPÍTULO OITO — O Zappy
O Ethan pediu uma vodka cooler e um Gin Tônica.
— Obrigada, Pietro — eu disse, e o Pietro me deu um aceno pequeno e cúmplice.
— Gostei dela — ele disse pro Ethan.
— Suas amigas te abandonaram aqui? — o Ethan me perguntou, enquanto o Pietro se afastava.
— É. As meninas saíram com uns caras. Resolvi ficar.
— Bom. — Os olhos dele encontraram os meus por cima da borda do copo. — Que bom que você ficou.
A gente falou sobre tudo e nada. Ele era fácil de conversar. Escutava, o que parece simples mas não é. Ria nos lugares certos. Não preenchia os silêncios consigo mesmo. Me peguei me inclinando pra mais perto dele, gole a gole, drink a drink, até perceber que nossos ombros estavam se tocando.
— Sabe — eu disse, antes de poder pensar — tem alguma coisa em você.
— O quê?
Tentei pensar em como terminar a frase. A respiração dele estava muito próxima da minha. Eu conseguia sentir meu próprio coração na garganta. Ele estava me olhando com aquela atenção específica, do tipo lento, deliberado, e eu pensei: Vou beijar ele.
Mas antes que eu pudesse, olhei pra ele.
Só olhei.
E aí me inclinei e beijei a bochecha dele.
Ele riu — baixo, surpreso, quase encantado — e aí a mão dele estava na minha mandíbula e ele estava me beijando direito, e o bar desapareceu, e as pessoas em volta desapareceram, e em algum lugar atrás da gente o Pietro educadamente se recusou a fazer contato visual com qualquer um.
Quando a gente se separou, o Ethan sussurrou no meu ouvido:
— Você tá me deixando louco.
— Você não é nada mal também.
— Que tal a gente sair daqui? Continuar essa conversa num lugar mais reservado?
Eu hesitei.
— Não posso. Tô esperando as amigas da minha prima me buscarem. Tenho que estar na casa da minha tia de manhã, ou ela vai surtar.
— Bom. A gente pode ir, e eu te deixo lá.
A atração por ele era enorme. Mandei uma mensagem pra Bonnie dizendo que estava saindo com ele e ia encontrá-las em casa.
— Tá — eu disse. — Mas você precisa me deixar.
— Claro.
O Zappy chegou. O Ethan abriu a porta pra mim, e enquanto a gente entrava no banco de trás ele se inclinou pra frente e disse alguma coisa pro motorista em italiano.
— Buongiorno. Come va?
— Sto bene. — O motorista tinha sotaque carregado.
— Puoi andare.
— Sì. Dove stai andando?
— Quattro isolati più avanti. Grazie.
— Piacere mio.
Mantive o rosto neutro.
Aqui está a coisa que ninguém no bar sabia, e que o Ethan ia descobrir devagar, com o tempo, do jeito errado: a família do meu pai era de uma cidadezinha perto de Gênova. Minha avó me fazia decorar frases por telefone todo domingo, até os meus doze anos. Italiano foi a primeira língua que alguém sussurrou no topo da minha cabeça.
Eu tinha entendido cada palavra.
Ele tinha dito pro motorista quatro quarteirões à frente — só que o Ethan ainda não tinha me perguntado onde ficava a casa da minha tia. Ele estava planejando me deixar em algum lugar da escolha dele, e depois me perguntar.
Ele também tinha dito grazie daquele jeito de quem dá uma boa gorjeta. Familiar. O motorista provavelmente era um que ele usava sempre.
Eram coisas pequenas. Mas coisas pequenas estavam começando a ser o único tipo de coisa em que eu confiava.
Encostei a cabeça no banco e fiquei olhando a janela. Ele se virou pra mim com um pequeno sorriso satisfeito — o sorriso de um homem que pensa que acabou de performar alguma coisa charmosa pra uma garota que não conseguiu acompanhar.
— Que foi? — ele perguntou.
— Nada — eu disse, em português. — Só fiquei impressionada.
Quero deixar registrado, pra mim mesma, que eu fiz essa escolha de propósito. Eu sabia, naquele momento, que deixar ele achar que eu não entendi era um tipo de poder. O primeiro que eu tive com ele.
Eu fazia dezoito anos no dia seguinte. Tudo parecia uma porta.
Algumas portas, eu estava começando a aprender, a gente não atravessa. A gente observa.
* * *

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