MEDRE, GAROTA
Uma história sobre partir e ser perseguida.
Escrito por Juliana Resende
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Copyright © 2026 Juliana Resende. Todos os direitos reservados.
Nenhuma parte deste livro pode ser reproduzida ou distribuída de qualquer forma sem a autorização prévia por escrito da autora.
Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens e acontecimentos são produtos da imaginação da autora. Qualquer semelhança com pessoas reais, vivas ou mortas, é mera coincidência.
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CAPÍTULO QUINZE — Um Mês Depois
Vou comprimir o próximo mês pra você. Aqui está o que você precisa saber:
Não foi tudo ruim. Eu quero dizer isso, e que seja verdade, porque essa é a parte dessas histórias que normalmente não é contada. Ele era charmoso. Me fazia rir. Me levou pra jantar num pequeno restaurante italiano onde o dono o conhecia pelo nome e não piscou quando eu pedi vinho. Trazia livros das estantes dele. Fazia café pra mim de manhã, do jeito que eu gostava, sem perguntar.
Também não foi tudo bom.
O não-bom era pequeno no começo. Ele não gostava quando eu saía sem ele. Não dizia que não gostava — só ficava quieto depois, e o quieto tinha uma qualidade. Começou a me buscar em lugares onde eu não tinha convidado ele. Aprendeu os nomes das minhas amigas e perguntava sobre elas, casualmente, pelo nome, de um jeito que começou a parecer vigilância vestida de interesse.
Mandava mensagens com frequência. Não desproporcionalmente, no começo. Depois com frequência.
Perguntava onde eu estava. Perguntava com quem. Mandava mensagens de só passando pra ver se tá tudo bem que eu aprendi a responder na hora, porque não responder causava um tipo específico de silêncio do outro lado que eu passei a temer.
Eu dizia pra mim mesma que era amor. Dizia pra mim mesma que era cuidado. Dizia pra mim mesma muitas coisas.
Um mês depois da noite em que a gente se conheceu, acordei na cama dele às cinco da manhã.
Não lembro exatamente o quanto eu tinha bebido na noite anterior. Isso acontecia às vezes com o Ethan. Eu perdia pedaços de noites. Acordava desorientada. Ele sempre tinha explicações. Ele sempre trazia água e torrada de manhã. Ele era, dos jeitos pequenos e cuidadosos que homens do tipo dele sabem ser, muito bom em fazer a desorientação parecer evidência de quanta diversão a gente tinha tido.
O quarto estava cinza com luz quase-de-manhã. Ele não estava na cama.
Sentei devagar. Minha cabeça doía. Eu precisava ir embora.
Juntei minhas roupas do chão — quieta, com cuidado, do jeito que você se move quando não quer acordar alguém — e estava já na porta do quarto quando ouvi ele na cozinha, bebendo água. Toalha na cintura. De costas pra mim.
Congelei.
Voltei pro quarto. Voltei pra cama. Fingi dormir.
Ele entrou. Olhou pra mim — eu senti o peso do olhar dele, mesmo de olhos fechados — e aí entrou no banheiro. O chuveiro ligou.
Agora, pensei.
Levantei. Me vesti numa série de movimentos pequenos e aterrorizados. Saí na ponta dos pés passando pela cozinha.
O telefone dele estava no balcão.
Acendeu. Uma mensagem.
Depois outra. Depois outra. Três notificações empilhadas, todas do mesmo grupo.
Eu não devia ter olhado. Eu sei que não devia ter olhado. Mas as mensagens continuavam chegando — mano e caralho e e aí? — e minha mão já tava no telefone antes do meu cérebro alcançar.
O grupo se chamava Os Caras.
Eram seis.
Rolei pra cima.
A primeira foto minha era de um mês atrás. A noite que a gente se conheceu. Meu rosto, de perfil, iluminado pelo neon da balada. Sorrindo pra alguma coisa fora do enquadre. Eu não tinha sabido que a foto tava sendo tirada. Ele tinha mandado com a legenda alvo capturado.
As respostas voltaram uma a uma.
Drew: ela é gata
Hugo: idade?
Lorenzo: novinha kkkk
Marco: a ruiva de veneza?
Theo: ela é o prêmio, mano
Marco: ela é o prêmio
Essa palavra. Prêmio. Dois deles usaram. Como se eu fosse uma coisa que um deles tinha ganhado.
Continuei rolando. Fotos que eu nunca tinha visto — todas do meu rosto. Só do meu rosto. Eu num restaurante, rindo. Eu lendo um dos livros dele, cabeça inclinada, sem perceber. Eu no sofá dele de manhã, cabelo solto. Eu no carro dele, meio virada de costas. Foto atrás de foto do meu rosto, tiradas em ângulos que deixavam claro que eu não tinha sabido.
Toda foto tinha uma legenda.
Hugo: ela acha que o Ethan tá xonado
Drew: tão facinho lol
Lorenzo: você é doente kkkk
Hugo: como é estar nessa situação
Aí, uma semana depois disso, a pergunta que arrebentou tudo. Veio de alguém chamado Theo — o quieto do grupo, que mal falava.
Theo: mano cê não vai casar?
Theo: se a Stuart descobrir, ferrou
Parei de rolar.Li de novo.
Se a Stuart descobrir, ferrou.
Demorei um momento pra entender qual nome eu estava olhando. Pra encaixar. Stuart. A Professora Catherine Stuart? A Stuart cujo seminário de Arquitetura do Século Vinte aparecia no catálogo da UniBrown. A Stuart cujo nome eu tinha acabado de aprender três semanas antes quando eu tinha visto a lista de matérias do outono.
A noiva do Ethan Barberini.
Uma mulher que eu não ouvi falar. Uma mulher que estava, em algum lugar dessa cidade, acordando. Que provavelmente usava o anel dele. Que provavelmente não sabia que o homem com quem ela ia casar — o homem cuja família a família dela tinha aprovado — estava, naquele momento, mentindo pra duas mulheres ao mesmo tempo.
E o homem que tinha feito a pergunta, o Theo, era — eu ia descobrir depois — o irmão dela.
Rolei mais pra baixo com uma mão que não parecia minha.
O Hugo tinha mandado uma captura de tela uma semana antes. Uma capa de revista. A imagem carregou devagar na tela brilhante da cozinha e eu tive que esperar, congelada, vendo ela renderizar pedaço por pedaço.
Eram eles.
O Ethan num terno azul-marinho impecavelmente cortado, o cabelo penteado suavemente, o braço em volta da cintura dela. A Catherine num vestido de seda marfim, o solitário de platina visível na mão dela apoiada no peito dele. Estavam em frente a pedra — uma vila, uma vinícola, algum lugar caro. Luz dourada do fim de tarde pegando no cabelo loiro-mel dela, no loiro mais claro dele, a palidez impossível combinando entre os dois. A legenda na parte de cima da revista dizia: BARBERINI & STUART — O casal de ouro.
Eles ficavam lindos juntos.
Pareciam a capa de uma história de amor.
Hugo: kkkk olha isso. saiu hoje
Hugo: imagina a cara dela se visse
Drew: ela não vai ver.
Lorenzo: pode ver. a anna é esperta.
Drew: ela não vai ver. o ethan escolhe elas novas demais pra ler colunas sociais.
Eu estava parada na cozinha dele olhando pra mulher que era, em todos os sentidos que o mundo contava, a escolhida. Não eu. Ela. Sempre ela.
Ela não se parecia nada comigo. Essa era a pior parte. Ela não era um "tipo." Era o oposto de um tipo. Era alta e loira e elegante e tinha vinte e cinco anos e vestia roupas que custavam mais do que minha mãe ganhava num mês, e o Ethan era noivo dela há dois anos.
E eu tinha uns meses.
Continuei rolando. A conversa tinha durado semanas.
Lorenzo: não se apaixona pela ruiva, ethan
Ethan: nem rola
Hugo: ela é nova
Drew: esse é o ponto
Aí, mais recente.
Hugo: update?
Drew: duas semanas se passaram. E ai?
Ethan: ganhando
Theo: a Stuart ainda não sabe?
Ethan: a Stuart tá em Gênova até setembro.
Marco: safado sortudo
E a frase que eu ia pensar depois como o momento em que o chão sumiu debaixo de mim — três dias atrás, o próprio Ethan tinha digitado:
Ethan: relaxa. Stuart é o casamento. Anna é ficada.
A última foto carregou enquanto eu olhava. Era eu. De menos de duas horas atrás. Ele tinha tirado naquela noite, na cama dele, enquanto eu dormia. Só o rosto. Olhos fechados. Cabelo no travesseiro. Tranquila.
A legenda dizia quase acabando.
As mensagens mais recentes — as que tinham acabado de acender a tela — eram do Drew.
Drew: kkkk você não se sente mal.
Drew: aniversário dela tá chegando
Drew: encerra com chave de ouro. kkkk
Apareceu uma notificação em uma janela separada.
Theo: Ela vai dar aula na Unibrown no começo do semestre.
Acho que o Ethan nao tinha lido a mensagem ainda.
Eu estava parada na cozinha de um homem que eu tinha pensado que estava escolhendo, e entendi, pela primeira vez, o que ser escolhida pelo Ethan realmente era.
Eu não era namorada. Não era um erro. Eu era um verão.
A porta do banheiro abriu.
— Oi. Pra onde você tá indo?
Eu não consegui falar. Acho que fiz algum som. Não sei que tipo.
Ele olhou pra mim. Olhou pro telefone, do lado do qual eu ainda estava parada. A tela ainda estava acesa. O grupo ainda estava aberto.
Vi o entendimento se mover pelo rosto dele como tempo, e o que veio depois não foi pânico, e não foi vergonha.
Foi cálculo.
E aí — porque ele era muito bom — o cálculo deu lugar a outra coisa. Alguma coisa que ele tinha ensaiado, talvez, pra caso esse dia chegasse. O rosto dele desmoronou. Ele deu um passo na minha direção. As mãos dele se ergueram vazias, abertas, do jeito que os homens fazem quando querem que você acredite que estão desarmados.
— Anna. Anna. Por favor. Por favor me escuta. Eu sei como isso parece—
Eu dei um passo pra trás.
— Eu sei como parece e eu sei o que eu mereço. Mas por favor. Por favor. Só um minuto. Anna. Por favor.
— Você é noivo.
— Não é—
— Você é noivo da Stuart? Quem é Stuart?
Ele fechou os olhos. Suspirou como um homem que estava se preparando pra essa frase exata há anos.
— Sim. Sim. Eu sou noivo. Da Catherine. Foi combinado quando a gente tinha dezenove anos, Anna. Dezenove. A família dela — minha família — não é um casamento, é uma fusão. São duas propriedades tentando manter as licenças de vinho. Eu não amo ela desde criança. Eu nunca amei. Eu—
Ele respirou. A próxima parte saiu mais rápida, como se ele tivesse medo de eu ir embora antes dele terminar.
— Começou — sim, começou como uma coisa idiota. Com os caras. Tinha uma aposta. Tá? Verão passado. Eu ia — Anna, olha pra mim, olha pra mim — eu ia ter um último verão antes do casamento, e os caras transformaram numa piada idiota, e eu falei sim porque eu tava com raiva e tava preso e tinha vinte e seis anos casando com uma mulher que meu avô escolheu. Eu falei sim. Não tô negando. Eu falei sim.
A voz dele falhou. Eu nunca tinha ouvido a voz dele falhar. Eu ia me perguntar depois se ele tinha treinado isso também.
— Mas Anna, escuta. Isso parou de ser o que era. Na primeira noite. Na primeira hora. O Uber. Eu te juro. Eu não consegui mais nem olhar pros caras do mesmo jeito. Eu não consigo nem olhar pra Catherine do mesmo jeito. Porque — porque você—
Ele estava chorando agora. Lágrimas de verdade. Ou lágrimas que pareciam de verdade, o que às vezes é a mesma coisa.
— Porque eu te amo. Eu sei que parece loucura. Eu sei que essa é a pior coisa possível pra eu dizer agora. Mas é a verdade. Começou como um jogo. Eu não tô negando. Mas Anna — por favor — em algum ponto deixou de ser um jogo. Eu virei real. Você fez isso comigo. Eu vou terminar com a Catherine. Eu vou. Eu estava esperando até — eu não sei o que eu estava esperando. Eu era um covarde. Anna por favor. Por favor. Eu tô te escolhendo. Agora. Nessa cozinha. Eu tô te escolhendo.
Tô te contando isso porque eu quero deixar registrado, o que eu senti naquele momento, antes de eu saber melhor:
Uma parte de mim quis acreditar nele.
Eu quero ser honesta sobre isso. Eu quero escrever onde eu posso ver. Porque a coisa mais perigosa sobre um homem como o Ethan não é que ele mente. Mentiras são fáceis. A coisa mais perigosa é que ele às vezes está dizendo a verdade, ou dizendo alguma coisa perto o suficiente da verdade pra que a parte de você treinada pra querer ele tente alcançar.
Uma parte de mim — a parte que tinha passado um mês aprendendo o rosto dele, o café dele, o formato do ombro dele no escuro — quis acreditar que eu tinha sido a pessoa que arrancou ele da gaiola. Quis ser a garota da história que tinha salvado ele do casamento sem amor. Quis ser a real.
Essa parte de mim quase estendeu a mão e tocou o rosto dele.
O resto de mim olhou de volta pro telefone.
A foto mais nova ainda estava na tela.
Eu estava dormindo. Meu rosto. Tranquila. Quase acabando.
Ele tinha tirado de menos de duas horas atrás. Depois do que ele tinha dito pros caras que estava fazendo. Depois do que virou real que ele agora estava me implorando que eu acreditasse.
Um homem que estava me escolhendo não mandava quase acabando pros amigos enquanto eu dormia.
Um homem que estava me escolhendo teria terminado o noivado antes de me tocar pela primeira vez.
— Anna, por favor, você não pode — você não pode ir embora assim. Me deixa explicar. Me deixa te mostrar. Por favor.
Eu não deixei ele explicar.
Eu corri.
* * *

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