MEDRE, GAROTA
Uma história sobre partir e ser perseguida.
Escrito por Juliana Resende
* * *
Copyright © 2026 Juliana Resende. Todos os direitos reservados.
Nenhuma parte deste livro pode ser reproduzida ou distribuída de qualquer forma sem a autorização prévia por escrito da autora.
Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens e acontecimentos são produtos da imaginação da autora. Qualquer semelhança com pessoas reais, vivas ou mortas, é mera coincidência.
* * *
CAPÍTULO DEZESSETE — Gynopolis
Duas semanas passaram.
Eu morava num apartamento minúsculo no quinto andar de um prédio em Gynopolis, com janelas que não fechavam direito e um ventilador que fazia barulhos estranhos à noite. Coloquei fotos. Comprei uma planta. Tornei meu, devagar, do jeito que se faz quando se está tentando se convencer de que se está em algum lugar novo.
A Megan veio me visitar num sábado com um presente de inauguração e olhos grandes.
— Vixe, Anna. Cê fez desse lugar a sua cara. Tá bem acolhedor.
— Obrigada. Foi um trabalho de amor.
A gente sentou no sofá. Ela desembrulhou uma velinha pra mim. Me contou do verão dela — do Bruno, principalmente, e do casamento que ela tinha ido com a Bonnie, e do novo namorado da Olivia que era aparentemente insano de um jeito que significava que a Olívia estava muito feliz.
Aí ela disse:
— Você falou com o Ethan?
Eu não tinha contado pra ela o que eu tinha visto no telefone dele. Não tinha contado pra ninguém. Não tinha contado sobre o grupo, nem sobre o noivado, nem sobre uma mulher chamada Catherine Stuart que eu nunca tinha conhecido.
O motivo real — o que eu odiava admitir — era que eu me sentia idiota. Pequena e idiota e envergonhada. Eu tinha sido uma de dezoito anos que tinha pensado que estava escolhendo um homem mais velho sofisticado e na verdade tinha sido apenas o passatempo dele - uma coisa que seis homens chamavam de prêmio num grupo enquanto a noiva de verdade do cara estava esperando em Gênova. Eu não queria ser a prima que voltava com aquela história. Não queria estragar o verão da Megan com o que o meu tinha realmente sido.
Então eu disse:
— Tô ocupada me preparando pras aulas.
— Anna.
— Quê?
Ela estudou meu rosto.
— Que que cê tem?
— É nada. — Tentei manter a voz leve. — Só nervosismo de pré-faculdade.
Ela não acreditou. Não insistiu. Esse era o dom particular da Megan — saber quando insistir e quando esperar. Ela apertou as mãos em volta da caneca e disse:
— Cê sabe que pode me ligar a qualquer hora, né? Gynopolis não é tão longe de Veneza, sô. Oitenta quilômetros e tô aqui. Meia hora e eu to aqui se pegar o carro do meu irmão.
— Sei. Você literalmente mora a uma hora de ônibus.
— Verdade. — Ela sorriu, mas era mais fino do que o usual. — Tá. Vou indo. Me avisa se precisar de qualquer coisa.
Ela foi.
Sentei no meu apartamento por muito tempo, vendo a luz do fim da tarde do cerrado se mover pela parede. A tarde de Gynopolis tem uma cor específica em outubro — meio dourada, meio rosa, com aquele calor seco que faz parecer que tudo tá em pausa antes do trovão.
Aquela noite eu sonhei com ele.
Sonhei que estava andando por um corredor escuro e uma voz estava me chamando pelo nome, baixa, íntima, e eu segui até uma porta, e abri a porta, e o Ethan estava sentado numa cama esperando por mim. Eu to aqui, Anna. Ele pegou minha mão. Me puxou pra ele. Te peguei e não vou mais te soltar. Eu queria ir e não queria ir em medida igual, e o querer era a pior parte do sonho.
Acordei ofegante.
Fui até a janela. O sol estava nascendo sobre a cidade.
Foi só um sonho, eu disse pra mim mesma.
Amanhã é meu primeiro dia de aula. Nem vou ver ele.
* * *

Comments (0)
See all