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Secrets - Versão em Português

CAPÍTULO SEIS - ALEXEI

CAPÍTULO SEIS - ALEXEI

Aug 24, 2026



   — É essa! — disparou Alícia.

   Despejei o detergente na esponja, enquanto isso meu quadril movia-se sozinho no ritmo de Buttons, rebolando em movimentos lentos e sensuais, digno da introdução da música.

   Me virei de costas para a pia, passando a mão pelo meu peito, descendo pelo meu corpo.

  — Vamos lá, Alícia! — disparei, completamente à mercê da música. — I'm telling you to loosen up my buttons, baby!

   — But you keep frotin’!

   — Saying what you gon’ do with me! — Alicia levantou da cadeira, aproximando-se e ficando do meu lado. — But I ain't seen nothin’!

   — I'm telling you to loosen up my buttons baby!!!

   Me virei, rebolando de um lado ao outro conforme passei a esponja pelo prato, seguindo para os outros. Apesar de ter um lava-louças, nada melhor do que aproveitar o último sábado de paz que eu teria dando uma geral na bagunça que Alícia e eu fizemos na noite anterior.

   Ayla passou a tarde dormindo, e quando acordou, Alícia e eu já estávamos fazendo nossa pequena bagunça na cozinha enquanto preparamos o jantar. A lasanha não teria dado muito trabalho se Alícia não tivesse inventado de fazer massa fresca, o que fez uma simples lasanha acompanhada de creme de batatas e bife virar uma bagunça, e consequentemente uma enorme pilha de louças.

   — Já terminou os pratos? — questionou Ayla, aparecendo na cozinha com uma sacola de lixo na mão, enquanto equilibrava com maestria uma pequena pilha de copos na outra. — E por favor, mudem essa música.

   Alícia mostrou a língua para ela. Ayla era perfeita, seu único defeito era odiar Buttons sem um motivo plausível. Ela simplesmente odiava uma das melhores músicas já feitas… Quero dizer, na categoria “melhores músicas para se dançar”, Buttons era top 5.

   Me aproximei de Ayla, pegando os copos de sua mão, e aí estava um dos meus defeitos: levar coisas da cozinha para o quarto e esquecer lá. Sabia que isso irritava ela, e por mais que eu tentasse evitar, na maioria das vezes eu sequer me lembrava de ter feito. 

   Deixei um beijo em sua bochecha antes de Ayla se afastar para levar o lixo para fora. 

   — Que tal vocês começarem a contratar alguém pra faxina, em? Cansei de virar escrava de vocês.

   — Que tal a gente começar a cozinhar na sua casa?

   Alícia jogou o pano de prato sobre os ombros, encarando o nada por um momento.

   — Esquece o que eu disse — deu de ombros, aproximando-se para pegar um dos pratos que eu tinha acabado de enxaguar.

   Em meio a danças desengonçadas e músicas que não seguiam uma ordem muito comum — pois depois de Buttons a música que começou a tocar foi Stone Cold da Demi Lovato —, terminamos de arrumar tudo pouco antes do almoço.

   Quase duas horas depois, eu estava levando Ayla até a produtora, onde ela trabalhava em uma equipe com mais oito roteiristas. Tentei manter a mesma energia contagiante que estava comigo desde o jantar com Alícia no restaurante do meu primo, mas parecia difícil naquele momento.

   Fazia dois dias que eu estava tranquilo, como se não faltasse menos de 48hrs até meu pior pesadelo começar.

   Ayla estava no passageiro, tínhamos acabado de deixar Alícia em sua casa e agora íamos para o centro de Londres, o que ainda levaria cerca de 40 minutos. O dia estava nublado, algo normal, mas a chuva fina criava uma atmosfera tão aconchegante que a impressão que tinha era que estava tudo em paz.

   — Então… — prolonguei, massageando a coxa de Ayla por cima de seus jeans claro, um hábito que sentia falta durante os passeios de carro que fazíamos às vezes. — Ainda rola aquele jantar hoje?

   Ela acariciou minha mão, sinal que estava de bom humor.

   — Olha, Aleh, eu não quero sair hoje — começou ela, fazendo certo desapontamento cair sobre mim. — Mas, a gente pode fazer um jantar em casa. Só nós dois. O que acha?

   — Quer mesmo fazer isso?

   — Ah, acho que vai ser melhor. Faz tempo que a gente não curte uma noite assim — ela desviou sua atenção para a calçada, onde algumas lojas pareciam tão pacíficas quanto o clima da cidade naquele dia. — Também podemos só pedir uma pizza, assistir alguma coisa.

   Seus dedos subiram por meus braços, acariciando acima do meu cotovelo, onde o suéter que usava escondia a tatuagem que, segundo Ayla, era sua preferida. Era apenas uma grafia misturando minhas próprias iniciais com a dos meus pais, que fiz como uma breve homenagem para o aniversário de 20 anos de casamento deles.

   Seu dedo acariciou aquela área, um gesto que conhecia bem, pois Ayla tinha o bom e velho costume de me tocar ali quando desejava muito mais do que eu podia dar a ela naquele momento enquanto dirigia.

   Mesmo assim, depois de dias sem sexo apenas aquilo foi o suficiente para fazer meu peito acelerar ao mesmo tempo que o calor percorreu meu corpo.

   O sinal fechou, e com isso me deixei aproximar os dedos da parte interna de sua coxa.

   — Só pra deixar claro, você está mesmo falando o que estou pensando, não é?

   Ayla sorriu, se inclinando em minha direção, descendo sua mão até a minha coxa. Sua respiração quente fez cócegas em meu pescoço, me fazendo segurar o ar antes que eu ficasse completamente duro ali.

   — Amanhã estamos de folga, Alexei, não temos que sair da cama cedo.

   Ela levou sua mão até minha nuca, roubando um beijo, enquanto sua mão se aventurou em meu abdômen. Estávamos expostos, sabia bem disso, mas amava quando Ayla decidia partir para o ataque.

   Meu corpo correspondia a seus lábios como se fossem a faísca que faltava para me queimar ali mesmo. Mas eu não podia. Por mais que meu desejo por seu corpo estivesse me deixando a um passo de jogá-la em cima de mim e fodê-la ali mesmo, me afastei de sua boca ao som da buzina do carro de trás.

   Me ajeitei no banco, avançando com o carro. A atmosfera ali dentro parecia quente demais, então liguei o ar enquanto ela mantinha aquele mesmo sorriso no rosto. As bochechas rosadas pela maquiagem e um olhar que seria capaz de me hipnotizar. Contudo, Ayla logo virou seu rosto ao passo que seu sorriso sumiu, e seu olhar caiu sob a calçada.

   Sua mão continuava em minha coxa, mas a força de seus dedos era apenas um carinho sutil. Respirei fundo, evitando perder o controle durante o restante do caminho. A única vez que conversamos foi quando Ayla me pediu para passar numa lanchonete antes de enfim chegarmos na produtora.

   O escritório não era tão chamativo, a entrada com painéis de vidro refletia os carros que passavam na rua, enquanto a logo prateada estava acima da entrada.

   Ayla pegou sua bolsa no banco de trás, enquanto eu não conseguia deixar de observá-la. Fosse por seus cabelos soltos, o perfume doce que dominava tudo ou pelo simples pensamento de que queria ter tirado completamente aquele batom vinho de seus lábios.

   Me inclinei em sua direção, acariciando seu queixo com cuidado para não estragar a maquiagem.

   — Tem certeza sobre o que falou? Se quiser cancelar, tudo bem, eu…
Sua mão tocou meu pescoço, e seu polegar acariciou os pelos recém aparados da barba.

   — Não vou cancelar, ok? Vamos aproveitar nossa noite, Aleh — em um movimento calmo, sua boca tocou a minha em um beijo quase contido, como se também estivesse evitando perder o controle.

   Ao menos foi isso que escolhi acreditar conforme ela desceu do carro, acenou em uma despedida breve e seguiu para dentro do prédio.

[...]

   Eu tinha 17 anos quando, pela primeira vez, me interessei sexualmente por outro cara.

   Na época, a mesma chuva que caia em Londres estava caindo na Itália durante as férias de fim de ano. Eu aproveitava a liberdade que tinha para dar festas que, até onde meus pais sabiam, eram pequenas reuniões com alguns amigos — na realidade, eram pequenos encontros à base de bebidas roubadas da adega do meu pai, que fingia não notar as garrafas de whisky e vinho que sumiram semanalmente durante aquelas férias.

   Teodoro era um conhecido, amigo de uma amigo que fiz em um clube italiano daquele ano. Poderia dizer que apenas me senti atraído por ele porque fui apenas mais uma vítima do álcool, mas Teo e eu fomos os únicos sóbrios que restaram ao fim da noite.

   Lorenzo e Giulia estavam apagados lado a lado no sofá, eram o casal do grupo. Matteo, o jovem de cabelos dourados e roupas cinzas e que estava jogado no chão atrás do sofá, era o amigo Teo, que por sua vez estava sentado de frente para mim, segurando suas cartas como se fosse capaz de vencer de mim.

   Sabia que não era. Faltava apenas uma carta para eu vencer, e tinha a plena confiança de que seria capaz de ganhar. Levei minha mão até o monte de cartas, notando o olhar demorado de Teo em minha mão, que logo se voltou até mim.

   — E então? — indagou ele. — Está com medo?

   — Não tenho medo de ganhar — afirmei, puxando a carta.

   Nove de copas. Bufei, deixando a carta cair sobre o outro monte.

   — Parece estar sem sorte, Carter — desdenhou ele, abrindo um riso baixo. Teodoro elevou sua mão à altura de seus olhos, observando suas cartas, então me observou mais uma vez.

   Meu peito se agitou com seu olhar demorado, como se tivesse bebido mais do que lembrava-me e agora tentava achar um lugar para me apoiar por um momento. Ao abaixar as mãos, vi quando ele lambeu seus lábios, o que soou mais privativo graças ao som da chuva que batia na janela ao nosso lado.

   — Você não gosta de perder, não é?

   — Ninguém gosta de perder — dei de ombros.

   — Nesse caso, uma aposta deixaria as coisas mais divertidas?

   Teodoro encarou minha boca, e ali entendi o que se passava em sua mente. No fim, larguei as cartas ali mesmo e dei a Teodoro o que ele queria. Pela primeira vez que transei com um cara, me sai muito bem, já que transei com Teodoro até o dia em que voltei para Londres e ele nunca reclamou de como eu fodia ele. E mesmo se reclamasse, duvido que seus gemidos fossem de alguém que não estava se divertindo.

   Mas agora, a chuva que batia na janela não me trazia certeza de nada. Anos atrás, transar com Teodoro foi apenas uma confirmação do que eu já suspeitava. Foi uma noite onde o prazer se tornou grande o suficiente para me fazer acreditar que ele e eu teríamos algum tipo de relacionamento. Contudo, tudo o que havia agora era incerteza e a esperança de que tudo realmente fosse passageiro.

   Havia sim certo medo de que aquela noite não acabasse como eu desejava, e eu não desejava transar com Ayla somente por prazer, mas… talvez fosse um sinal de que ainda tinha chance de tudo dar certo entre a gente.

   Deixei a caixa de chocolates em cima da mesinha na sala, me sentando no sofá enquanto encarava o celular com receio de que a maldita ligação surgisse e com ela o cancelamento do encontro.

   Uma leve pressão sob meu peito me fez esfregar as mãos. Respirei fundo duas vezes. Nos últimos anos, desde que notei estar gostando de Ayla, nunca tive problemas em passar dias afastado dela devido ao trabalho, como na vez que fiquei um mês em Los Angeles. Todavia, a saudade estava lá a cada momento, as ligações eram constantes, fora a viagem que Ayla fez a Los Angeles depois de duas semanas de afastamento.

   Agora, tudo era… diferente. 

   Nas últimas três semanas estávamos nos encontrando quase que diariamente, Ayla dormia em minha casa, dividimos a mesma cama, mas tinha algo peculiar ali — e não era unicamente pela falta de sexo.

  Ao mesmo tempo, a esperança de que fosse apenas algo passageiro me trazia certo conforto, como se realmente fôssemos capazes de lidar com a estranha aura que passou a nos acompanhar, e que nas últimas semanas piorou drasticamente.

   Havia conversa, mas parecia tudo tão automático, dando-me a impressão de que o fim estava ali — a um passo do abismo.

   — Caralho! — berrei contra a almofada, aliviando a pressão no peito. 

   Queria tanto voltar a fazer minhas brincadeiras com ela, a flertar como se fôssemos dois idiotas que não tinham a capacidade de segurar os ânimos. Queria voltar a dormir com ela em meus braços, enrolar na cama porque senti-la perto de mim era mais confortável do que enfrentar o dia. Queria voltar a planejar viagens, a mudar os planos para que pudéssemos ficar mais tempo juntos, conversar sobre coisas que eu não teria coragem e falar com mais ninguém além dela. Eu queria… tanta coisa.

   Escutei um passo na porta da entrada, e então o som da maçaneta me fez levantar. Ayla jogou sua bolsa no chão antes de se virar para trás, fechando o guarda-chuva e deixando-o no cabide externo. Suas bochechas estavam rosadas quando me aproximei, e logo um riso sutil surgiu em seu rosto.

   — Está atrasada — murmurei puxando-o para mais perto.

   Passei a tarde inteira pensando nas possibilidades daquela noite — boa parte no que poderia dar errado —, o que fez a ansiedade se tornar ainda mais difícil de lidar.

   Ayla me mostrou um sorriso, dando um breve beijo em mim.

   — Posso tomar um banho? Acho que…

   — A gente pode tomar um banho juntos — eu sugeri, fechando a porta com o pé antes de levar minha mão até sua cintura, ignorando a umidade de seu casaco.

   Seu perfume não estava tão forte quanto mais cedo, mas ainda estava ali quando abaixei meu nariz até seu pescoço, inspirando fundo. Rosa e mel.

   Observei seus olhos, onde havia algo escondido.

   — Está tudo…

   Ayla me puxou pela nuca, colando sua boca na minha em um movimento inesperado, mas no qual aceitei de imediato.

   Pressionei minha virilha contra sua cintura, puxando-a para mais perto conforme minha língua invadiu sua boca. Seus lábios estavam calmos, mas havia certa tensão neles — a mesma tensão que senti quando toquei a pele de sua cintura.

   Ayla massageava minha nuca. Sua língua movimentava-se em minha boca. Sua respiração estava entrecortada. Seu peito subia e descia em um ritmo eufórico. Tudo parecia tão normal — mas não estava ali.

  Os sentimentos que antes eu sentia a cada mínimo movimento parecia ter deixado seu corpo. E, alimentando ainda mais meu medo, meu pau deu sim sinal de vida, mas não sei se era pelo motivo certo.

   Provavelmente foi a carência causada pela falta de algo mais íntimo e físico, mas emocionalmente era o neutro que estava dominando cada movimento entre nossos corpos.

   E o estalo surgiu em minha mente como o raio em meio a tempestade.

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henriquefr
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Queria que essas 48 horas passassem voando para que essas benditas gravações finalmente começassem.

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