"We see everything, we play with it. We do it again, we fall for it. We run, run, run, run."
We Run - NEIGHTZ
Segurei um riso antes que Peter desviasse sua atenção para o espelho a minha frente. O som do sino chamou minha atenção, e Peter interrompeu o que fazia, virando-se para trás.
— Finalmente — resmungou, largando o pincel sobre a bancada. — Já estava começando a achar que você tinha morrido.
— Que pena que não — respondeu uma voz que reconheci imediatamente, trancando minha respiração.
Peter abriu um sorriso. Não me dei ao trabalho de virar a cadeira, mas o observei através do reflexo. Alexei estava parado próximo à entrada, acompanhado de Lucy, que segurava uma pasta contra o corpo enquanto olhava em direção ao restante da equipe. Ele parecia... normal.
Ou quase.
Vestia uma camiseta clara por baixo da jaqueta de couro, tinha os cabelos levemente bagunçados, o que me causou certo estranhamento. Não me lembrava de estar ventando do lado de fora. E sua expressão era tão… inesperada.
— Me desculpe pelo atraso, não vai se repetir — foi a primeira coisa que disse.
Peter estreitou os olhos.
— Você está doente?
Alexei endireitou seus ombros.
— Eu pareço… mal.
Lucy segurou uma risada, aproximando-se deles.
— Foi culpa minha, esqueci minha bolsa em casa — falou ela.
Foi então que Alexei finalmente olhou em minha direção. Ou, pelo menos, foi o que pensei. Seus olhos passaram por mim tão rápido que fiquei na dúvida se realmente tinha me visto antes de se virar novamente para Peter.
— Onde eu me sento?
O sorriso desapareceu do meu rosto. Peter olhou para mim, depois para Alexei.
— Ali.
Ele apontou para a cadeira vazia ao meu lado.
Alexei apenas assentiu. Por algum motivo, esperei que ele dissesse alguma coisa. Não precisava ser um bom dia. Também não esperava um sorriso ou qualquer coisa parecida.
Mas alguma provocação seria suficiente.
Um comentário idiota.
Uma indireta.
Qualquer coisa que fosse compatível com o Alexei que conhecia então. Ele passou por trás da minha cadeira e simplesmente se sentou ao meu lado. Sem comentários ou olhar irritado…
Franzi o cenho.
— Uau — disparei sem pensar.
Ele bufou, então tirou o celular do bolso.
— O quê?
— Nada.
Alexei olhou para mim.
— Então por que falou?
— Porque eu quis.
— Ótimo.
Sua atenção foi para o celular.
Fiquei encarando o perfil dele por alguns segundos.
— Por que está agindo estranho?
Alexei ergueu os olhos.
Por um instante, achei que finalmente iria ouvir alguma das respostas atravessadas que estava esperando desde o momento em que ele entrou.
— Eu não estou agindo estranho.
Abri a boca, mas não consegui responder imediatamente, pois o silêncio tomou o lugar.
Peter, que observava nossa conversa através do espelho enquanto organizava os produtos, ergueu uma sobrancelha.
Alexei desviou o olhar até Lucy, que estava ao lado da bancada. Ela se aproximou dele, tocando seus ombros num gesto de carinho antes de se afastar, o que apenas aumentou minha desconfiança.
Alexei continuou em silêncio conforme Peter se dividiu para nos maquiar. E aquilo, definitivamente, era a parte mais estranha de todas.
[...]
— Tudo pronto? — questionou Lucien atrás da câmera principal, embora ao seu lado estivesse o painel com a visão das outras duas câmeras em diferentes pontos.
Respirei fundo, revisando as falas em minha cabeça. Tentei me livrar do nervosismo que momentos antes me dominava.
Com os refletores ajustados, o assistente de produção bateu a claquete.
— Ação!
Me virei para a máquina de café, apertando o botão que ligou o maquinário, fazendo o expresso cair direto na xícara de vidro. O aroma do café inundou meu nariz a tempo que o sino soou. E ali, foi como se tivesse um olho em minha nuca, pois conseguia visualizar Alexei entrando pela porta, desviando a atenção do celular em suas mãos, me encarando pelas costas e então dando três passos em direção a fila.
Como pensei e visualizei, foram 20 segundos até eu escutar a cliente resmungar, e então a máquina desligou com o pedido que já estava sendo processado ao lado. Segurei a xícara quente.
— Espresso duplo — me virei, sendo alvo da câmera à minha direita.
O rapaz à minha frente sorriu, pegando seu café.
— Obrigado — agradeceu ele.
— Eu não pedi um expresso, pedi um café gelado — resmungou outra cliente.
Bufei, então joguei o guardanapo sobre os ombros.
— Senhora, vou fazer o seu pedido agora…
— Como assim ainda não começou? — disparou, me fazendo ficar realmente irritado e com ela. — Já tem cinco minutos que estou aqui na fila.
Caso eu realmente trabalhasse em um café e ela fosse uma cliente, eu com certeza teria ficado irritado de verdade com seu tom de voz.
Respirei fundo.
— É só uma cliente, Joonho — murmurei, me virando. — Já vou fazer seu pedido, senhora.
Apoiei o copo alto no balcão, colocando os cubos de gelo até quase a borda. Atrás de mim, os resmungos da cliente eram como sussurros irritantes, facilitando o trabalho que eu teria na próxima fala. A câmera aproximou-se quando virei o corpo com naturalidade, alcançando a máquina de espresso.
Os segundos seguintes foram de quase silêncio enquanto a câmera captava o close do café escuro caindo no copo, quente e denso. O cheiro dos cubos rachando foi interessante, devo admitir, e o aroma… suspirei, admirado com o aroma daquele café.
Puxei o xarope de baunilha, despejando uma camada generosa como instruído por Sully, a barista que realmente trabalhava naquele café. Girei o copo com calma, então eu acrescentei o leite gelado, que se espalhou formando redemoinhos pelo café.
Com a colher longa, mexi devagar.
— Qual é, que demora é essa?
— Quem diria que teriam que esperar numa fila para conseguir um café, não é? — escutei Alexei dizer.
Por um segundo, eu travei, pois sua fala não estava no roteiro. Contudo, Lucien não interrompeu, então segui e me virei.
— Aqui está, um café gelado grande com xarope extra — falei.
A moça deu um riso qualquer quando segurou o copo morno, que se tornava cada vez mais gelado.
— Corta! — disparou Lucien.
Pisquei rápido, vendo Alexei atrás da moça, seu olhar parecia fixado no celular antes de desviar até mim, seguindo até Lucien.
Seus cabelos negros e os olhos escuros ganharam um tom levemente alaranjado por conta do enorme refletor que simulava a luz do sol.
— Ótimo, gente — comentou Lucien.
Ele deixou sua cadeira, vindo até nós.
— Alexei, ótima fala improvisada, bem a cara do Luke em soltar esse comentário — elogiou ele, me fazendo revirar os olhos. — San, está pronto?
Respirei fundo, sabendo que precisava estar. Caso contrário, o erro da cena me traria 30 minutos extras para precisar me limpar e então voltar a gravar.
— Claro, vamos nessa — afirmei.
Lucien sorriu, levantando seus polegares.
— Em seus lugares! — disparou. — Eddy, foco na reação do Alexei — avisou ele ao cenografista próximo de Alexei, cuja câmera estava coberta por uma capa plástica. — Julie, está pronta? — indagou ele para a atriz que estava fazendo o papel da cliente.
Ela sorriu, trazendo uma doçura que instantes atrás não existia em seu rosto.
— Cena do café, parte dois — disse o assistente, e então ele bateu a claquete.
— Ação!
Peguei o copo, entregando-o para a cliente. Ela me olhou com certo deboche no olhar.
— O que é isso? Eu quero um café gelado, mas não congelado. Esquenta um pouco.
Tombei levemente minha cabeça.
— Desculpa? Você quer um café gelado… quente?
Ela deu de ombros.
— Exatamente, não gosto dele tão gelado assim.
Sorri ironicamente.
— Senhora, não tem como esquentar o gelo.
Atrás dela, Alexei abafou uma risada.
— Acho que alguém não sabe muito bem sobre física.
Ri baixo, o que fez Julia levantar uma sobrancelha em resposta.
— Ah, então eu sou engraçada agora? — disparou ela num improviso excelente.
Respirei fundo, sabendo qual seria seu próximo passo. Vi ela dar um passo para frente, então pegou o copo e jogou sua mão para frente. Meu corpo tremeu a tempo que o café escorreu pela minha camiseta, seguindo até minhas calças.
Meu peito subia e descia conforme mantive minha expressão de surpresa. Ao seu lado, Alexei mantinha uma expressão de quem queria rir, mas precisava manter a expressão de surpresa.
Minha respiração se mantinha agitada quando passei minha mão pela bancada, então senti o copo que a produção deixou pronto. Segurei o copo e levantei a mão, atrasando meu movimento por dois segundos: tempo o suficiente para Julia mudar sua expressão, então se abaixar. Com isso, joguei o líquido para frente, atingindo o rosto de Alexei em cheio.
O líquido sujou tudo em volta conforme escorreu por seu rosto, enquanto minha expressão se manteve estática. Prendi o ar, então encarei o copo em minha mão.
O líquido marrom que restou no copo né fez fechar os olhos. O aroma do chocolate se espalhou pelo ar. Meu peito travou.
Quando voltei a abrir os olhos, vi Alexei passar sua mão no rosto, tirando o excesso de chocolate. Em seus olhos pude ver a raiva contida a tempo que ele respirou fundo. Mesmo escondido debaixo do marrom eu conseguia ver sua pele se tornando avermelhada.
O calor dominou meu rosto.
— O que caralhos foi isso? — murmurou enraivecido.
Dei um passo para trás, sentindo o vazio dominar meu estômago.
— E-Eu não…
— Você fez de propósito, não é? — me acusou. Pisquei, puxando o ar com calma. — Qual a porra do seu problema, em? Não sabe fazer a porra do seu trabalho direito?
— C-Claro que não — tentei me defender, observando o copo ao lado, onde a água estava. O copo que eu deveria ter pego. — Q-Quero dizer, sei fazer meu trabalho. Eu apenas…
— Não sei como foram capazes de te contratar para trabalhar aqui.
Meu corpo gelou. Fechei minha expressão.
— Quem você…
— O que aconteceu aqui? — disparou Jorge, o ator de boné vermelho e um bolo decorado em mãos.
Ele encarou tudo ao seu redor, então fechou sua expressão.
— Corta! — anunciou Lucien.

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