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Secrets - Versão em Português

CAPÍTULO NOVE - ALEXEI

CAPÍTULO NOVE - ALEXEI

Sep 14, 2026




A fumaça inundou meu pulmão em um alívio momentâneo. Sabia que não iria resolver meus problemas, mas a cada tragada no cigarro sentia-me mais leve, como se aquele chocolate em minha camiseta fosse o menor dentre meus problemas.

E realmente era.

Sabia que uma hora ou outra o fim entre mim e Ayla chegaria, mas o desconforto que veio junto não era esperado. Não da forma que estava me atingindo, forçando-me a manter um sorriso no rosto mesmo quando minha vontade era me trancar em casa e não deixar meu quarto por um bom tempo.

Parte de mim desejava voltar atrás, ligar para ela e dizer que foi um erro. Só precisava dizer que agi por impulso quando não consegui continuar a beijá-la naquela noite e terminei nosso relacionamento sem pestanejar. Poderia dizer que estava cansado e estressado, e que por isso agi sem pensar direito.

Contudo, por mais que parte disso fosse verdade, talvez terminar tenha sido o melhor a se fazer — mesmo que ainda parecesse o completo oposto.

Dei uma nova tragada no cigarro, vendo Lucy deixar o café com uma camiseta em mãos conforme vinha em minha direção. Desencostei do carro, livrando a fumaça pelo nariz e joguei a bituca no chão, pisando em cima dela.

— Acha que serve até você chegar em casa? — perguntou, lançando a camiseta em minha direção.

Segurei a camiseta cinza, onde a estampa com um gatinho dormindo era ridiculamente fofa.

— Qualquer coisa serve — murmurei, deixando ela apoiada no retrovisor do carro.

Tirei minha camisa ali mesmo, não me importando com quem pudesse me ver naquela situação no meio da rua.

— O corte da cena ficou como Lucien queria, então está liberado para ir pra casa por hoje — continuou ela, abrindo a porta do carro, pegando sua bolsa no banco de trás.

— Não vai querer carona?

— Não, meu Uber já está chegando.

Estreitei meu olhar.

— Vai ter um encontro, não é? — brinquei, fazendo-a fechar sua expressão. — Da última vez que te vi assim estava pra me apresentar aquele pintor. Vai sair com ele de novo?

— O Jake? — indagou num tom de deboche. — Você está bem desatualizado, Alexei. Isso não é da sua conta, mas, sim, vou a um encontro.

— Quem…

— Não, não, não — repetiu ela, balançando seu indicador em minha direção. Lucy olhou no retrovisor do carro, dando uma checada em seus cachos dourados. — Não vou te contar nada além disso.

— Desde quando seus encontros se tornaram um segredo de estado, Lucyzinha?

Ela bateu em meu ombro, me fazendo rir.

— Nada de Lucyzinha. Pode ir embora e trate de decorar direito sua fala de amanhã, ok? Nada de atrasos. Entendi o motivo de hoje, mas amanhã é outro dia.

Suspirei, sentindo aquele peso voltar aos meus ombros.

Lucy seguiu pela calçada. Na entrada do café, San saiu ao lado de seu guarda-costas, o que me fez revirar os olhos. Era ridículo como ele se achava importante o suficiente pra ficar desfilando por aí com um guarda-costas daquele tamanho, como se alguém fosse tentar sequestrar aquele saco de merda para usar como esterco por aí.

Bufei, entrando no carro antes que o estresse me afetasse novamente. Se bem que se eu me estressasse, ao menos eu teria uma nova distração para dominar minha mente.

Quando San jogou aquele chocolate em mim em vez da água, tudo o que passou em minha cabeça, foi como aquela expressão dele parecia muito mais espontânea do que armada, mas peguei aquela oportunidade de extravasar, sem me importar se tinha ou não sido de propósito.

Sabia que não era, mas livrar um pouco da raiva me fez bem, mesmo que o efeito colateral seja ter a imagem do rosto de San na minha cabeça por algumas horas enquanto eu me remoia o que tinha acontecido.

[...]

Um amante não pode sentir tudo o que ele quer, porque nem tudo deve ser sentido, e sim entendido. Um amante não ganha esse título apenas amando alguém, mas entendo que esse sentimento o guia diante de cenários nos quais seu coração não estava preparado.

Amar Ayla teve esse efeito em mim, especialmente no início de nosso relacionamento. Nos primeiros dias em que percebi estar apaixonado por ela, senti que meu coração não estava pronto para viver aquilo, embora minha mente insistisse que aquele medo não passava de uma insegurança sem fundamentos.

Amar não precisava ser sinônimo de dor, tão pouco precisava ser sofrido, e acho que isso foi o que me fez entender meu amor por Ayla como algo complicado de ser explicado, mas simples de ser sentido.

Deitado no sofá, aquele gosto amargo em meu peito era horrível. Não gostava de sentir aquilo. Odiava sofrer diante de escolhas que sabia que eram certas, mas que no presente momento me causava mais dor do que eu podia suportar.

Joguei os fones do outro lado da sala, afundando minha cabeça nas almofadas na tentativa de enterrar a voz em minha cabeça, que por algum motivo me xingava e implorava para eu ligar para Ayla.

— Aqueles não eram os fones que te emprestei, não é?

Meu corpo travou. Os dedos perderam a força sobre as almofadas, nas quais Alicia tirou de cima de mim. Tentei esconder meu rosto. Não queria ser visto daquele jeito, mas deveria ter imaginado que isso iria acontecer depois de recusar suas ligações.

— Meu Deus, Alex…

Meu peito ardeu, e tudo o que consegui fazer nos minutos seguintes foi chorar em silêncio, pois era a única coisa que eu podia fazer. Na verdade não era, mas em momentos como aquele tudo o que eu desejava fazer era agir como um pirralho que perdeu o brinquedo preferido e não sabia mais o que fazer.

Quando me dei por satisfeito, virei meu rosto, vendo Alicia do outro lado da sala, me olhando como quem estivesse diante de um alienígena.

— Que tal um banho, em? — propôs ela. — Tudo bem se quiser sofrer, mas vamos fazer isso de outro jeito.

— Eu não quero sair.

— Ah, desculpa — falou, levantando-se de seu lugar. — Por acaso deu a impressão que eu perguntei algo? — Alicia se aproximou, levando sua mão até minha orelha.

— Aí, aí, aí — resmunguei, levantando antes que ela arrancasse uma parte de mim.

— Vai se arrumar, Alexei. Te dou dez minutos antes de eu subir e te arrastar pra fora.

Quinze minutos depois eu estava jogando no banco do passageiro, encarando meu reflexo no espelho enquanto Alicia dirigia pelas ruas rumo a um lugar ainda desconhecido por mim. Honestamente, qualquer lugar que ela me levasse teria uma grande dificuldade em mudar meu humor.
Isso se eu não tivesse reconhecido aquela esquina que viramos, então a rua principal que levava ao norte da cidade.

— Não, não, não — disparei, me ajeitando no banco. — Alicia, volta. Por favor.

Alicia me fitou, levando sua mão até o painel do carro, onde aumentou o volume daquela maldita música, que por algum motivo era um dueto numa batida indie depressiva.

Eu sabia o que aquilo significava, então fechei minha expressão quando me deitei no banco, rendido a ideia absurda de ir para casa dos meus pais.

Deveria ter imaginado que ela iria fazer isso no momento em que ela me fez sair de casa, mas estava tão preocupado pensando em como iria evitar ser visto daquela maneira, que me esqueci que Alicia iria me levar direto para aqueles que com certeza iriam me fazer esquecer Ayla… mesmo que de uma maneira não muito convencional.

Aquela batida indie continuou, ao ponto que a voz masculina se tornou mais emocionante, mas antes que chegasse a seu ápice Alicia parou o carro em frente ao jardim amplo que separava a calçada da porta branca da entrada. As luzes acesas da sala deixava claro que Alicia avisou que estávamos a caminho, o que acabou totalmente com meu plano de correr pela rua antes que meus pais descobrissem que eu estava ali.

Suspirei, livrando o restante de desânimo que ainda me restava. Alicia tirou seu cinto, abrindo a porta.

— Se você entrar com essa cara vai ser pior, então pelo menos tenta disfarçar um pouco, Alex — aconselhou ela, então deixou o carro com um largo sorriso no rosto.

A conhecendo como a palma da minha mão, tinha certeza que Alicia estava festejando por debaixo daquele olhar despreocupado e sorriso fechado.

O frio me bateu com força quando deixei o carro, fazendo-me me arrepender de não ter pego um casaco quando saímos, mesmo com Alicia me aconselhando a pegar minha jaqueta.

— Você não contou…

— Que você terminou com a Ayla, discutiu no meio de uma gravação e está se corroendo de arrependimento? Não, não contei. Só avisei que iríamos jantar.

— Às meia-noite?

Ela deu de ombros.

— Seu pai quem sugeriu, eu iria falar o que? Você sabe que amo a comida dele.

Revirei os olhos sarcasticamente.

— E eu achando que estava aqui por mim, mas na verdade é tudo para alimentar sua fome sem fim.

Dei um passo em direção a casa, mas Alicia puxou meu braço.

— Vamos fazer assim, Alex, a gente janta, você se diverte um pouco, bebe vinho até capotar no sofá dos seus pais, e amanhã eu te levo pra sua casa, ok?

— Olha, esse seria um excelente plano, mas não posso beber, amanhã tenho trabalho.

Alicia levantou suas sobrancelhas.

— Você quem sabe. Mas, hoje você não está trabalhando, então chuta o balde e vamos se divertir um pouco com seus pais.
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