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100.0 dias

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Sep 17, 2021

This content is intended for mature audiences for the following reasons.

  • •  Abuse - Physical and/or Emotional
  • •  Drug or alcohol abuse
  • •  Blood/Gore
  • •  Mental Health Topics
  • •  Physical violence
  • •  Suicide and self-harm
  • •  Sexual Content and/or Nudity
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Dentro de vinte minutos aquela enfermeira com a verruga do lado direito dos lábios vai voltar aqui para me checar. Ela vai se agachar, exibindo o decote obsceno, fingir que não reparou que eu reparei, me devolver o carretel e me pedir para que eu “por favor” parar de mover tanto os dedos. Os cantos de minha boca se curvarão em um sorriso e eu lhe responderei como o fiz das primeiras cinco vezes: “É o único entretenimento que me resta, pobre de mim, pobre de mim!”

A brincadeira não é muito elaborada: O carretel gasto quase desaparece no beiral da cama quando se desdobra através da linha até a extremidade oposta à que é capturada por meu dedo. Reaparece quando se recolhe pela mesma linha e encontra com a ponta de meu indicador, esta que sequer teve tempo para esfriar com sua ausência.

Vai e volta.

É improvável que a linha se desprenda do carretel. Ou, neste caso.... É o carretel que abandona a linha? Bom, certamente não é culpa de um de meus dedos se o carretel caiu no chão, de novo. A argumentação não é complicada, meus dedos são meus dedos. Como poderia o carretel cair por minha culpa?

Tec.

A mosca que se abrigou aqui noite passada avança e recua contra a janela fazendo um som irritante e desviando minha atenção. Trinta e três vezes desde o momento que acordei.

Avança e recua.

Parecia lógico, nas primeiras dez vezes, que essa dinâmica só se repetiria até que a mosca se libertasse, mas, desde então, em pelo menos cinco vezes ela me prova o contrário: A mosca oscila ao redor da janela que acabou de atravessar e retorna à sua prisão. Tenho certeza de que ela não pensa muito sobre, lhe falta toda uma aparelhagem para sequer pensar, mas seu comportamento quase me faz sentir... nostálgico.

Suspiro.

Há pouco que se possa extrair de uma existência tão patética quanto à da criaturinha alada, mas confesso que existe algo de excitante sobre a maneira com que ela roça as patas de trás e da frente alternadamente. Minha pupila direita gira pelo globo avermelhado e, com algum emprego de força, consigo erguer a cervical. Uma camada grossa de faixas mantém meu corpo semi-sedado no lugar, principalmente da cintura para baixo.  “Não”, minha cabeça acena de um lado para o outro sutilmente, “eu realmente não consigo ver meu pinto daqui, muito menos tocá-lo”. A nuca encontra o acolchoado de novo e eu sinto os pulmões se esvaziarem sem que nenhuma fumaça preencha o teto.

Sexo e fumo, que combinação curiosa! Estou quase certo de que existe uma banda que conjura esta combinação em seu nome. Tanto à fumaça quanto o sêmen, preenchem o corpo, o estragam e depois são dispensados. Quanto maior a envergadura de qualquer um deles, mais você se fode. Se fode principalmente por que no meio do entre e sai, algo fica. Tem cheiro, tem sensação, as vezes cor e sua mente logo vai te cobrar uma mão dupla, tripla, quarta... Voilà! Temos um vício.

Entra e sai.

“Será que é isso mosquinha? Um vício?”

Suspiro.

Após oito ciclos do carretel, minhas pálpebras finalmente se fecham e as imagens flutuando atrás dos olhos dominam minha consciência, pouco ciente de si. Há um ruído de chuva que se soma à uma canção antiga, cafona, esquecida quem é que ouve esse tipo de coisa? Ele. É claro que ele ouve. A casa resume-se à parte de cima de uma loja de penhores, é alugada e o aluguel está atrasado. Existe alguém neste mundo com quem ele não tenha contraído dívidas?

Meus chinelos sonoramente atravessam o assoalho antigo e empoeirado enquanto meus lábios recitam provocações de todos os gêneros sem qualquer resposta audível.

We crave a penthou...for...
Nearer heav...Green if you had millions...

A hundred ... from today

Existe muito pouco sobre a disposição do corpo naquela cadeira que me faria inferir que não estivesse respirando, ou que, todo o canal respiratório houvesse sido destruído ou... que no lugar de seu rosto houvesse agora apenas uma cratera. A casa não estava mais suja do que diariamente, a música tocava em replay, o que não era anormal, havia comida no balcão, um pacote aberto de salgadinhos... Foi a pouco tempo...? A bala não atravessou de um lado para o outro e eu me pergunto se a última coisa que ouviu foram os acentuados trompetes da música ou seu próprio sangue pingando dentro do crânio.

Eu já havia lhe dado as costas tantas vezes, mas o sentimento de fazê-lo agora é... Exótico. Tão estranho e infamiliar a mim que rapidamente se perdeu entre as ruas que separam sua casa da minha. Existem poucos momentos em minha vida que ao encontrar Collin sua figura não portasse alguma mazela: Ora magro demais, ora esburacado demais por agulhas, ora com a testa ou pernas arrebentadas de tanto “cair”, ora simplesmente doente, mas agora...

No dia seguinte, a chuva do dia anterior havia manchado o chão por que a janela estava aberta. Ponderei sobre fechá-la, mas o cheiro que meu nariz capturou no instante seguinte me fez recuar. A música ainda tocava, mas parecia mais baixa. Ao me aproximar um grande gato disparou do colo alheio ao chão. Com os olhos mirando os meus, sua língua cruzou seus lábios de uma extremidade à outra, capturando o sangue que havia tingido seus pelos.

No terceiro dia havia uma série de pessoas em casa. Por que? “Eu sempre achei que tinha algo de errado com ele, Collin não...”, “Quentin ele nunca falou sobre os machucados com você? Ele só podi...” “Dizem que ele ainda sobreviveu por um bom tempo antes de...”
Ah, é. Isso. Meus olhos escanearam a mesa e a faca de ponta quase cega reluziu. Quantos dias foram? Três? Dois e meio? Quatro é o número do pecado.

 lll

Ao abrir os olhos, cansados de tanto repouso o teto estava escuro e o carretel estava preso em um punho fechado com força suficiente para que a superfície lisa registrasse sua estadia entre os dedos.

Sozinho e são.

------------------------------------------------------ //----------------------------------------------------------------

 

- Você pegou mesmo aquele gato? – O loiro adentra a casa alheia sem muita cerimônia, movendo a cabeça de um lado para o outro na busca de vestígios da estadia do bichano – Meus ratos sentem cheiro do inimigo. Se eu voltar pra casa cheirando à isso, o “nitchê” vai...

- Gato? – O abdômen do outro se contraí no que tinha a intenção de ser uma risada, mas reverbera como uma tosse. – E eu aqui pensando que você não tinha ideia de qual era sua sexualidade.

Mykola solta o corpo na poltrona ao lado do dono da casa, que está acamado, sem se dar conta do deboche.

- Fiquei sabendo que pretendiam sacrificar. Sabe como é... Por que “provou do gosto de carne humana”. – As pernas balançavam de leve tirando e recolocando as calças extremamente largas no quadril. Seu olhar é lançado para o outro que permanece encarando o teto sem corresponder. – Eu pensei muito em adotar ele, mas além da existência dos meus ratos, acho que não suportaria ficar olhando pro bicho... – Os olhos se voltam para as próprias mãos que agora se unem em um entrelaçar nervoso. – Querem matar o gato mas ninguém ta se perguntando sobre como ele arranjou uma arma. Digo, eu mesmo consegui duas quando era menor de idade sem muita dificuldade... Ainda tenho elas... Mas agora também ta meio esquisito de encarar. Espero que ao menos ele tenha fugido se não está com você.

As pupilas esverdeadas do loiro se voltam para o outro que ainda não se manifesta senão com a própria respiração.

- Hayden veio te ver? Você realmente não colocou ele na sua lista de contatos do hospital? Sei que estão dando um tempo, mas ele deve ter ficado meio puto, nem nessas horas você... – Um pequeno riso se formou, mas logo se apagou na face do locutor. – Meu nome também não tava lá, nem Potira. Você deixou o do Collin.

Quentin não esboçou nenhuma reação.

- Quentin você realmente recebeu alta?

- Você acha que eu simplesmente escapei do hospital? A realidade deve funcionar de um jeito muito peculiar nessa sua cabecinha.

- ... – Mykola roça as unhas semi-comidas na nuca e desvia o olhar surpreso com a seletividade do que responder. – É que você tá estranho, desde que ele...

- Ah, mas dizer isso é apenas rude! - Quentin se vira na direção de Mykola sem indicar de forma alguma que deitar-se sobre os cortes enfaixados lhe trás uma quantidade significativa de dor. – Você entra na minha casa falando disso e daquilo, quando é que o assunto serei eu? – O sorriso amarelado surge como assim fez outras tantas vezes, mas com sutis alterações em sua natureza que provavelmente nenhuma palavra poderia salientar muito bem agora.

- É que acho que falar dele é falar do que ta rolando contigo agora. – Sem resposta alguma o peito de Mykola se encheu e seu tronco se virou na direção do outro. – E-Ele ia odiar o que você ta fazendo sabia? Se está com dificuldade de engolir isso sozinho você não precisa! Se você achar que é sua culpa e se odiar por...

- Eu não me odeio. - Era quase como se aquele olho, ou aquele substituto de olho, tivesse vibrado um pouco. Talvez o loiro estivesse apenas muito impressionado ou afetado com o reencontro. De todo modo, o sorriso havia desaparecido.

- Ele se foi.

 

------------------------------------------------------ //----------------------------------------------------------------

Fazem 100 dias que Collin se foi.

Se foi, mas volta de maneiras inesperadas.

Está tudo contado e gravado no corpo por que a memória falha dentro de pouco tempo. Falha por que visita e abandona aquela cena; Falha por que se liberta, mas pesa e logo retorna à própria prisão; Falha por que preenche com uma quantidade desnecessária de detalhes e depois esvazia, quase arrancando aquilo que não lhe pertence junto; Falha por que ora o dedo é travesso, ora a linha é longa ou curta demais, ora o carretel simplesmente está gasto demais.

The moon is shining, it’s a good sign
Cling to me closer and say please be mine
But just remember you won’t see it shine
A hundred years from today...

dmitrickb
Mayhemsiast

Creator

#Mayhemsiast #drama #100_0dias #boys_love

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amandadsmedina
amandadsmedina

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Pessoa,eu vim por causa do tiktok e caralho ....eu tô chorando 😭😭😭,tô boiolinha ,parabéns pela obra♥️♥️♥️

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Temáticas envolvendo suicídio, auto-mutilação, abuso de drogas, sexo;
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OBS
Esse conto é apenas um spin-off da historia original dos meus personagens, idealizado 2 anos atrás. Sempre me pergunto sobre como "E se tal coisa rolar, o que isso muda?" e fico elaborando cenários inteiros à respeito.

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