Tsumi animado abre sua geladeira e começa a observar quais alimentos serão eleitos para acompanhá-lo em sua jornada.
Você!- disse ao pegar uma linda maçã vermelha do compartimento de frutas. Depois a colocou dentro de uma sacola térmica.
Acordou cedo hoje. -a voz grave de seu pai cortou o silêncio como um raio caindo numa árvore num dia sem chuva. Tsumi sentiu sua alma saindo do corpo.
Pai! O que você está fazendo aqui? Não estava de plantão no hospital?-disse Tsumi com a mão no peito ao se recuperar do choque.
Ikeda se aproxima de Tsumi sem perceber que ele estava aflito e pega uma garrafa de água na porta da geladeira.
Eu não fiquei de plantão. Precisava descansar um pouco, amanhã tenho uma cirurgia. Mas e você? Porque está acordado a essa hora? Tem algum evento na escola?
Tsumi procurou uma desculpa em sua mente. Não posso dizer a verdade.-pensou.
Evento? Ah, sim tem um evento! É um...um...picnic! Isso!- falou para explicar o assalto à geladeira.
Piquenique? Mas hoje está frio e a neblina está forte. Acho que seu piquenique não vai ser divertido.- Falou já preparando se para fazer o café da manhã. Alcansou uma frigideira do armário acima do fogão.
Vai ser um picnic na quadra de esporte se o dia não abrir.- disse colocando mais frutas na bolsa.
Sente-se, filho. Vou fazer umas panquecas.
Tsumi obedece. Num dia comum estaria feliz por seu pai estar ali fazendo seu café. Apesar das implicâncias corriqueiras. Momentos como aquele eram raros por causa do trabalho de cirugião cardíaco no hospital de sua cidade, que mesmo sendo pequena, havia uma enorme demanda de cirurgias cardíacas.
Justo hoje...- pensou Tsumi desanimado. Preciso bolar outro plano de fuga.- Você vai trabalhar hoje, pai?
Sim, mas depois do meio dia.-explicou enquando reunia os ingredientes para as panquecas num bowl.
Essa não! Preciso sair antes das seis, o trem sai as sete e meia. O que vou fazer? Se eu falar que vou pra escola ele vai querer me levar pra lá de carro. Já sei!-pensou.
Depois do meio dia? Então aproveita pra dormir mais, pai. Faz o café e volta pra cama.- fingiu estar animado.
Tem razão. Vou dormir mais. Mas eu posso levar você pra escola hoje.-disse querendo ajudar.
Não! Não precisa, pai. Eu estou de boa. Mas se você quiser podia me dar um dinheirinho pra comprar mais coisas pro piquenique.- disse querendo mais dinheiro para seus planos.
Ok. Eu envio pra você depois do café.
Tsumi sorriu feliz.-Valeu, pai!
Valeu, pai? Fale como gente.-repreendeu sério.
Ah! Desculpe. Eu quis dizer obrigado, pai...- suspirou com alívio pensando que logo estaria livre da chatice de seu pai.
Você precisa crescer, Tsumi. Já tem dezesseis anos. Precisa limpar seu quarto daqueles pôsteres de Muyami. Trocar os cds por livros. Para ser médico precisa focar nos estudos. Já dei tempo demais para seu fanatismo adolescente.-continuou Ikeda colocando a massa da panqueca na frigideira.
Af... é sempre a mesma conversa...eu não quero ser médico.-pensou Tsumi, mas estava feliz com seu plano e resolveu não discutir. Um dia até pensou em fazer a faculdade em Mekata e assim tentar realizar seu sonho enquanto estudava, mas seu pai foi contra. Queria que fizesse a faculdade na própria cidade.
Eu vou limpar meu quarto, pai. Mas não vai ser hoje. Pode ser semana que vem?
Ikeda levantou a sobrancelha surpreso.- Semana que vem? Promete?
Prometo. Vou estudar sério, vou passar em primeiro lugar na faculdade.-mentiu Tsumi sem pensar.
Ikeda olhou para Tsumi que gelou. Se seu plano falhasse teria que fazer o prometido.
Ótimo, filho. Não precisa passar em primeiro, mas se fizer isso ficarei orgulhoso de você.
Podia me dar um carro se eu passar em primeiro.-disse Tsumi esperando a panqueca que já estava parecendo boa. Ficou surpreso ao ver seu pai sorrindo. Geralmente os dois acabavam discutindo.
Escolhe o modelo.- disse colocando a panqueca no prato de seu filho que agora havia se tornado um ser divino. –Quer calda de chocolate?
Tsumi acentiu com a cabeça e com a língua nos lábios. Uáu... papai parece outra pessoa só porque eu disse que ia fazer o que ele queria.-pensou surpreso e frustrado ao mesmo tempo. Seu pai nunca o apoiara no seu verdadeiro sonho. Lembrou-se do dia em que ele chegou a rasgar um dos seus pôsteres sagrados de seu ídolo Muyami e sequestrou seu violão. Lembrou-se das duras palavras de seu pai;
“ Você acha que música vai levar você pra algum lugar na vida? Olha pra você! Olha pra esse homem desse pôster, você não se parece com ele? Você nunca vai ser um artista assim. Você não tem chance nenhuma. Esquece essa história de ser cantor. É ridículo!”
Os olhos de Tsumi ficaram mareados ao lembrar daquilo. Mas se segurou. Havia feito aulas de música em segredo e se sentia preparado para realizar seu sonho.
Pode ser uma ferrari?
Ikeda riu.- ferrari você compra depois com o seu dinheiro. Escolhe algo mais barato. Afinal, vou pagar seus estudos.
Ok, vou escolher um carro normal.
Tsumi aguentou firme o café com seu pai ouvindo todos os planos que ele já havia traçado para seu futuro na medicina.Tsumi se ofereceu para lavar a louça e apressou seu pai para voltar a dormir. Porém, para o azar de Tsumi seu pai se alojou no sofá da sala onde dava para ver a saída. Não podia sair pela porta da frente e arriscar ser pego com uma mochila de viagem e sem o material da escola tão cedo. Tsumi subiu para seu quarto ainda frustrado.
Tá frio e o nevoeiro tá forte, Mumuru- disse Tsumi para seu urso gigante que ficava sob a cama. Abriu a janela. Mal dava pra ver o telhado que se tornou a sua nova rota de fuga. O plano era simples, mas seu pai quase estragou tudo. Porém, não queria adiar mais os planos. Já tinha comprado a passagem de trem para Mekata.
Uma olhada no celular o deixou ansioso.
Já são seis e meia da manhã, então tenho que correr porque o trem sai às sete e meia em ponto!- Vestiu seu casaco e colocou os sapatos apressado.
Adeus, Mumuro.- beijou o rosto de seu amigo fofo de pelúcia sentindo-se grato por sua companhia nos dias difíceis. Lembrou-se do dia em que o achou no lixo, lavou e consertou um dos olhos. Deu-lhe o nome de Mumuru, apelido de seu amado ídolo Muyami. Quem poderia ter jogado fora aquele ursão de pelúcia tão fofo? Estava abandonado e agora será deixado novamente- pensou soltando um suspiro e colocando sua mochila nas costas- Mas um dia eu pretendo voltar e vou resgatá-lo novamente. Não se preocupe, Mumuru.
Subiu no parapeito da janela e deu uma última olhada para trás. Viu sua coleção de cds e dvds de Muyami em cima da cômoda. Sentiu-se triste ao lembrar da briga com seu pai que culminou no poster rasgado que agora está remendado e colado na parede. Era um poster limitado.-pensou chateado. Mas não teve coragem de se desfazer do poster. Muyami estava especialmente lindo nele. Por um momento lembrou-se novamente no que seu pai havia dito.
“ Você nunca será um mega-astro como Muyami, você nem tem aparencia para ser ídolo.” Acho que meu pai quis dizer que sou feio.-pensou.
Mas quem podia ser considerado bonito ao lado de Muyami? O cantor era lindo de fato. Mas Tsumi acreditava que o melhor de Muyami era sua música, que ele amava. Acreditava que também tinha talento como ele e isso já bastaria. Afinal, um dia a beleza da juventude acaba e o que sobrará serão as músicas de Muyami, isso sim tem valor. – refletiu sentindo toda sua força de vontade injetar ânimo e coragem em sua jornada pela carreira de cantor.
Tsumi colocou sua mochila nas costas e passou da janela para o telhado. A névoa o impedia de ver o chão. A umidade do ar deixava as telhas escorregadias. Caminhou com cuidado até a ponta do telhado.
Se eu cair, já era minha fuga.-pensou ao se desequilibrar antes de pegar o galho majestoso da árvore que providencialmente ficava em frente a sua janela. Com medo, mas determinado, subiu pelo galho e foi descendo. Chegou ao chão soltando um suspiro de alívio, esfregou as mãos para limpá-las da sujeira dos galhos.
Aquele momento podia ser comparado ao “Levare”, um movimento ascendente feito pelas mãos do maestro como sinal para os músicos se prepararem para começar a música. Tsumi fez seu “levare” indicando que a música de sua vida ia começar. Agora ele era o maestro de seu sonho, ditando seu ritmo e dinâmica. Partiu em direção a estação de trem e sua silhueta desapareceu na névoa da rua.

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