“Contemple, jovem Luhkien: a Zona de Transição!”
O tom usado por Mestre Eustahk havia sido tão pomposo e exagerado que chegava a soar um tanto cômico. No entanto, seu Discípulo, Luhkien, tinha de admitir que a Zona de Transição era de fato uma visão impressionante, mais que merecedora de ser anunciada com tamanha grandiloquência.
A princípio, ela lembrava uma gigantesca tempestade em alto mar, brotando diretamente das ondas, e já a uma proximidade desconfortável da hidronave. Em um segundo olhar mais atento, porém, logo ficava claro que a “tormenta” apresentava características um tanto... peculiares, por demais bizarras para que ela fosse classificada de forma realista como apenas um mero fenômeno meteorológico.
Para começo de conversa, a geometria era por demais regular. De fato, a Zona de Transição poderia ser descrita como uma única nuvem gigantesca em forma de disco quase perfeita, com muitos quilômetros de diâmetro, e várias centenas de metros de altura.
Toda essa altitude porém não formava uma única parede nebulosa uniforme, subindo direto na vertical. Em verdade, ela era dividida em camadas sobrepostas regularmente espaçadas, dando à Zona de Transição o curioso aspecto de um imenso... bolo, flutuando sobre as águas.
Os espaços entre esses níveis eram preenchidos por um relampejar quase constante. De fato, toda essa atividade elétrica era a origem do nome alternativo pelo qual a Zona de Transição também era conhecida.
As Névoas Trovejantes!
Luhkien de fato se sentia grato pela presença daqueles clarões azulados. Afinal, eles estavam no meio da longa noite de Grendohr, e era apenas aquela luz intermitente, estroboscópica até, que delineava as silhuetas das demais Naus Empíreas ao redor da Zona de Transição.
O formato característico delas era inconfundível... Algo como um meio caminho entre um navio convencional e um submarino. Luhkien gostava de pensar nelas como gigantescos peixes metálicos, emersos pela metade.
Era verdade porém que a frequente presença de protuberâncias de aparência pouco natural sobre a linha dorsal - em geral, torres e domos - quebrava um pouco essa metáfora visual.
Este era, aliás, o caso do próprio compartimento onde o Discípulo e seu Mestre estavam: o Observatório... uma pequena cúpula transparente no topo da Torre de Comando, na porção central da hidronave.
De lá, eles desfrutavam de uma visão de trezentos e sessenta graus do mar ao redor que seria magnífica - se não fosse a escuridão ao redor deles.
De fato, devido àquelas condições precárias de iluminação, era até mesmo difícil determinar a orientação das silhuetas das demais hidronaves lá fora. Em outras palavras, Luhkien não saberia dizer quais delas haviam acabado de emergir das Névoas Trovejantes...
... e quais, por outro lado, rumavam diretamente para o interior da Zona de Transição. Como era, de fato, o caso do próprio Sol Prateado - a Nau Eclesiástica a bordo da qual viajavam o Discípulo e seu Mestre.
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