— Por que ninguém pode adentrar aquele lugar, senhor? — indagou Shayax Skaara, esfregando as mãos para afastar o frio que permeava a floresta dos homens lagartos.
— Ora, o que você acha? Os anciãos proibiram a entrada, e nós obedecemos — retrucou Vorsashi Kirdel, carrancudo, com o descanso interrompido por aquela questão.
A atitude de Shayax trouxe um gosto amargo para Vorsashi. Após horas de treino intenso, ele finalmente vislumbrava uma chance de descansar na floresta fria, mas Shayax o interrompeu.
Shayax poderia ter consultado um ancião para obter respostas, e não havia necessidade de permanecer ali. O treinamento havia acabado, e ele estava livre para voltar para casa, mas insistiu em ficar para a noite.
A desculpa “Quero me acostumar mais com o frio” soou frágil diante da realidade.
— Você entende que eu preciso descansar, não é? — perguntou Vorsashi, deitado na grama, onde a ausência de pedras oferecia algum conforto.
— Sim, senhor… — respondeu Shayax, meio constrangido ao perceber a irritação do mentor.
Nas semanas de treinamento sob Vorsashi, Shayax aprimorou suas habilidades de combate. Mais do que isso, passou a observar melhor o homem que o instruía.
Agora, Shayax reconhecia nuances no rosto de Vorsashi e mudanças sutis em sua voz. Vorsashi raramente perdia a paciência, mas tinha limites e não hesitava em repreender o aprendiz quando necessário.
— Já que perguntou… — murmurou Vorsashi. Os olhos de Shayax brilharam, mas logo o entusiasmo se apagou ao ouvir a resposta seca:
— Não sabemos.
A desilusão tomou conta do jovem.
— Mas, senhor, você é um guerreiro incrível. Por que os anciãos não compartilham o motivo? — insistiu Shayax, acreditando que a posição de Vorsashi garantisse acesso à informação.
Vorsashi bufou, denotando cansaço.
— Ah… Desculpe, senhor. Não quero atrapalhar seu sono.
— Responderei apenas a isso. Depois, durma — ordenou Vorsashi.
Shayax, recostado em uma árvore, sentiu um arrepio antes de se deitar rápido, usando as mãos como travesseiro improvisado.
Enquanto aguardava a resposta, Shayax observava as costas largas do mentor, marcadas por cicatrizes.
— Os anciãos guardam segredos por um motivo. Nossa obrigação é obedecer, pois eles acumulam sabedoria ao longo dos anos. — explicou Vorsashi. — Agora, durma. Teremos um longo dia de treino amanhã.
— Sim, senhor! — respondeu Shayax sem demora.
A noite fria deu lugar ao sol da manhã. Mesmo sem a resposta que queria, Shayax se sentiu aliviado por ter expressado sua inquietação.
Conversas sobre o buraco eram proibidas na tribo. Shayax hesitou antes de perguntar. Seus pais, quando indagados, apenas o proibiram de tocar no assunto, ameaçando puni-lo se insistisse. Por que o desejo de conhecer era tratado com tanto desdém?
O elogio de seu mentor pela melhora com a espada trouxe alegria. O esforço no treinamento começava a render frutos. Homens lagartos eram, por natureza, guerreiros que treinavam sem cessar para enfrentar os perigos da floresta e além.
Ursos, lobos, javalis selvagens eram apenas alguns dos desafios fora do território seguro. A vida de guerreiro homem lagarto exigia busca constante por excelência. Tornar-se um herói para o povo, mesmo após a morte, era o objetivo.
Shayax aspirava à mesma glória que seus pais perseguiam na grande tribo. Pedir treinamento a um guerreiro mais experiente era comum entre os homens lagartos, e a conexão de seu pai com Vorsashi facilitou o contato.
As visitas de Vorsashi à casa de Shayax não eram apenas sociais; eram a apresentação de um possível aprendiz. Lembranças de seus pais o encorajando nos treinos e os sorrisos orgulhosos ecoaram em sua mente antes de adormecer. O calor dessas memórias afastou o frio da noite.
⧫⧫⧫
O sol ergueu-se pela manhã, inundando a floresta com sua luz vital e dissipando a escuridão que, durante a noite, trazia a sensação de morte iminente. A casa ficava diante da floresta densa, mas mesmo as imponentes árvores não barravam os raios solares que atravessavam a janela.
A luz alcançou o quarto, iluminando metade do rosto de Tiko. Ele levantou a mão em um gesto involuntário para bloquear o brilho incômodo. O jovem elfo negro murmurou baixo e virou-se na cama, afastando-se do ponto iluminado.
Ao abrir os olhos, ainda sentia-se desnorteado e demorou alguns instantes para despertar por completo. Sentou-se na cama e bocejou, alongando os músculos adormecidos. Levantou-se e caminhou até um caixote próximo à porta, onde guardava suas roupas limpas.
Sem dificuldades, abriu o caixote e pegou uma muda simples. Vestiu o calção branco de linho, um hábito matinal, antes de sair do quarto.
Para afastar o resto do sono, jogou um pouco de água parada de uma pequena bacia sobre o rosto. Esfregou as mãos molhadas na pele e secou-se com os antebraços. Depois, agachou-se, colocou as mãos afastadas no chão e alinhou os pés, mantendo a coluna esticada.
Iniciou uma série de flexões para despertar o corpo. Os exercícios revitalizaram seus músculos e completaram o despertar após o toque refrescante da água.
Tiko era um jovem cuja presença impunha respeito e desconfiança em igual medida. Havia algo em sua postura rígida e olhar penetrante que fazia os outros desviarem o caminho ou manterem distância.
Parecia carregar um peso invisível nos ombros, algo que se refletia em sua expressão sempre séria e na frieza cortante com que respondia a qualquer palavra dirigida a ele.
Sua personalidade agressiva e distante não deixava margem para aproximações, criando ao seu redor um ar de ameaça silenciosa, como a lâmina de uma adaga oculta sob um manto.
Seus olhos pequenos e afiados eram como fendas de obsidiana, escuros e insondáveis, mas ainda assim pareciam conter uma chama oculta, um desafio inabalável contra tudo e todos.
O contorno de sua boca era firme, quase rígido, como se esculpido em pedra, raramente exibindo qualquer sinal de suavidade ou emoção. Para muitos, seu rosto não era apenas sério — era o retrato da impassividade de alguém que já enfrentara a escuridão e emergira mais endurecido.
Seus cabelos, longos e prateados como fios de luz fria, caíam em cascatas ao redor de seus ombros, criando um contraste impressionante com sua pele de um tom marrom-escuro profundo, uma herança distinta de seu sangue élfico.
Cada fio parecia capturar a luz de forma espectral, destacando-se ainda mais contra a sombra de sua pele, como prata líquida derramada sobre bronze envelhecido.
Os olhos, completamente negros, eram como poços sem fundo, intimidantes em sua ausência de cor e refletiam a herança dos elfos negros — uma raça conhecida por sua conexão com o mistério e o perigo. Havia algo quase hipnótico em seu olhar, como se desafiasse quem ousasse encará-lo a descobrir o que se escondia por trás daquela máscara fria e calculista.
Tiko carregava consigo o ar de um caçador — alerta, perigoso e letal. Não era alguém a ser subestimado, e sua mera presença parecia um aviso silencioso para quem ousasse cruzar seu caminho.
— Acordou cedo de novo, Tiko? Vai caçar? — perguntou Goubzedh Ulra, o verdadeiro dono da casa, um elfo idoso que havia acolhido Tiko meses antes.
GolbZedh era um elfo idoso de aparência frágil, com o corpo curvado como um galho retorcido pelo peso dos anos.
Sua pele fina e enrugada lembrava pergaminhos antigos, marcados pelo tempo, e seu rosto era uma tapeçaria de linhas profundas, principalmente ao redor dos olhos redondos e claros, que pareciam guardar séculos de histórias não contadas.
Esses olhos, apesar do desgaste evidente da idade, brilhavam com uma luz gentil e acolhedora, transmitindo a sensação de sabedoria e serenidade.
Seu nariz, longo e encurvado como o bico de uma ave de rapina, dominava o centro do rosto, enquanto a boca pequena e fina, quase sempre retraída em um sorriso discreto, suavizava a imponência do nariz.
Suas orelhas, pontudas e finamente esculpidas, destacavam sua ancestralidade élfica, mesmo que estivessem levemente inclinadas para baixo, denunciando o peso dos anos.
Vestia-se de maneira humilde, com roupas gastas e desalinhadas, que pareciam pertencer a alguém duas vezes maior que ele. Sua camisa, feita de linho simples e desbotado, estendia-se até os joelhos, os punhos largos dobrados sobre os pulsos finos.
A calça, costurada à mão e repleta de remendos, era sustentada por um cinto de couro rachado, apertado ao ponto de parecer um laço. Os tecidos, embora limpos, exalavam um ar de modéstia e sobrevivência, como se cada fio contasse a história de um longo caminho percorrido.
Mesmo em sua aparência modesta e envelhecida, havia algo em GolbZedh que inspirava respeito – talvez a dignidade tranquila de quem já viu o nascer e o pôr do sol incontáveis vezes, mas ainda carrega a esperança de mais um amanhecer.
Nos pés, carregava sapatos velhos e gastos, com solas tão finas que pareciam ter enfrentado mil jornadas por trilhas de pedra e lama.
O jovem ignorou a pergunta e continuou os exercícios. O ancião, parado na porta, caminhou pela sala vestindo apenas roupas de baixo. Pegou um copo de madeira, encheu-o de água e bebeu de um gole só.
— Nada supera um bom copo de água pela manhã — murmurou, satisfeito.
Tiko concluiu os exercícios, levantou-se e esticou o corpo. Sentiu o olhar do elfo idoso sobre ele.
— Por que me encara? — perguntou Tiko. — Não sou uma bela dama para atrair esse tipo de atenção.
O velho sorriu, encontrando graça nas palavras do jovem.
— Esperei você terminar. Agora pode responder minha pergunta? —
insistiu Golbzedh, encostando-se na parede de madeira.
Tiko afastou os cabelos lisos do rosto e encarou o ancião com um olhar semicerrado. Os elfos negros destacavam-se pelos cabelos prateados e pele escura, mas os olhos negros de Tiko o tornavam ainda mais singular.
Virando o rosto para Golbzedh, anunciou:
— Vou caçar. Deixe tudo pronto para quando eu voltar.
O elfo mais velho começou a organizar a cozinha para preparar o alimento que Tiko traria. Pegou uma lâmina para cortar carne.
— Veja se traz algo de qualidade, mas não se arrisque demais — disse Golbzedh, agachado enquanto buscava mais utensílios.
Tiko não respondeu.
Voltou ao quarto, vestiu uma camisa de lã preta e pegou sua espada de caça.
Embora caçar com espadas não fosse comum, ele preferia confiar em suas habilidades no combate corpo a corpo. Em seguida, saiu pela porta com a expressão fechada de sempre, uma carranca capaz de intimidar qualquer criança que cruzasse seu caminho.

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