— O que te traz aqui? — Pergunto novamente ao Ser de estrutura humanóide que invadiu meu recinto.
Não é estranho que eles venham testar seus limites com minha magnitude, isso ocorre em certa frequência, o que me gera incômodo é o fato dele estar planando por duas horas na entrada da minha caverna. Ele está literalmente parado no ar, sem asas ou qualquer resquício do uso de energia.
Farejo o ar... Sem qualquer odor.
Uso meus dons... Sem qualquer vestígio.
Não reconheço essa raça, nunca me deparei com um ser que não emitisse nenhum sinal de energia, além de sua própria presença. Semelhante a uma assombração, ou uma miragem insignificante. Mesmo nesses casos, existiriam provas de suas existências.
Ainda que fosse somente a ausência de sua energia, como se não fosse irritante o bastante, eu poderia descobrir sua raça através de seus traços físicos. Exceto que... Não consigo visualizá-los também. Seu rosto está escondido atrás de um véu branco, enquanto seu corpo está fechado por uma túnica da mesma cor, sem detalhes, sem adereços e muito menos um brasão de alguma família. Ele também não parece ter características animalescas… Seria um humano?
— Não sou humano! — O Ser me contesta com voz grave, masculina.
Ótimo! Nas duas horas em que estive perguntando sobre suas intenções ele se manteve em silêncio, bastou-lhe relacionar à um humano que ele se prontifica. Inútil.
O barulho dos trovões enchem o céu, adequando-se às minhas próprias emoções. Uma tempestade está a caminho.
— Não permiti que lesse minha mente, inseto!
Como se sua fala fosse uma ilusão criada por mim, ele volta ao silêncio.
Qual sua intenção? Um desafio? Curiosidade? Dívida? Será que houve alguma evolução importante que perdi?
Um movimento brusco me põe de pé, ele dá dois passos à frente de sua posição inicial.
— Pensamentos fúteis, criança. Mas dessa vez você se superou, nasceu em um belo dragão. Um macho solitário, que desperdício.
De que merda ele está falando?
Talvez eu tenha cruzado com seu povo inútil? Queimado sua casa ou sua embarcação? Eles fazem tanta questão de esbanjar e espalhar suas engenharias burras para o mundo. Seja o que for, eu não dou a mínima.
— Não sou humano.
Já tenho o suficiente desse assunto.
— E eu não me importo.
Não estou subestimando-o, já fui a presa e sei como podemos surpreender o predador. Entretanto, confio em minha própria experiência. Tenho acumulado minha energia dracônica em séculos de hibernação, estou no meu auge e posso estourar esse inseto com uma única rajada de força.
— Não, você não pode. Você não está no seu auge, 005. Você evoluiu por milênios e mesmo assim está estagnado em um buraco rochoso. Que decepção. Uma cobaia que não evolui é uma cobaia inútil. E não aceitamos essa ofensa, não cometemos erros.
Quem são "nós"? Eles têm me vigiado por milênios? Impossível.
— Eu não sou quem você pensa e não ligo para seus fracassos!
A tempestade chegou, raios começaram a cair em rajadas na entrada da caverna, impossibilitando o intruso de fugir. Não quero que ele volte a encher meu saco, mas também preciso tomar cuidado para não destruir meus tesouros.
O Ser não se mexeu, ele não pareceu afetado com minha demonstração de poder. "Vejo que não tem medo de morrer". Deduzo.
— Seria impossível você me ferir, criança — Ele me desafia e eu aceito sua prepotência.
Sou um dragão, o topo da cadeia alimentar. Não existe raça que me confronte.
— É interessante como você vive nessa ilusão, mesmo depois de tantos milênios fugindo como presa. Você não está nem perto do topo da cadeia alimentar.
Rosno com sua insinuação.
— Eu nunca mais serei uma presa, criatura medíocre.
Acordo a energia da caverna, de suas pedras preciosas, do ouro armazenado e do solo aos meus pés. Reúno-os ao meu redor, formando uma esfera de poder que cintila em verde. Raízes longas e grossas das árvores da montanha se infiltram em minha caverna, criando uma barreira e sustentando suas paredes de pedra. É minha forma de prestar respeito à natureza que me abrigou por tanto tempo.
— Raio, vento e terra. Você tem feito uma bela demonstração de poder, criança. Pelo menos sua massa cognitiva foi bem desenvolvida. Tenho que parabenizá-lo.
Ignoro seu argumento idiota, não preciso de elogios vazios. Não treinei por tanto tempo para ser parabenizado por um inseto.
— Dragões… Tão egocêntricos. Pegou o pior das personalidades. Você viveu como um selvagem... Temos que reavaliar isso.
Mais malditas frases soltas.
— Não sou seu experimento e não finja que possa me ler.
— Oh, até que enfim um diálogo entre nós. Suas habilidades sociais se deterioraram com o tempo?
— Vai me dizer quem é você?
— Não é o momento ainda.
Verme nojento.
— Então cala a boca, porra! Você é apenas uma presença inútil.
Com a barreira formada e com toda a força de desastres naturais circulando minha montanha. Decido usar o meu melhor triunfo, é um risco grande e só possui uma única carga gerada por séculos de hibernação, mas foda-se. Concentro o poder no meu núcleo, calor corre por ele em sua máxima velocidade. Respiro o magma em minha garganta e direciono o vento como um propulsor, para que o calor saia em sua máxima intensidade e velocidade. O Ser continua parado em minha frente, sem mover um músculo. Bom, não irei recuar também.
Solto toda a energia reunida em uma única rajada em direção ao humanóide. O poder o atravessa, como uma maldita miragem, abrindo um buraco perfeito nas dez montanhas seguintes. Mas que porra? Como?
Ele olha para trás, aproveito de sua distração e tento reunir energia. Meu poder em seu máximo deu errado, preciso fazer alguma coisa, qualquer coisa, qualquer carga. Meu núcleo grita em protesto. Porra!
Ele volta a me encarar.
— Sim, uma bela demonstração. Você está quase pronto criança.
O que você quer dizer com isso?
Sem qualquer chance de me recuperar, ele levanta uma única mão e estala o dedo indicador com o polegar. Parando meu coração no processo. Um único movimento, sem esforço algum e sem qualquer chance de revidar. Filho da puta. Quem é você?
— Nos encontraremos de novo, 005. Nunca pare de evoluir.

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