Era em uma corrida selvagem que a adrenalina percorria o seu corpo, desencadeando batidas cardíacas tão brutais que pareciam desejar estilhaçar a sua caixa torácica. Os ventos congelantes da Rússia rugiam poderosamente em seu rosto, que, mesmo protegido pelo visor, sentia o frio dos finos flocos de neve como pequenas agulhas agressivas contra a sua pele congelada. Sua mão, coberta pela luva ensanguentada, segurava firmemente o acelerador do quadriciclo, que, com suas grossas rodas, rasgava as camadas de neve sob si. O motor do veículo era estrondoso em seus ouvidos, mas não se comparava ao disparo das balas que passavam tão perto dele, despertando um tremendo desespero. Eram poucas as vezes em que o trabalho de Alexei ocorria de forma tão diferente do planejado, especialmente de maneira tão catastrófica quanto aquela perseguição. Ele sabia que as instruções eram claras: eliminar o alvo de forma rápida e eficaz. No entanto, como ele poderia matar sem aproveitar aquele efêmero momento? O que era uma tarefa concluída sem uma expressão aterrorizante em um corpo sem vida? Talvez seus métodos não fossem os ideais da corporação Z.E.D.A.I., mas ninguém ousaria reclamar dos seus resultados.
Há alguns anos ele trabalhava para aquela associação nas terras geladas de seu país. O que havia começado como uma necessidade de ajudar sua família, para que não precisassem mais enfrentar a brutalidade da fome, tornou-se apenas parte de uma terrível rotina com um forte teor de morte, tão simples e remoto como encher um copo de água. As balas destroçavam troncos grossos de árvores próximas, e Alexei só conseguia pensar no que elas poderiam fazer com o seu corpo se o atingissem. Isso fazia com que seu coração agitado bombeasse ainda mais adrenalina por seus músculos tensos. Ele podia sentir a forte pressão em seus vasos sanguíneos e em sua mandíbula sendo pressionada de um jeito que parecia que ia quebrar violentamente. Apesar de estar concentrado na fuga, ele ousou alcançar sua arma e, pelo retrovisor, que cintilava com os raios mornos daquele inverno, pôde visualizar seus adversários atrás dele.
Mesmo sabendo que possuía habilidades admiráveis, ele preferia não atirar diretamente em seus inimigos; preferia formular uma estratégia. Com um plano em mente, ele esticou o braço e mirou em um tronco de árvore distante. Com a mão firme, ele atirou consecutivas vezes até que o tronco estivesse prestes a desabar. Acelerando ainda mais o quadriciclo, Alexei avançou e, em pouco tempo, a árvore desabou, fazendo com que a neve fosse erguida e despistasse parcialmente seus perseguidores. Um sorriso confiante surgiu em seus lábios, mas o sabor da vitória logo se amargurou ao perceber que alguns agentes inimigos ainda estavam atrás dele. Eles realmente eram persistentes.
Seus olhos oceânicos analisaram o horizonte, em busca de novas estratégias. Com raciocínio rápido, mirou novamente, desta vez na montanha repleta de neve, e com disparos consecutivos, Alexei desencadeou uma avalanche avassaladora. O som das camadas de neve descendo em alta velocidade era assustador e abafava o ronco estrondoso do motor. Com o velocímetro no máximo, ele podia sentir o desespero com que seu coração batia. Visualizando, pelo retrovisor, a avalanche engolindo cada um de seus adversários, pensou que logo poderia ser o próximo. Com desvios e manobras habilidosas, conseguiu se distanciar de sua possível morte. Finalmente, pôde respirar aliviado, tendo concluído mais uma missão com êxito.
De longe, Alexei pôde avistar o grande portão da organização erguendo-se para que pudesse adentrá-lo. O motor estrondoso do quadriciclo ecoava dentro do galpão de aço, rugindo selvagemente. Ao desligar o veículo, usou suas mãos ensanguentadas para retirar o capacete e balançar seus fios de cabelo dourado. Sabia que, apesar dos pequenos contratempos, havia sido magnífico mais uma vez. Com o sorriso confiante no rosto, que exibia seus caninos afiados, vislumbrou a agente responsável pela organização na Rússia: Natasha. Alexei gostava de mulheres como ela, belas e mortais. Ao ver que ela carregava um bom número de papéis, pensou que sua tão merecida promoção finalmente havia chegado. Será que ganharia uma sala só para ele? Ou talvez um avião particular? Seus lábios não conseguiam conter um sorriso só de imaginar o que lhe aguardava, com o coração batendo animadamente no peito.
— Qual é a minha ótima notícia? — perguntou, convencido, bagunçando provocativamente seus fios.
— Uma longa viagem para a China.
A resposta de Natasha foi incrivelmente seca, empurrando os inúmeros papéis contra o peito dele sem cerimônia. O sorriso que surgiu com o curvar de seus lábios foi inevitável ao contemplar o desaparecimento tão rápido da expressão confiante do outro.
— O quê? — Os lábios se moveram em um susto.
Ansioso e desacreditado, ele rapidamente pegou os papéis em suas mãos e os leu, ainda meio desnorteado. "Transferido para a China". Se para ele não estava explícito o suficiente, as palavras ainda estavam em vermelho.
— Ei, Natasha, que tipo de engano ridículo é esse? — chamou a atenção da outra, ainda sem conseguir acreditar.
— Você sabe que essas ordens vêm de Artyom, não de mim. Se fosse uma escolha minha, eu teria te mandado para o inferno há muito tempo.
Apesar da piada, que Alexei poderia ter achado muito provocativa se não fosse pelo baque estrondoso, ele não achou graça alguma. Onde ele poderia ter errado para ser realocado para um país no qual ele jamais havia posto os pés? China, o país onde as pessoas comiam com “pauzinhos”? Aquilo só podia ser uma piada de mau gosto. Pelo menos era o que pensava até estar dentro do avião, junto com outros transferidos, em um voo sem volta para a China. Só teve tempo de se despedir de sua família e ver os rostos tristes de seus pequenos irmãos.
Quando Alexei desembarcou do avião particular da organização, junto com outros transferidos, notou como os raios de sol da China brilhavam de forma diferente, eram fagulhas solares mais mornas do que as da Rússia. Uma pequena multidão se concentrava à frente, e ele sabia que eram os agentes de alto escalão que vieram recepcioná-los. Alexei também sabia que aquilo não passava de um fingimento barato, pois depois eles sequer se importavam se você estava vivo ou não. Com um sorriso falso, apertou as mãos daqueles tantos homens e mulheres que exalavam o cheiro de montanhas de dinheiro e corrupção. Ao sentir o último aperto em sua mão, sentiu um formigamento em sua palma, mesmo que ela estivesse coberta pela sua luva costumeira e, ao levantar seus olhos oceânicos, seu coração parou. Naquela face alva, olhos esverdeados como duas jades cintilavam junto com um sorriso cordial.
— Bem-vindo — o homem falou com um tom acolhedor.
— Obrigado — agradeceu, sem conseguir deixar de encarar aquelas íris tão profundas e enigmáticas.
Alexei sequer sabia o nome do homem, mas admitia facilmente como ele se destacava entre os outros. Não sabia se era pelas roupas elegantes, a personalidade majestosa ou cada contorno encantador de seu rosto. Quando achava que já estava apertando sua mão por muito tempo, Alexei se afastou apenas com um aceno positivo, sentindo seu rosto esquentar. Com sua mochila em um dos ombros, caminhou até o elevador do terraço para descer até seu alojamento. Geralmente, estaria preocupado se seu companheiro de quarto seria suportável ou um alvo, mas com aqueles olhos que não saíam de sua mente, não conseguia pensar muito além disso.
Ao abrir a porta de seu alojamento, uma de suas sobrancelhas arqueou. Um saco de boxe estava pendurado, rodopiando enlouquecidamente por conta dos socos disparados por um garoto com fios escuros que possuíam um reflexo roxo que o russo conhecia tão bem. Com um revirar de olhos, Alexei jogou seus pertences sobre o beliche de cima e debochou para atrair a atenção do outro:
— Você é tão pequeno que eu achei que fosse uma criança, Koji.
— Alexei? — Ele questionou, olhando para o seu novo companheiro de quarto. — O que um verme como você está fazendo aqui?
— Senti saudades e viajei da Rússia apenas para te ver.
Provocou repleto de sarcasmo, mesmo que fosse uma mentira tão óbvia. Em um gesto provocativo, arremessou-se preguiçosamente na cama do outro e jogou uma piscadela para ele.
Ele e Koji se conheciam desde a academia de novatos, onde treinaram juntos. Quando foram aprovados, foram alocados em bases diferentes. Alexei fora enviado para a Rússia, enquanto o outro para a China. Koji parou o seu treino para encarar o outro, enquanto abria a sua garrafa de água. Não odiava o outro, tampouco gostava, apenas suportava dentro do limite possível, apesar das constantes farpas.
— Ei, tampinha. — Alexei começou a falar, mordendo o lábio inferior, devido à curiosidade que o devorava por dentro. — Quem é o cara super bonitão com olhos esverdeados?
— O senhor Lan Zhong? — Ele inquiriu, fazendo com que o outro se arqueasse na cama, ainda mais curioso. Percebendo o interesse que ardia naquelas íris azuladas, Koji sabia dizer exatamente quais planos idiotas se arquitetavam naquela mente ardilosa. — Sem chances, é melhor você tirá-lo da cabeça.
— Como assim?
— Todo mundo se encanta por ele quando põe os pés aqui. — Começou a proferir, limpando o suor de sua testa com o antebraço. — Depois, todo mundo percebe como ele é inalcançável. — Quando Koji ouviu o outro perguntar o porquê, ralhou, sentindo vontade de debochar da cara dele. — Lan Zhong é a segunda pessoa mais importante de toda a corporação, enquanto nós somos apenas os peões dele.
— Isso é ridículo.
— Ridículo é pensar que se pode levar um homem daqueles para a cama.
— Isso é um desafio? — Alexei perguntou com um brilho em seus olhos oceânicos.
— Não, apenas uma previsão do futuro.
A provocação de Koji foi devolvida com um sorriso, o que desencadeou um resmungo audível do outro. "Babaca", foi o que ele resmungou entre os dentes. Koji riu com escárnio, passando a língua em seu lábio inferior de uma maneira que denotava todos os pensamentos maquiavélicos que rondavam em sua mente. Ele havia tido uma ideia, porém não acreditava que a colocaria em prática.
— Se você está se sentindo tão ridículo e confiante — provocou. — Eu vou te ajudar: é comum que Lan Zhong dê uma oportunidade para que todos os novatos façam um teste com ele; porém, é impossível ser aprovado.
— Você tentou? — questionou, fazendo com que o outro apenas acenasse positivamente. — Vai ser maravilhoso passar nesse teste e esfregar na sua cara nojenta — debochou.
— Você realmente não passa de um lixo — sussurrou com um sorriso, fazendo com que os lábios do outro se curvassem ainda mais em um símbolo de vitória.
Alexei adorava provar que era superior, e se ele tivesse a oportunidade de humilhar Koji e ainda levar Lan Zhong para sua cama, certamente o faria com gosto.

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