Não era incomum para mim acordar durante a noite suando frio e ofegante, a temida sensação e alucinação de estar sendo chamada aos berros por minha mãe me assombrava mesmo enquanto eu durmo.
Não me impressionou quando reparei pelo despertador que horas eram, 3:30h da madrugada, talvez Ayato também estivesse acordado.
“ Tá acordado capeta?”
A mensagem nem mesmo caiu ao ser enviada, respirei fundo e apaguei a mensagem colocando o celular na mesinha de novo e me virando para dormir.
***
Se eu tivesse acordado com o sol em meu rosto teria sido algo muito engraçado, a cena clichê de livros e filmes de romance, seria interessante, mas não, eu não acordei com o sol em meus olhos, acordei com um calor infernal e com minha mãe gritando para que eu acordasse.
Gostar de acordar cedo ninguém gostava e isso é fato, levantar não era uma das minhas partes favoritas do dia, até porque eu sempre tinha que olhar para a bagunça do meu quarto ao qual eu não tinha ânimo para arrumar, respirei fundo e me levantei logo para me arrumar para ir para a escola.
“ Já estou indo.” Disse enquanto terminava de amarrar seu tênis.” Da escola vou direto para o treino!”
Seguir o caminho de terra batida até a escola era sempre uma tortura, não gostava do ambiente, das pessoas, e nem mesmo de estar lá, acabava que eu somente ignorava tudo e passava como um fantasma pelo resto do dia.
Chegar na escola, estudar, estudar mais, comer, estudar e por ai vai….
***
A parte da tarde era muito quente, principalmente quando se saia do treino, meus músculos estavam doloridos e eu só queria que Ayato chegasse logo para eles poderem ir tomar um sorvete ou algo do gênero, as garotas que treinavam conmigo estavam reunidas ao meu redor conversando sobre o próximo campeonato ou algo do gênero, mas minha mente naquele dia só estava longe.
Finalmente após alguns minutos pude ver a silhueta de Ayato se aproximando e abri um sorriso para ele, porém, como todos os dias, as garotas repararam em algo, ou melhor alguém, chegando na esquina e logo um coro começou.
“AYATO!!” Todas gritaram em uma voz fina que fez meus ouvidos doerem.
“ Sempre a mesma coisa, gente ele não é tudo isso não” Disse enquanto jogava a mochila nos ombros e fui até ele.
“ Você só fala isso porque ele é seu irmão Amaya!” Todas gritaram enquanto eu me despedia e ia andando com Ayato.
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“Ai, ele é tão lindo”
“Eles são irmãos de verdade?”
“ Na verdade não”
“Eles são irmãos de consideração.”
“ Por que?”
“ Eu também não sei, mas corre um rumor que eles só se tornaram amigos, e irmãos, por conta de uma tentativa de suicidio.”
“ É triste saber que alguém tão bonito como o Ayato sofreu com algo tão sério.”
“ É estranho como algo assim uniu os dois, vocês não acham bizarro?”
Os olhares recaiam pesadamente nas costas dos dois que seguiam calmamente seu caminho.#
“ Como você está Amaya?” Ele me perguntava enquanto a gente caminhava pela calçada, o sol já estava alaranjado e ele tinha se negado a me comprar um sorvete dizendo que eu precisava parar de comer coisas que me faziam mal.
“ Querendo meu sorvete, mas o de sempre” Disse olhando para o céu, seria bom voar, não com avião ou qualquer um desses esportes radicais, voar com as próprias asas, assim como os corvos, animais inteligentes na verdade, corvos conseguem aprender a falar e guardavam o rosto de quem os fez mal no passado, eram criaturas inteligentes e bem vingativas quando queriam.
“Amaya!! Eu estou falando com você caramba!”
“ Seria legal voar pelo céu, sabe, com as próprias asas.”
“ É por isso que você apanha tanto nas lutas.”
“ Isso não é verdade!”
“ Da última vez você estava tão avoada que levou um soco no queixo e nem sentiu.” Ele dizia rindo enquanto parava de andar.
“ Não fui eu quem levou um ipon por estar olhando para uma mulher bonita.” Retruquei o alfinetando por algo recente.
“ A culpa não é minha que ela era linda!”
Tudo aconteceu de forma estranha, estávamos andando e conversando normalmente, mas foi como se nossas vozes ficassem abafadas e minha visão fosse escurecendo, eu tenho quase certeza que eu tinha memórias sobre aquilo, sobre o fim de tarde, mas tudo escureceu.
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Eu sentia um vento muito forte em minhas costas, meu cabelo estranhamente estava solto e eu sentia minha testa doer muito, havia alguém tentando gritar acima do vento forte, mas eu não conseguia entender nada, estava bem frio na verdade e minha pele inteira formigava.
“AMAYA!!” Aquela voz não me era estranha, e o aperto repentino no meu pulso também era familiar, consegui entreabrir os olhos bem a tempo de ver enormes asas negras logo acima de mim, elas não estavam batendo, estavam estabilizadas deixando o vento empurrá-las, mas ainda estávamos descendo, sentia-me fraca, não conseguia mover nem um dedo sequer.
Quando senti a grama sob meus pés e o frio diminuir vagarosamente pude ver a pessoa se afastar de mim e analisar meu rosto, era Ayato ali, bem, parecia ele, mas ele nunca iria se vestir daquela forma, ele não fazia cosplay.
Ele usava uma armadura completa toda em ouro que refletia a luz do pôr do sol que machucava meus olhos, haviam asas de enfeite nas costas da armadura e o elmo cobria parte de seu rosto, mas aqueles ainda eram os olhos gentis de meu irmão, expressavam total preocupação enquanto levava a mão para o meu rosto, minha testa ainda latejava em dor e meu corpo estava pesado, desviei o olhar para o céu atrás dele, um lindo céu ao qual já começava a estampar as pintinhas brilhantes.
Ao longe conseguia ver pássaros voando por cima de uma alta montanha e ao nosso lado um lindo lago ao qual os prováveis patos pousariam.
Mas havia algo estranho, aqueles pássaros, patos seja lá o que eram, não pareciam mais ser aquilo, tinham sim asas, enormes asas, mas seus corpos reluziam á luz do sol poente, e enquanto eu perdia minha consciência, talvez pela perda de sangue, pude ver os soldados alados se aproximarem enquanto Ayato me abraçava apertado como se quisesse me proteger de ser levada por aqueles anjos, e quem diria, sempre imaginei que iria para o inferno quando morresse.

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