Elysium não era apenas uma cidade; era um organismo vivo.
A metrópole reluzia, mas seu brilho era seletivo. De cima, parecia uma joia, mas quem olhasse para as bordas via a maresia e a ferrugem sob o cromo. No centro, os arranha-céus e o monólito negro e vermelho da Sanguine Corp brilhavam em neon, pulsando em perfeita sincronia urbana. Porém, na periferia, onde se localizavam o antigo estaleiro e as estufas abandonadas, a luz não chegava.
Um drone de vigilância, adornado com o brasão carmesim da Sanguine, zumbia em direção à área portuária. Suas lentes tentavam atravessar a densa névoa que encobria o porto, porém a estática chiou em seus circuitos. O drone hesitou, girou e recuou, afastado por uma barreira invisível.
O domínio da Sanguine é como uma mancha de óleo: expande-se rápido, porém ainda não cobriu todo o oceano.
Eles chamavam de "Corporação", mas qualquer um que olhasse de perto veria a verdade: a Sanguine não era uma empresa. Era um corpo vivo, e Elysium era apenas o hospedeiro.
Para manter a ordem absoluta, a hierarquia se dividia em três órgãos vitais, fundindo o poder das grandes corporações, a política e a indústria em uma simbiose aterrorizante.
Hades Carmine, filho único dos renomados CEOs da Sanguine Corp, atuava como Vice-Presidente de Tecnologia, enquanto Morfeu, seu fiel subordinado, assegurava que nenhum segredo ficasse oculto. Por meio de milhões de câmeras, sensores biométricos e algoritmos preditivos, eles convertiam a privacidade em algo do passado. Se você considerasse se rebelar ou se algum domínio surgisse, os ‘’olhos’’ já estariam cientes antes de você tomar qualquer atitude.
O ar dentro da torre era gelado e tinha um cheiro de ozônio.
Hades encontrava-se em pé, frente a um enorme mapa holográfico que pairava sobre sua mesa de obsidiana. A previsão deveria mostrar um mar azul de dados sob controle, porém ele enxergava cicatrizes. Buracos negros de informação flutuavam sobre o local da floricultura "Raízes de Gaia" e do estaleiro de Orion Lagus.
— Inadmissível — sibilou Hades, a voz carregada de veneno contido. — Como podem existir setores que não devolvem um único bit de informação?
Ele cerrou o punho e golpeou a mesa com força. O holograma tremeu.
Nas sombras do escritório, a figura silenciosa de Morfeu observava, impassível.
— Tecnologia é ordem. Se eu não posso mapear, não consigo controlar. E se eu não controlo... — Hades tocou as manchas escuras no mapa com atenção. — Esse lugar é uma anomalia que precisa ser extirpada. Morfeu, eu quero olhos físicos onde meus satélites não alcançam.
— Compreendido, Vice-Presidente Hades. Meus olhos já estão a caminho.
Para a Sanguine Corp, a cidade é um corpo vivo. Hades e Morfeu são os olhos e a mente analítica.
Mas nos andares inferiores, o silêncio era clínico.
Nyx Carmine, a Matriarca, percorria os dedos sobre tablets de vidro, examinando o fluxo sanguíneo da cidade. As telas exibiam milhões de batimentos cardíacos sincronizados com a música, mas seus olhos experientes procuravam o erro — a anomalia.
Seu olhar recaiu sobre um relatório marcado em vermelho: "Anomalias elementais não identificadas".
Atrás dela, dentro de uma câmara de vidro reforçado, uma figura feminina flutuava em suspensão com roupas hospitalares; uma boneca viva aguardando a hora de acordar.
"A música de Thanatus acalma as massas," pensou Nyx, observando os gráficos oscilarem. "Mas a biologia... a biologia sempre encontra uma forma de se rebelar."
Ela se levantou e caminhou em direção ao tubo, seus saltos perfeitamente alinhados ecoando no silêncio do laboratório. Nyx acariciou o vidro friamente.
— O elemento puro ainda está lá fora. Nefer, você é apenas o começo...
No marco zero da corporação, Thanatus Carmine, o produtor musical e CEO, sentiu a vibração subir pelas solas dos sapatos. O maestro sabia que o alicerce estava começando a rachar.
Ele estava na varanda da cobertura, a cidade estendida aos seus pés. Em sua mão, a batuta — que também servia como uma flauta fina — desenhava arcos no ar, tecendo a melodia que mantinha seu ego e controle. Ele fechou os olhos, apreciando a sinfonia da obediência.
De repente, sua expressão de êxtase se contorceu em desgosto. No ar à sua frente, uma linha dourada de som vibrou violentamente e se estilhaçou com um ruído de cristal quebrado. Abriu os olhos, o choque visível em seu rosto.
— Há um ruído... uma frequência que não deveria existir. — Indagou para o vento. E, pensativo, acrescentou: — Alguém está desafinando meu mundo.
Longe das torres de vidro, o mundo real respondia. Nos subúrbios do estaleiro onde os drones não alcançam.
Perceu Lagus, um cidadão de Elysium, filho de Orion Lagus, imergiu as mãos na água viscosa da baía. A sujeira se afastava imediatamente do local onde sua pele clara tocava, deixando para trás um rastro de água cristalina e pura, que brilhava em um azul indescritível.
— O que... o que é isso? O mar está me chamando? Não, é a água... — Os olhos azuis do rapaz encaravam o líquido em suas mãos com fascínio.
Muitos carregam consigo dons herdados de algo antigo... o sangue não esquece seus criadores. Sob o domínio da luz ou escuridão, a herança dos deuses ainda pulsa em segredo.
Saindo dos subúrbios, em um condomínio tranquilo longe dos grandes arranha-céus, uma jovem garota de cabelos brancos observava na janela. Um livro em sua mão direita e um poder transcendente entre os dedos da esquerda, formando correntes de ar. Ela observava o céu.
— Algo está acontecendo no vento... Eu consigo sentir — sussurrou.
Em meio a tanta tecnologia e modernidade, ainda existe um pequeno grupo de resistência que não sucumbe aos desejos das grandes empresas. Uma delas é a floricultura ''Raízes de Gaia''.
Dentro do antigo prédio que parece ter parado no tempo, mãos delicadas infundiam cristais brilhantes à terra de uma pequena planta, enquanto uma garota de cabelos loiros e vestido jeans cantarolava um ritmo de algum repertório cotidiano.
"Eles tentam sufocar o solo com concreto e silício... Porém as raízes são mais profundas," pensou a jovem.
— Hãn?... Algo está errado, pequena? — Ela apalpou com cuidado a muda, que sussurrava coisas que ela não compreendia totalmente naquele momento.
No Condomínio Agni, o sol da manhã já batia no vidro blindado, iluminando um refúgio de mármore e silêncio onde a música era a lei. Na cozinha, a perfeição era quase tangível.
Dante, o patriarca e estrela da Sanguine Corp, estava de costas, vestindo um luxuoso roupão preto. Ele preparava o café com movimentos precisos, assobiando a melodia que estavam compondo. Na mesa, Serena, impecável em sua roupa de estúdio, cantarolava em perfeita harmonia com o marido, enquanto seus dedos deslizavam sobre uma partitura digital.
Héstia suspirou, o som abafado pela sinfonia doméstica.
— Bom dia! Pai, mãe... vocês dois precisam ensaiar até no café da manhã? — Ela apoiou o queixo na mão. — Essa música nova gruda mais que chiclete na sola do sapato.
— Bom dia, Sunshine. É o preço da perfeição, querida. — O homem de cabelos ruivos sorriu para a filha.
— Não há o que temer, pois na frequência pura todos nós vamos pertencer... — Serena cantarolou um trecho da composição. A mulher com traços felinos sorriu, sem desviar o olhar da tela holográfica. — Bom dia, filha! Thanatus sempre diz que a música não é o que fazemos, é o que somos.
[ERRO!] alertou a partitura digital.
Héstia suspirou e apoiou as palmas das mãos na bancada de mármore.
No mesmo instante, o cantarolar de Serena cessou. A mãe levantou a cabeça lentamente, inclinando-a como se captasse uma frequência que ninguém mais podia ouvir.
— Dante, querido... Pare um instante. O sistema está informando falha de aquecimento... — Serena franziu o cenho enquanto o holograma desligava e desaparecia de suas mãos.
— Hãn? — questionou o marido.
O ambiente começou a aquecer subitamente ao redor da família.
— Isso não é comum de acontecer nos braceletes, mãe. Seria melhor investigar na Sanguine, o ChatHades pode... — indagou Héstia, sendo interrompida por sua mãe.
— Não, Héstia, meu amor... É o seu dom. — Serena disse. Sua sensibilidade de raça a fazia perceber o perigo antes dos sensores. — Está superaquecendo o ambiente.
— Sabia! Sabia que tinha algo errado comigo. Estava me sentindo muito quente quando acordei. Meu corpo está... ESTÁ QUEIMANDO!!!
CRACK!
A xícara de café à sua frente se rompeu, espalhando porcelana para todos os lados. A bancada de mármore fria começou a ser tomada por rachaduras quentes, brilhando como magma, enquanto uma fumaça negra emanava da jovem.
— FILHA, ACALME-SE!! — O pai, em pânico, estendeu as mãos na direção da filha.
Para Héstia, a realidade começou a se desfazer. A fumaça ameaçadora cortava o espaço entre ela e seus pais. Seu corpo perdeu as forças e ela cambaleou.
— Pai, mãe... eu... — Três palavras baixas, quase inaudíveis, escaparam antes que a visão se tornasse escura e seu corpo febril encontrasse o chão gélido.
— HÉSTIA!!! — Serena gritou, os olhos arregalados de pânico.
Dante largou tudo e tentou segurar Héstia pelos ombros, mas suas mãos atravessaram uma fumaça negra e densa que começou a emanar da pele da garota, intangível como um pesadelo.
E esse é o nosso início.
Mas não foi aqui que tudo começou...
Nem sempre foi assim.
[Continua...]

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