Ele corria pela floresta. Os brados de batalha e os gritos de dor ao seu redor não o apavoravam tanto quanto a ideia de ser capturado.
Tropeçou.
Olhou para trás na esperança de ver os demais, mas eles não estavam lá. Eram três híbridos elfo-humanos e haviam se perdido uns dos outros durante a fuga. Tinham planejado ficar juntos, mas no meio da escapada, ao se depararem com um confronto entre alados e elfos no meio do caminho, se separaram.
Se pelo menos um escapasse e sumisse para sempre, os outros estariam seguros. O poder que fora selado dentro deles não teria como ser usado sem que as três partes estivessem juntas.
Tentou correr para longe da luta, esquivando-se dos confrontos. Pulava corpos sem vida caídos pelo embate travado entre os alados de Aterion e os elfos de Vetrel.
— Falchia!
Seu coração disparou. Usou toda a agilidade élfica que tinha e correu — correu mais do que suas pernas suportavam.
Um alado aterrissou bem à sua frente. Talvez o tivesse confundido com um elfo puro, ou só estivesse com sede de sangue de qualquer coisa que surgisse diante de si. O gigante de pele cinzenta rugiu em sua forma bestial plena, avançando as garras em um ataque fulminante.
Desarmado, Falchia só foi capaz de parar e esperar pelo golpe. Seus olhos lilases arregalados espelhavam o terror de ter ido tão longe apenas para morrer pelas mãos de um ser que sequer era seu inimigo.
De repente, o cheiro de magia impregnou o ar. O alado urrou, pressionando o peito largo onde uma aura negra pulsava sobre o coração.
Sem conseguir se conter, Falchia olhou para trás. O lorde vinha a passos decisivos. Seus olhos verdes transbordavam um furor direcionado à criatura, assim como a mão estendida que controlava a magia. O alado tentou sobrepujar a dor, mas o feiticeiro fechou o punho como quem esmaga uma fruta podre. O grito estrangulado foi interrompido e o alado, com o coração estourado por dentro, caiu com um baque seco.
— Não fuja mais — disse o lorde ao se aproximar, com o furor se desfazendo.
Lágrimas quentes inundaram os olhos de Falchia. Sem fôlego e com as pernas bambas, ele se recostou em uma árvore e desabou no chão.
Aquele lorde não tinha mais que dezoito anos. Em tão tenra idade, já era um feiticeiro de matiz negra, responsável pelo aprisionamento dele e dos outros dois híbridos.
— Por que fez essa loucura? — O lorde se abaixou. — Eu disse que cuidaria para que vocês ficassem bem.
— Você mente — cuspiu Falchia, ofegante. — Você só quer preservar o que colocou em nós e encontrar um bom uso para o seu reino.
— Está errado. — A mão morena afastou a franja escura que caía sobre os olhos do híbrido. — Eu quero ajudar.
— Cala a boca — sibilou, tentando se afastar da dor que aquela piedade lhe causava. — Nos levar para Exclam para servirmos como receptáculos é cruel. Por que não nos mata de uma vez?
A pena logo se tornou um peso nos olhos verdes do feiticeiro, que se voltaram para a pequena caixa que trazia consigo. Pela culpa estampada naquele olhar, Falchia pôde prever o pior.
— Ersis e Nyr? — perguntou, o peito apertado ao compreender o significado da caixa preta. — Você os encontrou?
— Não deveriam ter fugido — lamentou o lorde, como se fosse simples eximir-se da culpa transferindo-a para eles.
— Você não deveria ter usado o meu povo como cobaia!
O lorde transformou a dor em determinação e espalmou a mão na testa de Falchia e o prensou contra a árvore. Primeiro veio o odor da magia; depois, o formigamento.
— O que vai fazer? — O híbrido tentou empurrar a mão do opressor. — Não! Pare!
O lorde estava separando a parte do flagelo que ele hospedava em seu corpo.
— Se eu tirar o que está aí dentro agora, você morre — alertou o feiticeiro, apertando a mão para impedi-lo de escapar.
Com todo o ressentimento que o corroía, Falchia o encarou.
— Acabe com isso de uma vez, então.
— Eu não quero isso. — Um sorriso triste sobrepôs-se à firmeza do lorde. — Mas não há como estabilizar o flagelo sem extraí-lo de você.
Falchia sabia que não haveria salvação e que morreria como os outros. Nenhum híbrido sobrevivera à extração; nenhum havia sequer suportado o flagelo até que ele, Ersis e Nyr dividissem o fardo. A aposta da fuga fora alta, e agora as lágrimas escorriam pela perda dos amigos e da própria vida.
A essência vermelha, à medida que era removida, foi se direcionando para a caixa escura. O brilho misturava-se à energia que já estava ali — as duas partes do flagelo que Ersis e Nyr continham e que o lorde já coletara antes da dele. Falchia imaginara que a extração traria uma dor excruciante, mas só sentia letargia — uma fraqueza que pesava em suas pálpebras, como se precisasse urgentemente dormir.
O lorde havia colocado a outra mão em seu peito, lutando para dividir o próprio fluxo de magia.
— Acha que vai se redimir tornando isso menos doloroso? — Falchia compreendeu, enfim, a razão de estar dormente.
— Eu... sinto muito, Falchia. — O feiticeiro intensificou o fluxo mágico.
— Não... c-creio que s-sinta... — murmurou o híbrido, sentindo os últimos vestígios do flagelo o abandonarem, levando consigo o resto de sua vida.

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