Embarquei assim que ele abriu suas portas, era um ônibus inter-regional, sentei bem ao fundo e puxei o livro que estava lendo... eu estava voltando para minha cidade natal. Após um pouco de leitura deparei-me com a seguinte frase: -“A ave sai do ovo. O ovo é o mundo. Quem quiser nascer precisa destruir o mundo. ” Essa frase é de Hermann Hesse, era uma das minhas favoritas, sempre imaginei nas grandes possibilidades de “destruição” as quais podem se aplicar, desde pensamentos, medos, falsas certezas, podemos quebrar a casca.
— Eu mesmo gostaria de nascer e destruir o mundo onde eu me encontro.
Murmurando essa frase para mim mesma. Apesar de viver em um local com pouca violência, nada é impossível de acontecer e o que eu já presenciei não foi nada agradável, aquilo que eu tanto gostaria de esquecer, ou melhor, que apenas gostaria de ter evitado que acontecesse e no final fui inútil. Sempre evitei conflitos, e evitei envolver-me com qualquer tipo de situação ou pessoa, queria uma vida pacífica e isolada no meu canto, mas foi impossível. Depois de tudo, gostaria de quebrar essa casca, a minha casca, não posso mudar o passado, apenas posso viver o futuro, seguir em frente. Pode parecer idiota, mas eu preferia simplesmente começar do zero...
Após um tempo cochilei e sonhei com algo um tanto quanto perturbador, o barulho ensurdecedor de um relógio de ponteiro, uma sombra negra, a escuridão que me abraça descuidadamente... tudo era sufocante e agonizante, era o meu pecado que de tempos em tempos me prendia em meus sonhos e eu sabia que continuaria até o momento de acordar. Despertei, rapidamente abrindo os olhos com o susto, uma batida na parede de contenção e após isso um balançar incomum feito pelo ônibus, eu não imaginava o motivo e outros passageiros aparentavam estar em desespero, algo havia acontecido com o motorista, aparentemente desmaiou pelo excesso de horas seguidas dirigindo sem dormir.
Eu compreendia o porquê de estar imóvel, estava congelada e consumida pelo medo do meu pesadelo, não era incomum, eu sempre me encontro assim após visualizar o mesmo sonho. Meu corpo apenas ia de um lado para outro de acordo com o ziguezague do ônibus assim como todos os outros passageiros. Eles gritavam ao ponto de ecoar dentro da minha cabeça. Imediatamente o veículo bateu na barreira de contenção atravessando-a e despencamos de uma enorme ladeira, tudo girava continuamente até parar e capotar depois de chocar-se com diversas árvores pelo caminho.
Após a queda eu me sentia atordoada, era um verdadeiro cenário de horror, o sangue estava por toda volta e eu não conseguia distinguir se era meu ou de outrem. O pouco de raciocínio que possuía só me serviu para relembrar de um passado atormentado e das diversas oportunidades que recebi de quebrar a casca, mas no fim nunca fui capaz de nada.
— Então é verdade, toda a sua vida passa pelos seus olhos no leito de morte.
Gastei minhas últimas forças para falar uma frase que apenas eu poderia escutar. Aos poucos fui perdendo a consciência, senti-me cansada e sonolenta até o momento que apaguei, o frio penetrava pelo meu corpo, foi um sentimento de como se estivesse finalmente podendo descansar depois de um contínuo tempo de exaustão. E então a escuridão que me cobriu finalmente distanciou-se com raios de sol, era um novo começo inesperado.

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