— Todo dia essa demora infernal pro ônibus chegar! — Dizia Ricardo a seus dois colegas de trabalho, Bruna e Rafael. Eles trabalhavam há pouco mais de um ano em uma loja de roupas bem popular. Era um emprego razoável, com exceção do tardio horário de saída que por pouco batia com o do último ônibus da frota.
— É incrível. Estamos no segundo maior município paulista, mas é só anoitecer que o centro fica completamente deserto… — Disse Bruna, uma apaixonada pela grande cidade de São Paulo. Seu sonho sempre foi morar lá, onde poderia desfrutar do metrô, das barracas de Yakisoba e de estilosas pochetes na imponente Avenida Paulista. Desejava aquela famosa selva de concreto como nunca havia desejado nada antes.
— Falando nisso, continua com aquela ideia de estudar em São Paulo? — perguntou Ricardo.
— Claro que sim. Ainda vou prestar dois vestibulares para jornalismo e rezo pra passar! — Respondeu Bruna, juntando suas mãos e olhando para o céu, vazio de estrelas como sempre.
— Seria melhor estudar, né? Acho bem difícil Jesus aparecer e responder sua prova! — Brincou Rafael, no seu bom e velho jeito irônico de viver. Em tudo ele encontrava uma brecha para destilar suas piadas e comentários cheios de graça.
— Minha nossa, você é muito chato! Tá vendo? Mais um motivo para eu me mudar: Não há Rafael em São Paulo! — Exclamava Bruna, em um estranho misto de raiva e alegria.
Ricardo, em uma tentativa de retomar o assunto deixando Bruna livre das gracinhas de Rafael, perguntou:
— Afinal, por que tanta sede em ir de vez pra lá? Morar na segunda maior cidade do estado não é o bastante?
— O bastante?! — Disse Bruna em tom levemente elevado — Pare e observe um pouco esta cidade. A gente está aqui esperando o último ônibus do dia aparecer, certo? Vamos todos chegar em casa por volta da meia-noite e depois voltaremos aqui às oito da manhã. Bastava uma mera estação de metrô e já estaríamos tranquilos, de banho tomado, em nossos respectivos lares.
Bruna então suspirou, se apoiando no poste próximo a ela que sinalizava a parada do coletivo. Olhou para a esquina com esperança de ver seu ônibus fazendo a curva, aflita.
Após a breve pausa, disse:
— Nada de interessante acontece por aqui.
Nesse momento o grupo foi surpreendido por um alto som de queda. Os olhos de todos instantaneamente começaram a procurar pela origem do ruído, até notarem nas proximidades uma jovem caída de joelhos.
A moça possuía longos cabelos ruivos, vestia um conjunto preto brilhante e usava em seu rosto uma maquiagem impecável. Entretanto, nenhuma dessas coisas chamava tanto a atenção quanto sua respiração ofegante e seca.
Bruna se aproximou dela sem pensar duas vezes. Ajoelhando-se e apoiando as mãos em seus ombros, exclamou: — Meu Deus! Você está bem? Alguém fez algo com você?!
A garota fazia menção de levantar a cabeça, porém não conseguia.
— Amiga, você conhece ela? — Perguntou Rafael, enquanto se ajoelhava para ajudar, assustado com toda a situação.
— Não, nunca vi. Será que fizeram isso com ela? Tem algum cara por perto?
A respiração da garota ficava mais ofegante.
— Não tô vendo ninguém. — Afirmou Ricardo, que estava em pé observando o ambiente, por trás de seus dois colegas.
Cada vez mais anormal, a ofegância respiratória da jovem só aumentava. Era assustador o bastante para fazer qualquer um ao redor sentir o próprio ar faltar.
Todos estavam desesperados. Bruna tentava ao máximo extrair alguma informação da garota, a fim de descobrir se ela estava acompanhada, possuía algum número de telefone ou até mesmo se era portadora de alguma condição de saúde. Rafael tentava ligar para o pronto socorro enquanto Ricardo procurava por ajuda ao redor, preocupado com algum provável suspeito dar as caras.
— Gente, a-acho… — dizia Bruna, preocupada — …que ela vai vomitar!
Um som borbulhante saía da boca da garota, sobrepondo-se ao ruído de sua respiração falhando. Seu corpo se contorcia antecedendo a primeira ejeção de vômito, porém, inesperadamente, uma pequena quantidade de fumaça escura acabou sendo colocada para fora durante uma de suas contrações.
— Mas que p… — Ricardo tentou dizer, mas foi interrompido pela segunda tosse da garota. Dessa vez mais forte, uma quantidade cavalar de fumaça foi liberada. O ambiente foi ficando cada vez mais escuro e sufocante, como se alguém tivesse apagado todas as luzes e fechado a única janela. Bastou um instante para o local todo ficar coberto por aquela nuvem escura.
Não demorou muito e a moça desapareceu do campo de visão dos três, que ficavam cada vez mais impossibilitados de respirar.
— E-eu… não… cons… — Bruna tentava dizer algo, mas a ausência de fôlego não permitia. Seus colegas de trabalho mal conseguiam parar de tossir.
A sensação de sufocamento era assustadora. Medo e pavor acompanhavam cada doloroso segundo que precedia uma inevitável perda de consciência.
Porém, em um instante, tudo passou. A nuvem de fumaça se dispersou na mesma rapidez que apareceu, dando lugar à normalidade.
O grupo tossia conforme o ar ia lentamente retornando para seus pulmões. Ofegantes, estavam em completo estado de confusão após esse turbilhão de acontecimentos.
Caída, Bruna direcionou lentamente seu olhar ao redor e encontrou a garota ruiva. Com sua maquiagem borrada por lágrimas e suor, ela inalava toda a fum
Bruna, ainda caída, direcionou lentamente seu olhar à movimentação que ocorria em sua frente. Aterrorizada, sabia que estava assistindo a uma cena que ficaria gravada em sua mente por muito tempo.
A garota ruiva, ainda ajoelhada, com sua maquiagem borrada por lágrimas e suor, terminava de inalar toda aquela estranha fumaça. Diferente dos fumantes, ela não expelia de volta, muito menos dava algum indício que faria isso. Apenas inalava.
— Quem… é você?! — Questionou Bruna, atordoada pelo incidente.
— Eu… — A jovem conseguia falar normalmente, sem o menor traço dos ocorridos, como a quase perda de consciência e inalação da nuvem escura. — …sinto muito!
Ela rapidamente se levantou e correu, virando a esquina e deixando para trás o grupo e muitas dúvidas.
Isso foi real?
Quem é ela?
Nós quase morremos... Foi de propósito?
Alguém viu? Será que acreditaram na gente?
E este foi o marco zero de uma sequência inacreditável de eventos que jamais permitiriam que a frase dita por Bruna naquela noite fosse repetida.
“Nada de interessante acontece por aqui”.

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