O palco, as luzes, os atores, a música. Esses são os componentes que formam um espetáculo, cada um tão único. Todos diferentes, mas possuem algo em comum, precisam de uma história, de um proposito, de um caminho inventado para chegar na realidade e ele é entregue pelos escritores, pelos roteiristas, usados e organizados pelos diretores que trazem à tona a visão dramática e cômica dos dramaturgos.
Esse sou eu, um dos mais jovens e mais bem sucedidos escritores e diretores do país. Com 21 anos de idade eu tento sempre trazer o drama e a beleza da arte ao mundo. Tenho uma equipe ótima de atores e vivo sem precisar me preocupar muito. Minha vida é serva do entretenimento, o mundo é o meu palco e esse palco é o mundo do entretenimento.
O som do alarme me acorda, ainda cansado me levanto indo até o banheiro e me olhando no espelho. Vejo o meu cabelo todo bagunçado e minhas olheiras. Mesmo o meu trabalho sendo bem recompensador ao final, eu continuo trabalhando e vivendo longe do luxo, prefiro ficar assim a chegar perto das pessoas “chiques” que só sabem ser arrogantes, tenho minhas ambições e elas não acabam apenas com algo tão sem vida quanto dinheiro.
Depois de me arrumar desço as escadas do meu apartamento e entro em um mundo místico totalmente diferente do habitual. Incensos para cá, estatuas de deuses, pedras preciosas para lá. Aqui é onde a minha proprietária mora, Maria é uma amiga minha de longa data, ela é uma cartomante que trabalha lendo o futuro de diversas pessoas famosas daqui da cidade.
-Bom dia meu querido, como foi seu dia ontem? Chegou no apartamento lá pelas 4 horas da manhã de novo pelo que ouvi.
-Ah desculpa, não queria te acordar naquela hora.
Pego um saco de pão e boto duas fatias na torradeira para tosta-los para Maria.
-Deu uns problemas com o roteiro e organização de coreografias, tive que sentar e analisar cena por cena no escritório daí já imagina o que que aconteceu...
Ao me servir de café Maria pega minha mão e começa a observar com cuidado, reviro os olhos ao seu ato. Não é que eu não acredite que exista uma força que controla tudo. Não sou religioso, estou mais para um fatalista. Se algo acontece é porque teve que acontecer, pelo menos é isso que eu acredito.
-Hoje vai ser um dia de trabalho pesado e cheio de complicações que você vai precisar conciliar com o encontro de uma pessoa que vai influenciar seu futuro!
-Ok, então o dia normal de sempre?
-Mesmo que seja o mesmo dia de sempre, também é uma porta de oportunidades para as melhores mudanças em nossas vidas.
-O que você quer dizer com mudanças?
Ela fica com aquele sorrisinho cínico dela e então percebo o que quis dizer, solto um grunhido e escuto ela rir de mim ao sair da sala.
-A vida romântica também é importante meu querido, a vida não é feita só de trabalho.
-Ta, tá. Claro que é. E como que está o seu marido lindo, o Guedes?
Maria se engasga com seu chá.
-Seu moleque, você sabe que ele está em uma viagem com o Fonseca.
-Ah sim o “Amigo” dele.
-Leonardo!
Saio da casa rindo a deixando sozinha. Maria é uma pessoa incrível, me aceitou na sua família, mesmo sendo bem confusa. O marido dela, Guedes, é um homem de negócios de uma empresa que estranhamente sempre manda ele ir em viagens pelo país junto de seu colega de trabalho, Fonseca. Maria não vê nada errado, mas eu. Digamos que eu prefiro deixar minhas opiniões para mim mesmo...as vezes.
Hoje eu tenho um dia atarefado, como sempre. Primeira parada Editora de Livros e Mangas Escrita e Café, essa empresa foi a que eu criei de imediato depois do meu primeiro livro. Depois dele, eu quis procurar e ajudar quem eu puder a ter voz na escrita, seja essa pessoa quem seja, dos romances aos terrores, dos mangas aos poemas todos merecem uma chance de se expressar.
Ao entrar no prédio, subo os elevadores até o 31º andar e entro na porta de madeira que está ao lado do elevador com o número 88.
-Senhor Zang, bem-vindo.
-Bom dia, Sam como você está essa manhã?
-Estou com vontade de beber e sair do trabalho mais cedo de novo.
Essa é a Sam, ela é a pessoa mais sincera que já vi no mundo, é engraçado ela ter aceitado e procurado um trabalho onde tem que falar com pessoas o dia todo e parecer profissional com todos que ela conversa a cada segundo.
-Eu também gostaria, mas eu não aguento tanto quanto você.
-Só sou forte para o álcool Leo, não quer dizer que tenho um problema com bebida.
-Sei, sei... O que temos de bom para a manhã de hoje?
-Você tem 3 reuniões. Com o pessoal do marketing sobre a sua ideia de publicidade nas redes sociais que quer implementar no mês que vem, com um dos escritores mirins que entrou agora na nossa editora que disse que estava precisando de uma opinião no texto dele e a última reunião é com a porcaria da gráfica que está querendo aumentar o preço das produções por conta do alto nível de pedidos que estamos fazendo.
-Tá bem, manda tudo para a minha sala e eu começo a ver cada uma com um pouco mais de calma, você já fez o meu café não é verdade?
Ela olha para mim com uma cara de medo, como se tivesse esquecido de algo superimportante, mas logo ela quebra o teatrinho e aponta para a porta do meu escritório.
-Está quente e pronto na sua mesa como todos os dias seu trouxa.
-Sem Vodka dessa vez certo?
Ela me olha com uma cara emburrada.
-Depois da reclamação dos seus amigos do teatro de você estar bêbado antes do almoço de comemoração de vocês, eu não botei álcool.
-Ok, obrigado.
-Não é nada chefinho.
O mundo da escrita é muito mais que só palavras bonitas e histórias para a vida. Ter que entender o leitor que queremos para nossas obras, guiar eles em suas respirações em nossas tramas. Para mim, escrever é como respirar, é pensar como um adulto ainda não sendo. É ser doido e ao mesmo tempo normal, é parecer ignorante com uma vasta sabedoria, ser fascinado pela escrita e viajar dentro de todas as suas representações, é proteger aqueles com quem você se importa, ter o controle do seu passado e do seu futuro, ter suas lágrimas congeladas por medo, a chama da sua paixão arder da vontade, ser assombrado pelo que já fez, é amar ser quem você é sem ligar para o que os outros dizem, é odiar quem você já foi, é ser respeitoso e exigir respeito, é criar a justiça e saber como impor ela da forma mais pacifica possível, é dar a vida por aqueles que importam, é aceitar o erro e transforma-lo em acerto com simples falas.
Imaginar é como escrever, é se pôr na frente do fogo pelos outros, errar consigo e seguir correndo, sofrer por aquilo que você não tem controle, amar a si mesmo se odiando, buscar grandes sonhos para ajudar os outros, querer ensinar para o melhor, adotar uma ética e segui-la com um sorriso.
Estar vivo é como imaginar, querer que o futuro chegue rápido, se planejar meticulosamente para projetos, dar ao máximo o que você tem mesmo sendo pouco, amar ser quem você é e odiar quem você já foi.
O início foi a parte mais triste e aterrorizante, o meio está sendo a parte mais confusa e desafiadora, e o futuro já está sendo escrito e planejado para que tudo chegue às grandes expectativas. Trabalho em prol da escrita e isso que me faz ser quem eu sou.
A manhã se vai e a tarde chega, já terminei todas as reuniões da editora que eu precisava fazer e agora está na hora de ir para a segunda parte do trabalho.
-Eu estou indo pro estúdio tem algo importante amanhã de manhã para nós Sam?
-Eu quero dizer que não, mas temos mais novas reuniões, não tem muito o que fazer.
-É a vida que escolhemos.
-Sabe do que você está precisando? É de umas férias.
-Tchau Sam...
Digo isso saindo da sala deixando minha secretaria sozinha. Entro dentro do carro da minha carona e vou indo pela cidade até o estúdio de teatro que utilizo para ensaios da minha companhia. O sol batendo nos prédios e árvores compõe uma linda visão ao se passar. Essas pequenas belezas que não paramos para perceber é o que quero trazer com meus trabalhos, trazer isso para o mundo poder parar por pelo menos um segundo, tirar aquele suspiro ao apreciar a arte que criamos. Ao chegar no prédio eu vou indo até a minha sala designada, com teto alto tendo canhoes de luz para já testarmos as composições de luz básica que podemos usar nos palcos, os atores em um dos cantos se alongando e o pessoal de som em outro se preparando para o ensaio e por fim uma pequena mesa onde, geralmente, escrevo ou organizo roteiros quando necessário.
-Boa tarde pessoal, como estamos hoje?
Todos falam em conjunto.
-Boa tarde Leo!
Deixo minha bolsa na minha mesa e já vou em direção aos atores e uma atriz linda de cabelos escuros se aproxima de mim com uma feição desafiadora.
-Olha só, se não é o grande Leonardo, se atrasou hoje foi?
-Se não é Sthefany, os palcos de glamour não foram o bastante para você?
Nos encaramos por um momento até cairmos na gargalhada.
-A quanto tempo que não nos vemos hein Thefy, não achei que tinha aceitado meu convite para participar desse espetáculo.
-Você sabe bem como sou, adoro me apresentar num belo palco.
Essa é Sthefany, ela é uma das maiores modelos daqui do Brasil, já trabalhei com ela várias vezes em alguns dos shows de moda que fez no passado. Eu a adoro demais, além de uma parceira na arte, é uma amiga maravilhosa.
-Então Leo, o que precisa de mim?
Já sorrio para ela e em seguida me direciono a toda a equipe.
-Hoje vamos começar dando uma retomada na cena 16 “A chegada da mãe.” Vamos preparar a luz básica da cena para a composição, está tudo pronto galera?
Todos respondem juntos.
-Sim!
-Ok então vamos começar.
Sthefany se prepara e eu me coloco em frente a área que usamos para ensaiar, ela seguindo o meu roteiro, mantendo as expressões fortes em cada palavra, trazendo, com graça e beleza, a personagem a vida. Ela já está inserida nesse mundo de luz e drama que conseguimos trazer com a atuação.
-Meu filho, tudo que estou buscando é ver você feliz, ter um futuro brilhante, encontrar o amor, só isso. É pedir demais?
-Mãe, eu quero escolher o meu caminho, minha vida é minha, não é você que deve escolher as minhas decisões.
-Mas filho eu... o que foi isso?
Em um momento um som alto de metal é escutado vindo do teto, por impulso olho para cima e vejo apenas o canhão de luz com a armação parecendo que ia se romper.
-Saiam daí agora!
Um último estrondo lá de cima e o canhão se solta e começa a cair em direção a Sthefany, ela seria esmagada por ele, minha amiga ia morrer, não posso deixar isso acontecer. Corro até ela e vou indo com uma velocidade que eu não sabia que tinha, consigo empurrar ela para fora do local, mas não consegui sair da frente do holofote. Apenas vejo o objeto grande caindo em mim, sinto uma pressão avassaladora, não consigo gritar nem nada. Tudo parece estar desacelerando, tudo parece estar escurecendo, tudo parece estar ficando...em silencio.

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