Ah, estava começando novamente… barulhos reverberando da cozinha e chegando naquele quarto. Vozes distintas que ele conhecia muito bem.
— Mentiroso de merda! Estava no trabalho até agora? Não fode com a minha cara! — uma voz feminina rasgou com seu tom agudo que arrebatou as paredes com facilidade. Logo em seguida, foi sobreposta por outra.
— Vai começar com isso de novo? É sério, Hana? Não me encheu o saco o suficiente com isso na última vez não? — a voz grave respondeu, aumentando o volume a cada palavra dita.
As duas vozes continuaram aumentando, enquanto discutiam entre si. Era sempre assim que começava. Passos pesados ressoaram no piso de porcelanato da cozinha, parando em algum momento antes que a geladeira fosse aberta.
O zumbido do refrigerador abafou levemente o rosnado raivoso da mulher, que naquele momento era completamente ignorado pelo homem. O mesmo apanhou algo de dentro do eletrodoméstico, se jogando no sofá com força.
A tampa da garrafa de cerveja foi rapidamente arrancada em um estalo que veio seguido do som de líquido sendo engolido rapidamente, em goles largos de “glup”.
“...”
— Quer saber? Eu não te devo satisfação de porra nenhuma, mulher! — O homem gritou, jogando a garrafa de vidro no chão. O vidro se estilhaçou imediatamente, empesteando o ambiente com uma explosão sonora repentina que durou menos de um instante.
“Já era o suficiente…”
Mas ainda não era o suficiente como ele queria que tivesse sido. Não, os dois estavam apenas começando, como sempre. De nada adiantaria fechar a porta, de nada iria bastar pressionar o travesseiro contra os ouvidos.
Não haveria silêncio para ele — nunca pararia de começar.
o ruído continuou invadindo sua cabeça, roendo seu cérebro por dentro. Hana gritava, chorava, rosnava de raiva, parava quieta, apenas para voltar a discutir de novo.
Era o mesmo com seu pai. Não tinha hora e nem pressa para acabar com aquele barulho insuportável. Os dois possuíam a noite inteira para fazê-lo.
“Eu queria ir embora… daqui…”
Ele pensou, como sempre pensava quando estava nessa mesma situação. “Ir embora dessa casa” ou melhor, ir embora desse barulho todo era seu desejo.
— Você é perfeito… — o som, ruído ou barulho havia parado completamente. Tudo que ele ouviu naquela fração de segundo foi uma única voz. Antes que seu cérebro pudesse processar algo, seu quarto foi iluminado por um sol vindo impossivelmente de fora.
Tudo empalideceu, afundando mais e mais no branco que banharam os sentidos dele.
Comments (0)
See all