Era uma tarde tranquila, e o sol reluzia intensamente sobre o reino de Druval. Enquanto a guilda se preparava para o tão aguardado pronunciamento anual de novos recrutas, um aventureiro, conhecido como Hiro Bertrand, encontrava-se em um estado de completo abandono — dormindo sobre a mesa. No silêncio que o envolvia, fragmentos de seu passado ressurgiam como sombras em um sonho: a batalha que o elevou ao status de Rank S, uma conquista inegável, mas marcada por um inusitado constrangimento que o acompanhava.
— É bom que eles paguem pela hora extra! — Hiro bradou dramaticamente, levantando sua espada ao céu. Sua voz ecoou através da clareira, cheia de bravura, até que um ronco profundo saísse de seus lábios. E então, como um narcoléptico, nosso campeão lentamente pôs-se a cochilar.
O monstro diante dele, uma enorme serpente de três cabeças chamada Serpenthrax, o olhou confusa. — Você está tentando me intimidar? — Uma das cabeças zombou enquanto as outras duas se entreolhavam.
— Desculpe, não posso me concentrar com toda essa... coisa de monstros! — Hiro murmurou, ainda de olhos fechados, enquanto a espada escorregava de sua mão e batia com um “ploc” no chão. Uma batalha épica e gloriosa? Não seria mais fácil se todos nós apenas fizéssemos uma soneca juntos?
Serpenthrax, visivelmente irritada, se preparava para atacar. — Quanta petulância! Eu mesma lhe transformarei em um travesssseiro.
Hiro, agora sonhando, imaginou a cena: Um travesseiro? Isso seria legal, mas... e as penas? Não sou alérgico a penas?! Ele se virou de lado procurando um jeito confortável de se acomodar, enquanto a criatura ficava cada vez mais enfurecida.
— Q-Quem é este cara? — pensava a serpente dando tudo de si em seus golpes enquanto o herói se esquivava facilmente ainda em seu cochilo.
A criatura confusa e irritada, atacou novamente, cada cabeça se lançando em direções opostas. Mas nenhum de seus golpes eram capazes de acertá-lo, diante de si estava não o melhor, muito menos o pior, mas sim o mais deplorável herói daquele reino, um especialista na arte de dormir sob qualquer terreno e situação.
— Acho que ele é maisss astuto do que parece!
— Ou simplesssmente não sabe que estamos lutando!
Então como um ato desesperado, Serpenthrax lançou-se em uma investida final, a determinação refletia em seus olhos ofídicos. No entanto, Hiro, em um último ato inconsciente e movido por uma inquietação quase primitiva, desferiu um golpe certeiro.
Uma explosão de energia irrompeu de seu corpo, iluminando o campo de batalha com uma intensidade quase sobrenatural, de longe, todos que os assistiam não puderam conter sua surpresa, o antes preguiçoso Rank C acabara de derrotar uma criatura lendária.
Hiro sem entender nada, despertou coçando a cabeça. — Hum? Cadê minha bota?
As cabeças da serpente estavam agora deitadas, com olhares perplexos e derrotados.
— Ele... venceu?
— Issso não pode ser verdade!
— Faltou coordenação — dizia a cabeça do meio — Por issso pedi um memorando.
Hiro, olhando em volta, viu a serpente caída e, ainda sonolento não processou a situação. — Ehr... Quem são vocês mesmo?
— Criaturinha arrogante... — e antes que pudessem se levantar, o pico que as sustentavam cedeu queda à baixo causando um grande estrondo e revelando um novo Herói.
Os murmúrios da guilda se intensificavam ao redor, uma expectativa palpável no ar. Porém, Hiro permanecia alheio a tudo, imerso em um torpor que parecia transcender o tempo e o espaço. A memória daquela luta, apesar de gloriosa, trazia consigo o peso de momentos embaraçosos, revelando que mesmo os maiores heróis carregam seus constrangimentos.
Acordando de seu sonho com um sobressalto, e a cabeça latejando como se houvesse enfrentado mil monstros, Hiro olhava ao redor, seu rosto marcado e repleto de baba causava um grande alvoroço. Já faz quase cinco anos, não? julgavam alguns olhares. Não dá para acreditar que aquele cara realmente se tornou um Rank S.
— Finalmente acordou Sr.Bertrand.
— Caroll? — Perguntou com um sorriso indiscreto. — Pelo visto ainda estou em um sonho.
— Huh? — Ela inclinou a cabeça, curiosa, e deu alguns passos à frente.
— Bom, ao menos parecem reais... — O homem encarou seus seios que agora se apoiavam sobre a mesa.
— Mas o que você tá fazendo?! — Caroll recuou, com os olhos arregalados e uma leve irritação no rosto.
— Francamente! Você tem noção de que perdeu toda a seleção de hoje, não é? — ela piscou levantando uma sobrancelha.
— Seleção de... quê?
Caroll suspirou e passou a mão pela testa, tentando manter a calma. Ele não faz ideia, pensou. Era típico dele ignorar coisas importantes.
— Devo lembrá-lo de que é a obrigação de todos os ranks altos guiar um novato? — arregaçou as mangas. — Ou devo espancá-lo até que se lembre, senhor Bertrand?!
Hiro ficou em silêncio por um momento, assimilando as palavras. Seu olhar vago começou a se fixar lentamente, como se algo terrível estivesse tomando forma em sua mente.
— Os novatos? Isso... Espera, isso quer dizer que —
— Quer dizer que há chances de você não ser o veterano de mais ninguém! — ela sorriu, um tanto satisfeita pela expressão de surpresa em seu rosto.
— O que também significa que, sem eles, você não pode se livrar de missões difíceis — o sorriso de Caroll se ampliou à medida que o rapaz começava a entender completamente a situação.
Então finalmente em pânico, Hiro, com as mãos sobre o rosto, levantou-se da cadeira.
— O quê? Não! Eu preciso de um... M-Minha vida pacífica depende deles! — Caroll deu de ombros apreciando seu desespero.
— Sabe, você é a razão pela qual existe uma categoria chamada 'herói em treinamento.” respondeu mostrando a língua.
— Isso é um pesadelo! Serei obrigado a aceitar missões? Lutar contra monstros enormes? Atravessar florestas cheias de armadilhas... — Sanguessugas! lá fora é cheio delas, parecem seres inocentes, m-mas quando você menos espera elas entram em seu...
Caroll riu, cruzando os braços novamente. — Olha, eu não sei qual é a sua ideia de ser um herói, mas cochilar no meio de uma batalha não é exatamente a melhor estratégia.
Ele parou, olhando-a com uma súplica nos olhos e um olhar sedutor de dragão apaixonado.
— Caroll, você tem que me ajudar a dar um jeito nisso! — sorriu jogando seu cabelo ao vento em uma tentativa de sedução.
— Sabe... algumas pessoas lá fora esperam muito de você, Hiro. Esperam que você seja o herói que dizem que é. Talvez um dia você decida levar isso a sério....
— Eu já sou um herói! Um herói que sabe viver tranquilo. A paz é uma virtude! — Respondeu tentando rir da própria resposta, mas as palavras de Caroll o incomodam levemente. Hiro desvia o olhar, talvez imaginando o que seria “levar a sério" ou o que todos esperam dele.
— Tranquilo demais, talvez... Até demais para um Rank S, se quer saber minha opinião...
Caroll balança a cabeça, com um sorriso enigmático no rosto, e dá um passo para trás. O sol começa a se pôr, lançando sombras longas ao redor de ambos.
— Você sabia que metade das missões que recusou acabou indo para os novatos? Você devia ver como o admiram. Não é justo com eles, sabe?
Hiro apoiou o cotovelo no balcão, fingindo uma expressão séria.
— Ah, sim. Aposto que adoram quando deixo as missões perigosas para eles. Nada como um banho de realidade para crescer na carreira.
— Ou acabar num caixão, quem sabe? — rebateu Caroll, levantando o olhar para ele, com uma expressão séria que rapidamente se suavizou em um sorriso irônico. — Mas quem se importa, não é? Desde que o Grande Hiro continue vivo e descansando na sua glória.
— Você realmente não consegue me dar um momento de paz, consegue?
— E você realmente não consegue me convencer de que leva isso a sério, consegue? — Caroll cruzou os braços, encarando-o por um momento antes de voltar ao trabalho.
Hiro levantou as mãos em rendição.
— Tá bom, tá bom. Eu vou pegar uma missão... leve. Talvez.
Caroll riu, mas o som estava mais seco dessa vez.
— Boa sorte com isso. Ela deu um passo para o lado e apontou para a porta da guilda. — Na verdade, talvez você não precise de sorte. Sua nova “ajuda” acabou de chegar.
Hiro levantou os olhos e viu uma figura entrar. Seus passos eram hesitantes, mas sua presença chamava atenção. Uma jovem de cabelos prateados e um vestido branco impecável, que parecia brilhar à luz do fim da tarde. Ela parou no centro do salão, ajustando a alça de um cajado ornamentado.
— Sério, uma freira? Isso é algum tipo de teste? — O homem a encarou por um momento, depois olhou para a recepcionista.
— Você vai descobrir sozinho. Boa sorte, “herói” — Caroll deu de ombros, já se afastando.
Naomi olhou em volta, um pouco nervosa, enquanto se aproximava do balcão. Hiro e os demais a observavam, e então, com um ato de coragem o rapaz caminhou até ela.
— Você é nova por aqui? — se aproximou, tentando parecer amigável, embora seu sorriso estivesse mais próximo de um predador.
— A-acabei de ser transferida... — ela o olhou nos olhos, que no momento não passavam de uma fera sombria preste a dar o bote.
Hiro se aproximou um pouco mais, notando como ela parecia ingênua e inocente. Perfeito. Ele se esforçou para parecer despreocupado.
— Então você é uma sacerdotisa, isso deve ser bem útil! — deu um leve risinho. —Você sabe, tem muita coisa pela frente, a guilda precisa de pessoas como você para me ajudar.
— Para ajudar a guilda! — interrompeu Caroll — Você deve ser Naomi né? Soube da sua transferência, posso lhe ajudar de alguma forma?
— N-na verdade — questionou Naomi. — Me pediram para trazer isso, disseram que era um pedido especial. — Caroll olhou curiosa.
— Uou! Isso é um selo real? Você deve ser bem importante né? Posso dar uma olhada? — perguntou estendendo suas mãos e encarando o rapaz no fundo de sua alma. Você não dá uma dentro, não é?
— Heh? — o herói se escondeu por de trás da sacerdotisa.
— Sr.Bertrand... — sua mão tremia ao ler. — Se alguma coisa acontecer com essa garota em minha ausência, eu mesma o rebaixarei a um nível inferior, tudo bem? — perguntou sorrindo com as bochechas corada.
— Que papo é esse? — Hiro saltou em uma tentativa de retirar a carta de suas mãos, quando de repente, “Paff”, um tapa de Caroll o mandara para o chão.
— Ao menos tenha modos na presença de algumas garotas! Garotas? No plural? Pensou ele, onde está a segunda?
— Parece ser de um convento — continuou ela. — "A quem possa interessar” Uwou! Que chique — pensou.
— “Saudações em nome da luz e da esperança” — prosseguiu. — “Escrevo-lhe do Convento de Luminara, onde a paz e a devoção se entrelaçam. É com um coração pesado, mas cheio de confiança, que me dirijo à guilda de aventureiros para que deixem aos cuidados do herói Bertrand essa humilde serva de Gaia.”
— Poxa! Vejam só a hora! — disse Hiro saindo de mansinho de trás de Caroll.
— Mark! — gritou ela. — Por Favor! — e um grande homem rinoceronte imergiu logo à sua frente. — Homem Hiro, para onde vai? — a criatura sorria com seus dois metros de puros músculos e chifre pontiagudo.
— M-Mark? — o rapaz suou frio com um sorriso de canto. — Você está enorme, tem malhado muito?
— kamhm! — tossiu a garota ao continuar sua leitura. — “Pedimos que você tome sob sua proteção, Naomi, ajudando-a a navegar pelas sombras que ainda a cercam. Sua sabedoria é essencial para que ela cumpria seu desejo de se tornar uma aventureira, podendo ajudar o maior número de pessoas, e levar adiante a luz que ela representa. Há um conto que narra seus bravos feitos pelo reino, portanto, acreditamos ser a chave para que ela possa encontrar sua verdadeira força.”
— Bah! Quantas palavras difíceis, o que significa tudo isso? — perguntou Hiro preso em um mata-leão.
— Que você acaba de conquistar o prêmio de 'herói mais improvável”. — Caroll sorria ironicamente.
— Que cheiro é esse? — respondeu o rapaz. — Deve ser inveja!
— Francamente... — reclamou com as mãos sobre a testa. — Pare de ser um desperdício de potencial! — continuou agora entregando a carta para o aventureiro. — Seja o homem que eu quase pensei que fosse um dia.
Hiro, com seu ego ferido e uma expressão cômica, avançou um passo.
— Manda isso para cá! — Ele puxou a carta de suas mãos com um olhar transbordando determinação.
— Ah... Para onde vamos Senhor? — perguntou Naomi assustada com toda aquela situação.
— Ao lugar favorito de todo novato inexperiente! — Para o quadro de avisos!
— Vejamos... — Hiro passava lentamente os olhos sobre as quests.: Ninho de vermes? Que coisa nojenta! Goblins? Com uma sacerdotisa? Isso me lembra algo...
— Arg!
— Hum? — a garota observava confusa.
— Ambas as opções... não combinam com uma garota. — respondeu evitando contato visual. — É melhor colhermos plantinhas!
— C-Certo! — concordou com um brilho nos olhos.
— Seu kit aventureiro está pronto?
— Sim senhor! — novamente com olhos brilhando
— Hoh! E o que você trouxe?! — O homem berrou empolgado pela atitude da garota.
— Pão! — ela respondeu em posição de sentido quebrando toda a sua expectativa.
Hiro congelou em branco por um segundo, ótimo, pensou, vamos enfrentar um monstro com sua baguete enquanto torcemos para ser intolerante ao glúten.
— Ham...Naomi — disse segurando nos ombros da garota. — Você tem alguma ideia sobre sobrevivência em dungeons, não tem?
A garota se encolheu juntando as pontas dos dedos.
— Foi o que pensei — respondeu desanimado jogando um saco de moedas — Compre algo que possa te manter viva, como uma poção por exemplo.
Naomi olhou confusa para as moedas ainda sem entender. — Já fez compras antes? — perguntou Caroll sorrindo para a garota. — Vai precisar de uma profissional no assunto! — Piscou puxando-a pelo braço e correndo em direção à saída.

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