A cidade estava à beira do colapso. Prédios caíam como dominós, um após o outro, enquanto o céu era consumido por densas nuvens de fumaça e fogo. Ele observava tudo do topo de um edifício, isolado e distante. Não era o responsável por nada daquilo. A humanidade havia se destruído sozinha, e ele, apenas mais um no meio do caos, decidira esperar o fim com a indiferença de quem já havia perdido tudo.
O caos não o surpreendia, mas uma amargura crescia dentro dele a cada desmoronamento. Guerras, violência, ganância e corrupção — a humanidade se afundou em um ciclo destrutivo sem volta. As pessoas se destruíam mutuamente enquanto o planeta devolvia toda a loucura com fogo e destruição. Ele assistia tudo do alto, vendo nos destroços a prova de que ninguém aprendera com os erros do passado.
As ruas, outrora cheias de vida, agora estavam cobertas pela morte. Corpos mutilados, vísceras e sangue escorrendo pelos bueiros. Era o fim que mereciam. Pelo menos, sob o brilho das chamas, as ruas pareciam pintadas de ouro.
A cidade ardia, e a destruição consumia tudo lentamente. Ele não tinha para onde correr, e a ideia de fugir não o atraia. A humanidade havia se condenado há muito tempo, e ele não tinha interesse em viver em um mundo morto. Assistir ao fim era a única coisa que restava, e até mesmo um alívio para sua mente cansada.
Cada explosão, cada prédio que caía, apenas intensificava seu desprezo pelo que a humanidade se tornou. Não era só a destruição física — era a degradação moral que o enfurecia. Olhando as ruas abaixo, a carnificina refletia a podridão interna que ele havia testemunhado durante sua vida inteira.
Com calma, ele espalhou o querosene pelo chão ao seu redor. O cheiro forte do combustível invadiu suas narinas, logo se mesclando ao odor dos cadáveres carbonizados. Se o mundo estava destinado a terminar assim, ele também preferia sair queimando.
Lá embaixo, os poucos sobreviventes se matavam entre as ruínas. Nada mudou — a ganância, a cegueira e o ódio continuavam a guiá-los até o fim. Eles atacavam uns aos outros como animais, seus corpos sendo despedaçados em um frenesi de desespero. Ele observava enquanto o fogo subia pelas ruas. Nada poderia mudar o destino que traçaram para si mesmos.
Acendeu o fósforo e soltou. As chamas se ergueram imediatamente, engolindo o chão encharcado de querosene. Ele permaneceu imóvel enquanto as chamas o cercavam. De algum jeito, a visão do fogo o acalmava. Tinha um lugar na primeira fila para assistir a tudo queimar, sem remorso ou arrependimento.
Se a humanidade havia escolhido a autodestruição, ele escolheria o mesmo. Levou as mãos ao peito, sentindo o coração bater freneticamente. Jurou naquele momento que arrancaria o próprio coração nos portões do céu e espremeria até extrair cada gota de sangue para fazer chover sobre todos os perversos lá embaixo.
O espetáculo final se desenrolava diante de seus olhos, e ele assistia como a testemunha final. Nem todos tinham a oportunidade de ver o fim do mundo.
Ele sentia o fogo o consumindo, mas, para ele, o fim chegou rápido. Para o mundo, o fim ainda demoraria, mas o resultado seria o mesmo. Um último suspiro. Uma última chama.
Coletânea de one-shots que escrevo de vez em quando.
One-shot é um termo utilizado para histórias que contenham somente um capítulo não fazendo parte de uma série.
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