O céu estava tingido de laranja arroxeado, a luz do sol entrava pelas janelas de uma sala de aula do segundo andar. Classes e cadeiras jaziam empilhadas e teias de aranha cobriam boa extensão do teto, destacando-se com os últimos raios de sol. No centro dela estava uma garota, devia ter 16 anos. Cabelos longos, negros e encaracolados caíam por seus ombros em uma cascata de brilho luminescente. Aos seus pés jazia uma espécie de cristal bruto, ainda preso a um pedaço de rocha, de formato levemente prismático e transparente. À sua volta o resquício de luz que incidia sobre ele se decompunha nas cores do arco-íris colorindo o rosto exótico dela.
Segurava um galho seco, o qual fazia se mover como se fosse o maestro de alguma orquestra invisível, de sua boca saíam sons musicais numa língua desconhecida. Aos poucos a luz do sol foi desaparecendo deixando a sala na penumbra, entretanto havia luz vinda do cristal. Do galho seco se desprendia uma névoa arroxeada, seguindo seus movimentos e se enrolava em torno do cristal, mudando gradualmente sua cor de alaranjado a púrpuro.
Uma barulho tirou-a de seu transe místico e com a pouca luz do cristal tentou ver de onde vinha. Rapidamente se dirigiu para a porta da sala e ainda ouvia passos apressados no corredor, a pessoa que estava fugindo virou-se para trás, sentindo-se observada e de relance ela pode ver um rosto.
Um garoto por volta dos 16 anos, vestido com um casaco de moletom preto com o emblema da escola, calça jeans e tênis. Rápido, ele se virou e acelerou o passo sumindo na curva da escada. Ela ficou parada no meio do corredor, olhando para a escada agora vazia.
— Será que ele me viu? – ela perguntou para ninguém em especial. – Isso pode dar uma dor de cabeça.– disse voltando pra sala, pensando em como lidar com o ocorrido.
Logo ela estava de volta ao seu estado de “transe” e cantarolava em voz baixa balançando harmoniosamente o galho que tinha na mão. A névoa fluiu para o cristal que estava no chão e algo aconteceu.
Transbordando, um aro da cor da névoa se formou em torno da pedra que estava aos pés dela e começou a se expandir. Um círculo com inscrições estranhas se expandiu até conter em seu centro a garota e o cristal. Ela parou de cantarolar e em português claro e sonoro disse:
— Grande Matriarca, concede proteção à tua filha! – o círculo brilhou mais forte, juntando-se com a névoa que espiralava e num instante, com um clarão, expandiu-se por toda a extensão da escola.
— Está feito. – disse enquanto juntava do chão o cristal que parecia ser apenas uma rocha comum. – Espero que seja o suficiente para me proteger. – guardou o cristal num dos bolsos de sua jaqueta de couro e o graveto que tinha nas mãos começou a esfacelar.
“Preciso pensar no que fazer com o que aconteceu mais cedo...”, pensou enquanto caminhava pela escola vazia. Desceu até o primeiro andar e por uma porta traseira que havia preparado de antemão chegou ao pátio.
“Que estranho ele não fugir quando me viu fazendo magia na escola, qualquer um acharia no mínimo bizarro.”, estava quase no portão de saída lateral e com um salto, que seria impossível para um humano, pulou o muro que circundava o prédio e se viu na calçada.
Caminhando tranquilamente ia pensando no que jantaria naquela noite, quando sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Alguém a estava observando e não era uma pessoa. Usando seu "sexto sentido" buscou o que poderia ser, havia algum servo místico, um familiar escondido. Entoou algo baixo e sua visão mudou. As cores se tornaram mais vívidas, tudo irradiava luz própria.
A criatura estava em um parque à frente da escola. Estava pousada numa árvore uma criatura que lembrava um pássaro, mas em vez de penas era coberta de pelos macios e finos o focinho era um híbrido entre raposa e gato, seus membros dianteiros eram asas e se apoiava nos membros posteriores robustos.
“Um wyvern aqui?”, pensou indo para o parque, “Deveria estar escondendo sua energia antes do meu feitiço.”, ela agora corria pelas calçadas banhadas pela luz dos postes e de uma lua crescente no céu.
No perímetro do parque ela pegou um galho seco que estava caído perto do meio-fio da calçada e em uma voz melodiosa entoou:
— Ouve espírito das árvores, sirva a Filha de Asherah! – o galho em sua mão ganhou uma aparência lustrosa. – Certo agora preciso me livrar de um visitante indesejado.
Sob a proteção das árvores, apenas os postes elétricos iluminavam o interior do parque. Ninguém caminhava em seu interior, nem mesmo o som dos carros do outro lado penetrava o silêncio.
Estava dentro do parque e olhava fixamente para a criatura, devia ter o tamanho de um cachorro de médio porte, seus olhos brilhavam com uma luz espectral e seus pelos se agitavam com o vento que fazia assobiar as copas das árvores.
— Volte para nós Victória. – a criatura falou com voz humana, mas sua boca não se mexeu. A voz era de um tom melodioso e estrangeiro.
— Não! Não vou me curvar mais aos caprichos da Ordem! – Victória estava a alguns passos do wyvern e sentia a enorme força mágica que vinha da criatura. – Vocês perderam a noção do que é realmente importan... – uma lufada de ar congelante a atingiu, quase sem conseguir erguer uma proteção. O wyvern não havia se mexido, mas ela sabia que a criatura era poderosa o suficiente para lançar um feitiço sem precisar de um encantamento.
─ Desista menina, você sabe que não possui o poder necessário para me derrotar, pelo menos não sem a Sonho de Verão. – a boca da criatura abriu-se novamente e ela soava ameaçadora.
— Não preciso da Sonho de Verão, feitiços usando uma varinha improvisada são mais que suficientes.
Aproveitando-se do tempo em que a criatura ficou falando, a garota entoou rapidamente algumas palavras e acima da criatura uma enorme rocha esférica com espinhos se formou e com um movimento da mão o enorme peso caiu em cima do animal híbrido gerando um estrondo.
“Não, só isso não vai ser suficiente...”, ela lançou outro feitiço e as raízes das árvores se enrolaram firmemente no wyvern e na enorme pedra. As raízes apertavam o inimigo contra a rocha e secretavam uma substância corrosiva. A pedra chiava ao mesmo tempo que sons entrecortados e abafados da criatura escapavam por entre as fendas das raízes.
Com um longo movimento da mão um barulho seco e alto foi ouvido e a rocha e as raízes estouraram. Soltando um largo suspiro Victória relaxou um pouco sua postura e em sua mão o galho encantado perdeu seu lustro e tornou-se pó.
Estranhamente os sons de fora do parque não haviam voltado mesmo com a derrota do familiar. Ela acreditara que derrotando o ser mágico a barreira que estava erguida se dissiparia.
— Você cresceu bastante desde que fugiu da ordem... – disse uma voz sibilando por entre os destroços. – Mas não pense que apenas com esses feitiços básicos vai me derrotar. Partículas azuladas iam se reunindo, regenerando o familiar.
— Ah cara, dá um tempo...
Sem uma varinha decente, esgotada do feitiço de proteção e dos feitiços ofensivos que lançara, Victória buscava algum tipo de saída para o problema a sua frente.
— Chame a Sonho de Verão garota, antes que você desmaie.
— Cala a boca, você só quer saber a palavra de acesso. Desde que você descubra nada importa, mas quer saber? Vocês não vão me forçar a entregar ela pra aquele homem.
— Olhe como fala menina, Lorde Estefan não é tão piedoso quanto eu.
— Não consigo entender como vocês se deixaram enganar, por alguém que diz ser o Venerável Pai sem prova nenhuma. – Victória tentava acessar uma fração dos poderes da varinha que fora confiada a ela em seu nascimento.
— E ele é menina, só você e as outras três não querem servi-lo. – o wyvern agitou o corpo enquanto ventos carregando partículas de gelo se movimentavam em redemoinhos em seu entorno. — Espíritos do vento, obedeçam ao som da minha voz! – proferiu um encantamento. – Tornem-se o sono eterno dos meus inimigos!
Subitamente uma enorme quantidade de gelo se formou no entorno de Victória, prendendo-a em um monolito glacial.
— Suplico à carruagem solar que percorre os céus, ouve o clamor daquela que é o receptáculo do poder do Sol e empreste-me a sua força!
O ar aqueceu e tremeluziu e foi como se o próprio sol tivesse depositado todo seu fulgor naquele ponto do espaço. Uma grande explosão se seguiu, estilhaços de gelo voaram para todos os lados e vapor subiu de onde as duas energias elementais colidiram.
— Aaah pelos nove infernos, essa criatura não desaparece nem usando magia solar! — disse Victória ao ver que o wyvern ainda estava inteiro.
— Chega de brincadeiras de criança – disse a criatura sem abrir a boca – vou levá-la nem que seja a força!
“Parece que não tem jeito mesmo, vou ter que invocar a Sonho de Verão”, pensou a garota se preparando, “não queria que tivesse chegado a esse ponto mas o familiar de Brigite é mais forte que eu”.
A criatura mágica reunia energia, se preparando para usar sua carta na manga, subjugaria Victória à força mas tomaria cuidado para não matá-la. Um cantarolar baixo e compassado era entoado pelo familiar e o ar se tornava glacial, cada rajada parecia uma lâmina afiada. Um filete de sangue escorria do rosto da garota e ela entoou um feitiço de proteção e o halo solar a envolvia evitando parte do frio ártico.
“Droga, o acesso à Sonho de Verão vai fechar em pouco tempo se não a invocar.”, Victória suspirou e em seguida, com toda a convicção que tinha, disse em voz alta e clara:
— Solicito permissão de acesso!
“Permissão concedida. Palavra de acesso.”, uma voz límpida soou na mente da garota. Ela engoliu a saliva e abriu a boca para pronunciar a palavra que liberaria o poder que havia sido confiado a ela em seu nascimento.
— San…
Foi interrompida quando algo surgiu em sua visão periférica. Suas roupas eram escuras e se movia com muita velocidade, como se seus pés não tocassem o chão. Quando se deu conta, a pessoa já estava ao lado dela. Era o garoto que a tinha visto fazendo o feitiço na sala de aula abandonada.
— Fica tranquila – ele disse a olhando – Tô aqui pra te ajudar, eu sei o que você é. – levando a mão direita ao bolso tirou uma grande e velha moeda de prata, a segurou firme e falou – Venha, Réquiem!
Uma grande espada larga e prateada surgiu, era simples, sem adornos, seu pomo tinha um formato arredondado e emanava uma espécie de vibração. Victória se deu conta de que o vento gélido tinha diminuído em intensidade e que seu feitiço de proteção já se dissipara.
— Quem é você? - perguntou sem tirar os olhos do familiar.
— Meu nome é Daniel, mas apresentações mais formais podem ficar pra depois que derrotarmos aquilo – disse apontando para a criatura. — Né?
— Se derrotarmos… - disse num misto de preocupação e medo. — Aquilo tá concentrando muita energia elemental para lançar um feitiço poderoso, precisamos quebrar a barreira pra derrotar ele.
— E como se faz isso? — o garoto segurava a enorme espada com uma mão só.
— O wyvern tá usando energia glacial, teríamos que usar energia solar para atravessar a barreira e derrotá-lo. — ela disse sem pensar, como se falasse com outra feiticeira.
"Quem é esse garoto?" Victoria pensou enquanto encaravam o familiar.
— Certo. — ele disse. — Nós vamos sair daqui, como você se chama?
— Victória. — ela disse por reflexo.
Daniel tomou a postura que um cavaleiro toma quando está fazendo um juramento, um joelho flexionado e apoiado no chão, a outra perna dobrada com o pé apoiado firmemente à frente do corpo, a espada fincada no chão e suas mãos apoiadas na guarda. De cabeça baixa ele disse em voz solene:
— Serei tua lâmina e escudo, mal nenhum recairá sobre ti, enquanto eu viver tuas batalhas serão minhas e só descansarei quando a morte me reclamar. — ele ergueu a mão direita para ela. — Me permite lutar e vencer por ti, Victória?
Vendo a mão estendida a sua frente ela hesitou, entretanto sentiu que as palavras carregavam poder.
— Sim, eu permito! — pousou sua mão na de Daniel e sentiu uma conexão se formando.
— Não se intrometa, cavaleiro, não quero ter que matá-lo. - disse o familiar.
— Desculpa aí, mas acabei de jurar proteger ela e um cavaleiro sempre cumpre seus juramentos. — disse encarando a criatura, estava de pé e entrava numa postura ofensiva. — Vou precisar de você. — disse para Victória.
— Como assim?
— Só não fecha a conexão tá?
Ela sentia a ligação entre os dois pulsar.
— Certo, queria estar em melhores condições para lutar.
— Seu tempo acabou Victória! — estacas de gelo se formavam e a temperatura caía — Espíritos elementais ouçam e obedeçam o meu comando, congelem com o zero absoluto!
As estacas de gelo formaram uma redoma de espinhos congelantes ao redor dos oponentes. Victória entoou um feitiço de proteção, mas ao invés do feitiço materializar o halo solar ao seu redor, a energia mística foi sugada pela conexão com Daniel.
“Como ele pode absorver a energia que vem da Sonho de Verão?”
Daniel estava na postura ofensiva, sua espada pulsava em tons de amarelo e laranja e o pomo brilhava incandescente irradiando calor que se expandiu até abarcar ele e Victória. .
— É tudo ou nada agora! — flexionou as pernas, tomou impulso e se lançou contra a criatura.
Espada em riste, ele se movia numa velocidade espantosa.
— Desista, garoto, vai apenas se machucar.— disse a criatura, as estacas de gelo zuniam a seu encontro.
Ele se movia com velocidade sobre-humana, desviando das lanças por milímetros, as que não podia esquivar aparava com a espada, a colisão entre gelo e calor fazia o ar se encher com vapor.
— Não conseguirá atravessar minha barreira! — mais lanças de gelo apareciam numa torrente infinita. O vento glacial uivava e cortes apareceram nos braços e rosto de Daniel e diminuíam sua velocidade.
— Droga, ainda não tô acostumado com esse poder! — o familiar se mostrava realmente poderoso. Daniel observara a luta entre ele e a garota, sabia do poder da criatura e achou que os dois juntos seriam capazes de derrotá-la. — Não, não posso desistir agora. — foi quando teve uma ideia — Victória pense no encantamento que usou quando se libertou da prisão de gelo, por favor!
A garota escutou a voz de Daniel pedindo que pensasse no feitiço da Carruagem Solar.
“Não pode ser, ele consegue?” a garota se concentrava na ponte entre os dois, “Vou apostar minhas fichas que sim.”, ela entoou mentalmente o feitiço e quando terminou a espada de Daniel tinha a aparência de energia pura.
“Parece que deu certo.”, pensou com alívio o rapaz, “Não sei o que faria se não desse.”, riu baixo e desviando dos projéteis foi em direção ao familiar.
— Mas o que é isso?! — sibilou o wyvern — Nunca vi nada desse tipo antes… quem ou o que é você menino?
Daniel obliterou a barreira do familiar e com um golpe limpo e vertical derrotou a criatura que tentava se regenerar com as partículas azuladas, mas o poder da espada dissolvia completamente a tentativa.
O silêncio foi quebrado pelos sons habituais do início da noite da cidade.
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