– Estás encurralado Mutant Tiger, desta vez não tens como fugir. - diz Robotboy de blaster apontado ao monstro. Apesar de mutante era um felino como outro qualquer tinha-lo apanhado desprevenido enquanto tratava da sua higiene pessoal e sentado de tal forma que seria impossível escapar.
Mutant Tiger perdeu o seu ar convencido mas não desviou a atenção de Robotboy.
Um feixe de luz branca explode em direção de Mutant Tiger mas falha o alvo por milímetros. Desviou-se por pouco mas Robotboy já corria na sua direção. Mais dois feixes de luz forçaram-no a proteger-se atrás de uma estátua. Olhou para todos os lados mas não havia onde se esconder. Sente o coração a bater rápido no peito e consegue ouvir as passadas de Robotboy não muito longe dali. As únicas opções são correr e fugir, ou ficar e lutar. “Fico e luto”.
Robotboy aproxima-se cautelosamente do outro lado da estátua. Já há muito tempo que tenta apanhar o Mutant Tiger, e precisa de capturá-lo vivo para extrair algumas informações sobre o Dr. Ivanov. Consegue ver o rabo da presa, destapado da estátua, a ondular como que a chamá-lo. “Só mais um bocado”. De trás da estátua surge uma garra enorme e de unhas afiadas com a intenção de lhe arrancar a mão. Sem sucesso, não houve até agora uma arma que lhe tivesse deixado marcas. Foi no entanto suficiente para atirar-lhe o blaster para o chão. Mutant Tiger aparece de trás do esconderijo e investe com a outra garra igualmente perigosa. Desta vez em direção à cara de Robotboy. Instintivamente prende o braço do oponente para parar o ataque mas apercebe-se do seu erro, era outra armadilha. Viu a grande mandíbula a envolver o seu braço e a vincar os dentes na pele.
– Festinhas supersónicas. - disse Leonardo a dar festas a gato sem parar até que este finalmente desiste e decide fugir saltando o muro do quintal. Leo pega a arma de brincar do chão e mete no bolso.
– O Robotboy não é um regador vó. É um robô super avançado e não enferruja. - diz meio zangado enquanto pega na mangueira.
Leo costuma ajudar a avó sem respingar. Primeiro porque se não fizer o que ela diz, mete-o de castigo. Segundo porque já percebeu que a avó não consegue fazer tudo sozinha e ele é o único que pode. De qualquer forma, regar até era divertido e uma boa desculpa para brincar com a água.
Pegou na mangueira e desenrolou-a até aos tomateiros. Assim que estava apostos abriu a torneira e não demorou muito até sentir a pressão da água chegar. Tinha aprendido ao observar a avó que ao colocar o polegar na abertura da mangueira esta sai com mais força, mas ajeitando o polegar no sítio certo é possível criar chuva, que é o mais adequado para regar plantas. Mas uma coisa que aprendeu sozinho foi que ao encontrar o ângulo certo, os raios de Sol refletem na água e criam um mini arco-íris. Parece magia.
A avó tinha já colhido alguns legumes para o jantar e estava agora a espreitar os morangueiros. Endireita-se com um suspiro desanimado. “Ainda não é hoje que podemos provar os morangos. Devem ser bons para os pardais cá virem outra vez. Nem quiseram saber do pão que lhes deixei.”
– Se calhar o melhor é apanhá-los com uma armadilha. Podiamos escondê-la no meio da horta. - diz Leo a tentar ajudar.
– É por isso que não gosto que vejas aqueles desenhos animados. Já te ensinei que todos os seres vivos precisam comer, incluindo os pássaros. Não devemos fazer mal aos animais só porque é a forma mais fácil. Não é o que Daruma quer. - responde a avó a sair do meio da horta para Leo poder regar. - Vou para dentro começar o jantar. Não te esqueças de arrumar a mangueira quando acabares.
– Sim vó… - Leo ficou a pensar na resposta da avó. Sabia que ela tinha razão, não devia ser necessário fazer mal aos pássaros, principalmente com os gatos que aparecem lá em casa.
A avó, assim como todos na ilha respeitam a lenda de Daruma e por consequência respeitam todos os animais (isto não faz deles vegetarianos thought). Mas a avó era um pouco bondosa de mais e tinha habituado os gatos da vizinhança que ali lhes é servida uma refeição quentinha todos os dias. Assim que o Sol se põe, os gatos começam a sondar o quintal à procura de comida e assim que o prato fica vazio vão-se todos embora. Alguns como o Boris que é o preferido da avó, fica até dentro de casa se quiser. Outros como o Mutant Tiger nem sequer deviam lá ir porque só fazem porcaria, literalmente.
Leo não acredita em Daruma mas não tem nada contra os gatos ou com a avó lhes dar comida, se não fossem uns preguiçosos e ingratos. Podiam até afugentar os pardais antes destes irem à horta. Este pensamento deu-lhe uma ideia. “E se não lhes der os restos de hoje, aposto que amanhã já lhes interessa caçar pássaros. Faz parte da cadeia alimentar, acho que Daruma não se importa.”
Com um sorriso triunfante e um plano que mata dois coelhos de uma cajadada, Leo acaba de regar a horta.
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O jantar tinha sido caril de frango e estava delicioso.
– Estava muito bom vó, obrigado. Hoje sou eu a arrumar a cozinha. - diz Leo enquando começa a levantar os pratos. - Podes ir para a sala descansar um bocadinho.
A avó olha para ele curiosa. “Mas quero essa louça bem lavada.”.
– Eu sei lavar a louça vó, já não sou um bebe.
– Vamos lá ver se sabes. E não te esqueças que os restos é para dar gatos.
– Sim vó… - Leo não tinha intençoes de ss esquecer. Fazia tudo parte do seu plano.
Quando a avó se senta no sofá e liga a tv da sala, Leo pega no prato dos resto e no frasco de piri piri da avó.
Mal abre a porta para o quintal, vários gatos surgem das sombras. Não se atreviam a chegar perto até Leo voltar a entrar em casa. O único sentado à porta era Boris, que miava a pedir o jantar. Leo não resistiu e atira-lhe uma perna de frango já roída.
Antes de pousar o prato do chão para os outros, abre o frasco que piri piri e prepara-se para despejar quando algo lhe capta a atenção. Vê apenas as silhuetas dos gatos e o brilho dos olhos de outros na escuridão, todos fixados nele a preparar a refeição.
Volta a sua atenção para o piri piri e mesmo antes de despejar o líquido picante uma voz no escuro fala para ele.
– Vais mesmo fazer isso? Podias perguntar primeiro se gostamos de piripiri na comida. É um bocadinho rude. - diz uma voz nas sombras.
Leo olha em seu redor mas vê apenas os mesmo gatos. Não é capaz de encontrar a origem da voz e isso era um pouco assustador.
– Eu pessoalmente não me importo. Mas se calhar podes separar em pratos diferentes, o que me dizes?
Era a voz de uma criança, afinal não tem que ter medo. Parece vir de cima do muro, onde vê um par de olhos a brilhar e pareciam ter uma tonalidade diferente dos gatos.
– Quem és tu? Não devias entrar assim na casa de outras pessoas. - responde Leo.
– Acabei de chegar e disseram-me que aqui seria bem recebido com uma boa refeição. Agora estou com dúvidas.
– Esta comida são só restos para os gatos, posso fazer-te uma sandes. Tenho a certeza que a avó não se importa.
– Não é preciso. - a voz salta do muro para o quintal onde a luz permite ver as suas caracteristicas. - O que tens aí cheira melhor do que uma sandes.
Leo ficou estupefacto a olhar para a criatura.
Parecia um gato mas diferente de todos os outros. O pelo que por base era branco, tinha traços verdes a subir do peito até ao focinho. A pelugem era quase brilhante, transmitindo uma sensação de pureza. As orelhas eram mais compridas que o normal, com verde nas pontas. A cauda, também toda ela verde, aparentava ser forte.
Depois do choque da primeira impressão passar, até o acha fofo e não parece perigoso. Mas consegue falar! Como é que isso é possível se é um animal?
– Aww… Achas mesmo que sou fofo? Fazemos assim, deixo-te dar-me festas se pousares o prato com comida- diz a criatura aproximando-se mais perto de Leo.
Espera, o gato que fala acabou de ler os pensamentos? Ou será que falou em voz alta? “Devo estar maluco.”.
– Não é bem ler os pensamentos, é mais como ouvir. Mas não sei explicar porque, é a primeira vez que acontece.
Pelo sim pelo não, Leu pousa o prato no chão. O primeiro a lá ir é o Boris que não parou de pedinchar.
– Itadakimasu! - diz a criatura sentando-se ao lado de Boris.
Leo tinha muitas perguntas mas não tinha força para as fazer. No entanto, ganhou coragem e deu-lhe uma festa. Era exatamente como tinha imaginado, o pelo era macio e suave. Nada comparado com o dos outros gatos vadios.
– Então assim é que estás a arrumar a cozinha? - diz a avó ao sair de rompante da cozinha.
Léo dá um pulo de susto e vira-se para a avó, escondendo o frasco de piri piri atrás das costas.
– Desculpa, vó. Mas já tinhas visto este gato? É diferente e consegue fa… - ao virar de novo para o prato só vê o Boris a lamber o prato.
Leo acenou com a cabeça mas antes de entrar em casa, deu um último olho no quintal. Não havia sinal da criatura misteriosa. Num segundo estava lá, no outro tinha desaparecido. Tinha praticamente a certeza que o que vira era real, mas não tinha forma de o provar. Nem sequer foi capaz de lhe perguntar o nome.

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