Francesca ainda se encontrava flutuando em frente aos três. Ela sorria de uma forma ameaçadora, no brilho intenso dos seus olhos havia um tom de poder assim como em seu sorriso, mas o que dava mais ênfase em tudo isso era o fato de ela ainda flutuar como se fosse boa demais para seus pés tocarem o chão. Já havia se passando alguns segundos desde a sua pergunta direcionada a Isaac, sobre quanto tempo havia passado desde que ela ficou presa.
Isaac ainda estava ajoelhado de frente a sua mestra, sorrindo satisfeito com seu feito bem-sucedido ao mesmo tempo, pouquíssimos metros de distância, Anjo Noturno observava aquela mulher poderosa sem entender o que estava acontecendo e, por sua vez, O Bruxo também fazia só que com nuances de raiva por não ter conseguido impedir o feiticeiro de ter chegado a conclusão do seu ritual.
— Estamos no século vinte e um, Madame. — respondeu o rapaz de cabelos vermelhos depois da sua pausa, então, Isaac se atreveu a olhar para sua mestra, ainda sorrindo de felicidade. — Estamos no início do ano de 2018.
— Tento tempo assim? — em seguida a mulher negra olhou ao seu redor, percebendo as diferenças naquele ambienta, as que não havia notado antes. Praticamente estava em outro lugar, mas lembrava dali como um grande e vasto campo aberto. Lembrava que no lugar onde podia ver casas de tijolos e madeiras havia uma visão artística de árvores que davam as laranjas mais doces. — Lembro quando esse lugar fazia parte de uma fazenda.
— Os tempos mudaram drasticamente, Madame… — disse Isaac ficando em pé. — Mas agora a senhora está viva, pode recuperar o tempo perdido. Reconstruir tudo aquilo que perdeu…
— JÁ CHEGA! — gritou O Bruxo. Seu berro chamou a atenção de todos ali. Anjo Noturno havia se assustado com aquele tom de voz alto e agressivo do seu colega, já Francesca arqueou sua sobrancelha interessada no que via, Isaac apenas soltou uma risada debochada cruzava seus braços. — EU NÃO VOU DEIXAR ISSO CONTINUAR! ACABA AQUI! — continuou a gritar.
O bruxo girou seu bastão e jogou para o ar, quando pegou novamente a chama da ponta acendeu e engordou, ficando azul. O super-herói negro correu na direção dos seus dois alvos, enquanto Anjo Noturno assistia de boca aberta.
— Patético… — sussurrou Francesca. Então, a mulher estalou seu dedo e uma energia cor-de-rosa em um tom escuro surgiu ao redor do corpo de O Bruxo e criou ao seu redor uma espécie de prisão em formato de caixa mágica, ficou suspensa no ar como se um fio invisível a segurava, o garoto negro se debatia ali dentro tentando se livrar. Era muito forte, afinal, se tratava de magia pura. — Quem é esse, Isaac? — perguntou a mulher com um tom interessado, mas, ao mesmo tempo, tedioso.
— Esse é Maurício, madame. — respondeu o feiticeiro de cabelos vermelhos. — Ele faz parte do Coven de onde eu roubei o livro que a libertou do aprisionamento.
— E por que ele e o seu amigo estão vestido com esses trajes tão… Tão diferentes? Por acaso é dessa maneira que seres mágicos se vestem hoje em dia? — perguntou Francesca mantendo o tom interessado e tedioso.
— Não… — respondeu Isaac rindo. — Eles estão vestidos assim porque estão agindo como super-heróis… Desde a segunda guerra mundial isso se tornou moda no mundo todo, humanos que acabaram ganhando poderes por causa de radiação ou qualquer outra coisa… Vestem trajes coloridos e esquisitos, saem lutando pelo mundo afora, combatendo criminosos… Alguns desses criminosos também possuem poderes. O garoto vestido com o traje roxo é conhecido como Anjo Noturno, o nosso amigo aqui… — aponta para Maurício suspenso no ar. — Não sei.
— O Bruxo… — respondeu Maurício bravo, já havia desistido de se libertar.
— Aaaaah! — gritou Francesca em um ato demonstrando toda sua insatisfação com aquele assunto, o tom interessado havia sumido e ficou apenas o tédio. — Que tempos chatos… Super-heróis? Existem humanos com poderes sem ser os seres mágicos? Realmente estava na hora de eu retornar…
— Me desculpe dona feiticeira… — disse Anjo Noturno se aproximando com passos lentos. — Mas o que a senhora quer fazer exatamente? E por que você estava presa? Quer dizer, se foi presa em algum tipo de magia de prisão, quer dizer que a senhora… Fez alguma coisa.
Francesca sorriu para o herói roxo.
— Eu vou contar a minha história para você, criança, mas preste atenção… — disse a feiticeira.
Eu não lembro muito bem como era a minha vida antes de entrar para o coven do qual eu fazia parte, mas de uma coisa eu tenho certeza, eu era uma escrava em um cafezal na região de São Paulo. Nasci e cresci naquela senzala suja onde nos jogavam para vivermos como animais, sem educação, sem saber falar direito e nem mesmo escrever… Mas não precisava porque era isso que eramos aos olhos dos donos de escravos, animais feitos para o trabalho. Minha mãe foi afastada de mim quando meu irmão nasceu, ela tinha que ser ama de leite do bebê da sinhazinha, já o meu irmão… Foi vendido ainda bebê.
Minha mãe morreu algum tempo depois, eu não tenho certeza quantos anos se passaram, mas tenho certeza que foi um pouco antes de eu começar a me tornar uma mulher. Foi também nessa época em que o barão dono dessa fazenda me vendeu para outro barão, aqui dessa região. Exatamente onde estamos agora funcionava uma fazenda conhecida por plantar doces laranjas. Lembro que a esposa desse senhor era uma mulher muito desconfiada e com razão porque o seu marido se deitava com várias escravas todas noites.
Eu nunca me deitei com aquele homem, por Deus… Eu nunca me deitaria com aquele homem… Era um velho feio, as coitadas das outras mulheres escravizadas faziam porque não existia outra opção. Eu sempre fui um problema para ele e para sua esposa porque, com o tempo, com a morte da minha mãe e com o meu irmão por aí pelo Brasil, sem saber se um dia eu encontraria… E quantos amigos eu vi morrer naquelas senzalas, quantas amigas… Morrerem de tanto trabalhar. Somando tudo isso, eu fiquei cheia de ódio pelo mundo. Pela minha realidade. Era tudo tão injusto.
Os poderes de uma feiticeira se manifestam diferentes dos poderes de uma bruxa. A bruxaria vem naturalmente. É um instinto que cresce dentro da pessoa, é a sua ligação com a natureza e o planeta Terra lhe chamando. A feitiçaria é como um grito desesperado de raiva, de agonia e de dor. E meus poderes mágicos se manifestaram quando a esposa desse barão teve um surto de ciúmes e tentou me queimar viva ao lado das escravas com quem aquele velho asqueroso se deitava.
Ela me amarrou em um tronco com as outras, eu gritei para ela parar, gritei desesperada por ajuda, mas ninguém fazia nada. Nenhum dos outros escravos, nenhum dos homens que trabalhavam para o barão, nem mesmo o velho feioso parou a lunática da sua esposa… Eu ainda posso lembrar da sensação das chamas queimando minha pele. Foi tudo tão intenso… Tão intenso que a minha magia explodiu e levou aquele fogo para longe de mim, mas queimou tudo que havia ao redor. A casa grande, a senzala, as pessoas… Tudo foi consumido pelo fogo que a minha magia intensificou em um feitiço que até hoje não me recordo como eu fiz.
Então, entre aquela destruição, cinzas e fogo, um grupo de mulheres surgiram. A minha mestra, a líder daquele coven de feiticeiras. Uma mulher preta, assim como eu. Ela tinha longos cabelos cacheados e vermelhos como sangue, olhos escuros. Me estendeu sua mão e me levou até o lugar secreto do seu clã. Ela ajudava mulheres escravizadas que fugiam da humilhação, da vida de lágrimas e dores, felizmente ela era uma feiticeira muito poderosa e desenhou runas ao redor da casa onde sua irmandade ficava. Essas runas criavam a visão de árvores no lugar da construção.
Comecei meu treino como feiticeira. Aprendendo alquimia, conjurar feitiços e runas, além disso, elas me ensinaram a ler e a escrever.
Meu poder foi evoluindo ao mesmo tempo em que o poder da minha mestra ficava menor. Isso queria dizer que a magia me escolheu para ser a próxima líder. Eu seria a próxima mestra do coven, mas as minhas colegas feiticeiras ficaram com inveja. A inveja delas cresceu ainda mais depois que a nossa antiga líder faleceu. A magia já havia me escolhido como a mandachuva, elas me atacaram no momento em que o ritual de aceitação ia começar. Elas me cercaram e começaram a me atacar com magia pura, eu tive que me defender e só havia um jeito de me defender…
Anjo Noturno e O Bruxo escutavam a história com atenção, Isaac sorria ouvindo novamente aquele conto épico. Sentia saudades daquela época, o mundo havia ficado muito diferente desde aquele tempo, principalmente a tecnologia, mas de fato da sociedade daquele tempo ele não sentia falta.
— Sabem por que elas me atacaram? — perguntou Francesca encarando os dois super-heróis. — Sabem o por quê?!
— Porque você deve ser maluca… — sussurrou O Bruxo a encarando com ódio.
— Não… Foi porque eu ia usar nossos poderes, nossa feitiçaria para construir um mundo novo… Juntas poderíamos mudar tudo e fazer justiça. Justiça por todos aqueles que morreram para eles ficarem ricos! Mas elas não quiseram se juntar a mim! Tiveram medo de que o meu plano colocasse o mundo mágico em exposição! Acontece que o mundo mágico é tão hipócrita quanto esse! — dizia a mulher ainda flutuando, cheia de ódio e a cada palavra o brilho da sua magia ao redor do seu corpo ficava mais intensa. — Isaac era o único membro branco e homem do nosso coven… É como se fosse um primo para mim. Foi expulso de casa por ser… Diferente.
— Gay. — respondeu o rapaz de cabelos vermelhos. Olhou para sua mestra. — Nesse tempo, chamamos de gay… Ou homossexual.
— Não importa, querido. — sorriu a feiticeira. — De qualquer forma, vocês entenderam. Isaac foi quem me contou do que as outras pretendiam, então, eu criei um feitiço que me deixou presa aqui. Lancei um feitiço em Isaac para ele se tornar imortal…
— Acontece que depois daquele ritual, depois que minha mestra desapareceu, as outras feiticeiras me prenderam e eu apenas consegui sair um tempo atrás… Eu tive que fazer algumas coisas para recuperar a energia vital que perdi durante as décadas… Descobri através de meios nada legais que o livro com o ritual para despertar a minha senhora estava sob os cuidados do coven que Maurício faz parte… — explicou o feiticeiro sorrindo e apontando para cima, na direção da caixa mágica onde O Bruxo se encontrava preso.
— Você entrou lá e roubou o livro. Seu desgraçado! — gritou O Bruxo ainda se debatendo contra as paredes mágicas.
— Vou deixar vocês resolverem suas diferenças… — disse Francesca e em seguida estalou seus dedos mais uma vez.
Uma parede de fogo começou a aparecer a partir do oxigênio queimado no ar, tocando o chão e aos poucos formando uma arena, onde O Bruxo foi jogado e em seguida Isaac entrou na mesma. Maurício caiu no chão, de joelhos, sendo pego de surpresa. Isaac estava segurando o livro dos elementos mágicos proibidos. Os olhos do super-herói negro se encheram de ódio novamente, ficando em pé e se colocando em posição de batalha com seu bastão em mãos.
As asas pretas do Anjo Noturno surgiram em suas costas, quando o mesmo foi levantar voo para interferir naquela luta, mas a prisão mágica o prendeu da mesma maneira que havia deixado o outro preso. A caixa flutuou e ficou ao lado de Francesca.
— Não ouviu querido? Isaac roubou o coven daquele rapaz… Essa é uma briga que tem que ser resolvida entre eles… — disse a feiticeira sorrindo e em seguida colocou seu dedo indicador em frente aos seus lábios flexionados, pedindo o silêncio do adolescente.
Anjo Noturno não disse nada, com seus olhos inundados de preocupação levou sua visão até o campo de batalha improvisado.
CONTINUA…
.
.
.
NO PRÓXIMO CAPÍTULO…
.
.
.
O QUE FAZER DEPOIS?

Comments (0)
See all