— Maple…! Ei Maple! — Chamava a voz meio abafada, mas que me acordou do sonho. Notei antes mesmo de abrir os olhos, que aquela pessoa tentava me acordar há um bom tempo dado ao meu sono pesado. É sempre assim com qualquer um que tenta me despertar — Sonohara Maple…! — insistiu mal-humorado elevando mais o tom.
Passando o canto da mão no olho como um felino limpando os bigodes, deitada sobre o balcão onde havia o teclado de um computador velho, bocejei olhando pra frente, onde meu gerente, senhor Toji Karisawa, olhava para mim de braços cruzados, com um ar de pai no caminho de despejar uma bronca na sua filha, vulgo eu, que acabava de acordar depois de dormir em serviço.
— Hm… hm!? Eh!? — Levantei da cadeira ao balcão do caixa bastante tensa e assustada, afinal eu sabia o que aconteceria em seguida — Não pode ser…! Não me demite! E-eu pos-!!
— "Eu posso explicar", "Foi por causa do projeto"... tem alguma outra desculpa?! Heeeh!? — Exclamou o gerente me cortando, enojado com minha atitude. Abaixei a cabeça apenas em um sinal de desculpas e ele levantou o dedo, indicando que faria novamente "aquilo" — Está pronta…?
Arrepiei cada átomo do corpo, e corei de nervosismo. Uma cena que se repetia pela vigésima vez. A punição pelo trabalho ruim.
— S-senhor Karisawa, por favor, p-pensa melhor! Olha, nessas últimas duas semanas eu até limpei a caixa de areia da Potato-chan! — Apontei pro gato no canto da loja, lambendo a perna — Até mesmo organizei todos os donuts que a Aya-chan fez! — Olhei para a vitrine com donuts delicadíssimos enfileirados.
— É mentira, quem colocou os donuts foi o Homura-kun! — Gritou Aya da cozinha.
— O que você quer me dedurando assim?! — Exclamei para ela revoltada, que apareceu na janelinha que separava a frente dos fundos da loja, me dando a língua.
Karisawa, o gerente da cafeteria onde trabalho, é um homem de meia idade de olhos bem puxados, um tanto calvo e mais baixo que eu. Está sempre um tanto estarrecido, até nos dias mais bonitos, como se nem mesmo uma divindade pudesse o alegrar. Eu e ele temos uma relação meio que de ódio, sem amor algum como visto nessa cena. Enquanto eu gelava e suava, simplesmente fez "aquela" pergunta:
— Salário reduzido ou hora extra!? — Simplesmente jogou para mim a decisão, ambas terríveis de serem tomadas. Ambas com consequências duras na minha rotina diária.
— Er… — Apertei as mãos suando frio e olhei para o canto meio melancólica. Novamente o pensamento autodepreciativo de fracasso veio, apertando meu peito me fazendo sentir inútil novamente — S-salário… reduzido… — Respondi de olhar baixo. Dói muito sempre me colocar nessa situação tantas vezes, como se fizesse o mesmo para chamar a atenção — Mas… saiba que… eu não faço ideia do porquê dormi. Eu nem mesmo estou com sono! — Expliquei na pura e humilde sinceridade.
— Como se eu fosse acreditar. Agora contente-se com seu salário com 1000 ienes a menos. Em uma próxima eu reduzo em mais 200! — Esbravejou o velho bufando, indo para o outro canto da cafeteria, onde um casal de clientes ria da situação.
— Uma salva de palmas para quem!? Quem!? Sonohara Maple! Sendo repreendida pela oitava vez no mês! — zombou Homura com duas bandejas de café nas mãos, voltando da parte da frente da loja onde estavam outros clientes. O jeito animado dele, diferente de Aya, é bom em um ambiente de trabalho estressante para mim. Sempre estava atraente com seu cabelo castanho comprido e olhar descontraído, onde se destacam sempre seus olhos negros. Ao contrário do gerente, sempre brilhante e de bem com a vida.
— Meleca… não vou conseguir comprar o novo Presidente Evil… — reclamei me sentando na cadeira atrás do balcão do caixa, desapontada com o salário.
— Você mal deve conseguir pagar um aluguel com a merreca que ganha — disse Aya saindo da cozinha com uma fornada de gyoza, abaixando ainda mais minha bola — Porque não tenta a sorte em algum trabalho mais… — deu um olhar de canto de forma sensual com um sorrisinho.
Ela claramente queria me ofender, me lembrando que além de alta com 1,80 cm, meu corpo é mais plano do que curvo, em conclusão, sou uma lança humana. Sempre com um moletom comprido preto surrado e aberto sob uma camisa velha e meio manchada pelo tempo, em soma sendo de quase todos os ângulos alguém um tanto não atraente, exceto pelo meu cabelo curto e rosê, sempre bem cuidado e o que mais se destaca em mim.
Respondendo Aya, apenas dei a língua como a mesma fez antes. Diferente de mim ela é loira de penteado ondulado, de olhos mel e corpo atraente, um pouco mais baixa que eu e com três pintas em linha na bochecha. Personalidade sádica e orgulhosa como podem ver.
— Vadia…
Frustrada com o salário, mas aceitando na dor, peguei o celular para checar o horário. Eram 15:33 da tarde de uma quinta feira, dia 15 de maio. Era estranho eu ter de repente apagado e caído no sono sem nem ao menos estar cansada, havia dormido durante quase toda a manhã, então ter dormido em uma hora dessas não fazia sentido. Assim, estranhando o porquê de eu ter simplesmente apagado e caído no sono, olhei para meu amigo e questionei:
— Homura-Kun, se eu disser que eu dormi do nada sem nem mesmo estar cansada, você acreditaria em mim? — Perguntei confiando em sua sabedoria e sinceridade, ambas características fortes dele — Não sei dizer mas… tem algo de errado comigo, eu acho.
— Hmm… Estranho… Talvez sua pressão tenha caído, mas até onde sei você não tem esse tipo de problema — Raciocinou coçando a pouca barba que crescia em seu queixo e subia pelo canto de seu rosto olhando para mim, enquanto arrumava o balcão de lanchonete — Talvez você foi possuída por alguma entidade ancestral preguiçosa — Brincou rindo.
— Não é nada supersticioso cara, ela apenas tá dando uma de manipuladora e mentindo na cara dura de novo. Maple Maple… sempre achando que somos burros e não vamos notar né? Bobinha — Disse Aya se apoiando com o cotovelo do lado dele no balcão, olhando para mim de cara fechada — É assim que ela ganha a vida, se aproveitando da inocência dos outros para sair na frente e conseguir o que quer. Parece uma bruxa, credo… — Suspirou por fim, depois de me ver ficar mal com isso.
— Ela tá certa Maple. A gente já falou muito sobre isso — Relembrou o garoto meio que compreendendo como eu não controlo esse tipo de atitude, demonstrando compaixão comigo — Tente mentir menos.
— Você conhece bem e sabe como eu não controlo isso. Eu simplesmente minto, mas eu dizer que o que to falando sobre ter dormido assim é verdade, ninguém vai acreditar mesmo — Suspirei desapontada com meu ser, indo atrás de algo nas redes sociais no computador do caixa — Queria ser que nem minha irmã mais nova. Ela consegue se controlar bem e sempre é sincera com tudo, mesmo sendo bem nova ainda.
— Bom, diferente de você, ela não tem esse transtorno de mitomaníaco bizarro. Ela é normal diferente de você, maluca — disse Aya, ajeitando seu avental verde xadrez, zombando de meu problema.
— Aya-san! — Repreendeu Homura — Isso é duro de se dizer! Não é como se ela fosse descartável só por isso e-
— Tudo bem… Homura-kun… — Interrompi antes dele começar um sermão — Não começa de novo… erm… tá tudo bem — Finalizei evitando mais uma discussão sobre isso, demonstrando para os dois ali como odeio esse tipo de assunto sobre meu transtorno. Notei assim uma mulher vindo até o caixa para pagar pelo seu café, e em resposta me levantei da cadeira — Boa tarde — Cumprimentei vendo a moça colocar a conta na minha frente.
Sem dizer nada ela tirou sua carteira de couro de seu casaco grande, passando o dedo em seus cabelos brancos compridos, que desciam na altura dos seios. Calada, começou a tirar dinheiro. Me surpreendi um pouco como não havia notado ela ali antes, mesmo ela sendo estranhamente atraente, de uma forma um tanto mística. Com essa pele pálida, olhos verdes claros e cabelo albino, além das roupas escuras e colar de esmeralda, ela se destacaria fácil em qualquer ambiente, não importa o quão cheio esteja. Misteriosamente só a reparei ali apenas agora. Nem sequer a vi entrar na cafeteria.
Vendo ela atrás dos 660 ienes do único frapuccino que pediu, reparei em sua mão direita anéis metálicos com escrituras talhadas no ferro, o que me atraiu.
— Você tem anéis bem bonitos — Comentei simpática dando um meio sorriso — Tem algum significado?
— …
— Er… o-ok — Murmurei respondendo ao silêncio dela. A moça colocou o dinheiro no balcão, e cumprindo meu trabalho na loja comecei a guardar o pagamento e pegar o troco. Ela me aguardando, se virou um pouco tirando o celular e abrindo um aplicativo de GPS, que não carregou porque estava sem internet. Sendo assim, decidi ajudar por pura bondade — Você… é estrangeira? Did you understand what i'm talking about? — Perguntei no mais perfeito inglês.
— Sim, mas não precisa falar em inglês — Disse ela revelando sua voz falando na língua nacional japonesa, meio quieta e inexpressiva.
— Ehehe… é que… sabe — Corei — Eu sou meio americana e também falo inglês — Disse me apoiando um pouco no balcão para ver o celular dela — Está perdida?
— Santuário Yamasenko. Poderia me indicar o caminho? — Disse finalmente olhando para mim, me surpreendendo com seus olhos verde amazônia. Paralisada com seu olhar, decidi por pura gentileza indicar para a estrangeira o caminho.
No entanto, eu não sabia onde ficava o santuário da cidade, mas sabia que ficava bem longe. Eu ficaria mal se dissesse que não sabia, e provavelmente a mulher também, então:
— É só seguir essa rua para cá por sete quarteirões, nisso você curva para direita quando chegar em um restaurante de Udon, e sobe a colina até chegar em uma divisão. Quando chegar lá vá pela esquerda onde vai avistar o Toori do templo — Disse com um sorriso de canto, tentando ser fofa e simpática com ela — É raro aparecerem estrangeiros aqui em Shippai. Você é como eu um pouco hehe — Comentei um tanto feliz.
— 70 ienes. Meu troco — Disse calmamente, como se me exigisse ele.
— A-ah! Foi mal… aqui está — despejei as poucas moedas e as cédulas na mão pálida dela, fechando a gaveta onde estava o dinheiro — Seja bem vinda a Shippai, temos ótimas casas de banho e trilhas incríveis nas florestas. Você vai adorar.
— Obrigada por tudo — Disse saindo dali, andando até a porta.
— Volte sempre que puder — soltou o gerente em tom sério limpando uma mesa.
Suspirei passando a mão no cabelo um tanto contente por essa cena, afinal é raro encontrar alguém como eu aqui assim nessa cidade tão afastada no interior de Hokkaido no norte do país. Uma sensação boa me tomou por um tempo, e mesmo que não sendo nada demais me alegrou. Até que, prestes a sentar de novo na cadeira, a estranha jovem mulher parou na porta e olhou de lado para mim virando os olhos com o mesmo rosto apático de sempre.
— O seu nome e sua idade — Disse em tom de ordem.
Sim, poderia ter mentido indo no fluxo de minha natureza mitomaníaca, e sim, eu ia mentir. O olhar dela, a aura estranha, e algo a mais que me fez respondê-la quase que no mesmo segundo. Tudo naquele momento indicava que ela não era normal. Enchi os pulmões ficando calma, e automaticamente respondi:
— Maple. Sonohara Maple. Vinte anos — Apenas disse.
A estrangeira me observou por dois longos e estranhos segundos, me vendo presa naquele encantamento. Era como se ela me observasse do alto de um trono enquanto eu estava de joelhos, submissa a ela como um vassalo perante ao rei. Não estava com medo, mas sim apenas obedecendo sua ordem com nem mesmo um pingo de resistência ou timidez, como um cão bem treinado. Ela saiu entrando na rua e me deixando ali parada em pé como um poste firme.
— Aquele cabelo dela… ai ai — disse Aya em tom meloso e invejoso — Quem me dera ter coragem de pintar.
— Claramente era natural. Até as sobrancelhas e cílios eram brancos…! — Disse Homura indo até mim — Além disso, eu não sabia que você sabia onde ficava o santuário.
— Mas… eu não sei onde fica, eu… — Eu menti o caminho, e só nesse momento notei. Dei para ela a localização errada do templo quase que de propósito, fazendo ela ir ao invés disso para uma loja de mangás.
Homura e Aya me olharam parados e surpresos, até que a jovem riu enquanto o menino apenas me olhava tenso com o que eu fiz. Meio pálida e embasbacada com minha própria atitude, saí de trás do caixa correndo até a porta indo para a calçada, e chegando lá olhei para todos os lados atrás dela para me desculpar e indicar meu erro, dando a ela a rota correta. Entretanto ela simplesmente desapareceu na rua sem explicação como um vilão de desenho que simplesmente se teleporta para onde quer. Evaporou.
— Não pode ser… — murmurei assustada com o nível da confusão que criei com apenas uma frase. Mais uma manifestação de meu transtorno. Essa sou eu, Sonohara Maple, uma mitomaníaca compulsiva.

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