A minha saia desliza pelo chão de mármore tão branco quanto a lua. Surpreende-me que seja tudo tão limpo e brilhante. Nenhuma poeira nos cantos. Ah, verdade. Os criados, seus servos, matam-se diariamente para deixarem cada taça tão límpida que é possível ver sua própria alma através do cristal. Maldita realeza. Até que assassinar um príncipe não me parece ser tão ruim assim. Fiz coisas piores por menos. Oras, 30 mil possunts! É o suficiente para recomeçar em algum lugar distante ou até começar uma guilda. Sem querer, deixo escapar um sorriso pensando nesse sonho bobo.
― Senhorita, ― o cavalheiro que me acompanhava desde o início murmurou ― está tudo bem? Se me permite perguntar, no que está pensando?
― Nada, nada. Estava distraída somente. ― Mas, afinal, qual seu nome?
― Cedric Bugourt, mas não me entristeceria caso não me conhecesse. Vim de outros mares para apreciar essa noite de seduções e ilusões.
― Poético…. Porém, eu tenho notado que está tentando seduzir todas as moças que entram por aquele portão e sou apenas mais uma. ― digo, enquanto me solto suavemente de seu braço ― Devo ir. Tenha uma boa noite, Cedric Bugot.
― Bugourt! Com “ur”!
Alguns homens não reconhecem limites. Mais um pouco e não conseguiria escapar para me encontrar com o príncipe. Nobres, não é mesmo? Acreditam que tudo os pertence por conta de um mero título hereditário. Filhos de alguém. Imagine ter um legado que não passa de um sobrenome. Viver às sombras de sua própria família. Riquezas para esbanjar enquanto nunca precisou cortar sua própria carne.
Ouço sons emitidos por uma orquestra com alaúdes, violas e órgãos, assim como por pessoas dançando. Os perfumes nauseantes de tão doces me guiam até o salão principal. Ao adentrar, percebo que o chão mudou. É madeira maciça das árvores mais antigas do reino. Amarronzada, mas não como terra. Não, não. Eu estava pisando em algo bem mais nobre e reluzente. As cortinas vermelhas com dourado se destacavam cada vez mais. Eram longas, grossas e pesadas. Resistentes o suficiente para aguentarem meu peso, caso algo saia do plano.
Mas onde eu encontraria o príncipe? Logo, me lembrei de outra parte da carta, como se pudesse a ler em minha mente: “Busque por prata e azul vibrante. É a sua assinatura.” Avistei o relógio: 12h48. Ele já deveria ter descido para fazer algum anúncio há vinte minutos. Como não o vi ainda? Vasculhei o lugar com meu olhar. A escadaria luxuosa, a sacada gigantesca e os camarotes revestidos em ouro.
Nada. Absolutamente nada.
Até que a música parou e um jovem, que não passava dos 20 anos, surgiu em meio ao palco superior. Ele vestia um longo terno cinza claro com uma rosa azulada em meio ao seu cabelo bagunçado. Poderia ser um vestido pelo comprimento. Chegava até seus calcanhares. Sua camisa social um pouco desabotoada como se fosse um charme, uma forma de tirar o fôlego, talvez. Era para parecer que ele tinha luxo mesmo depois de ter sido másculo em um jeito particular? Não… a sua gravata impecável estava lá junto com o broche de sua família. Isso foi planejado. Orquestrado perfeitamente. Só preciso achar uma forma de me aproximar dele.
Autor: E agora? Será que a Morte conseguirá arrancar o último suspiro do Príncipe de Everyland como havia planejado?

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