NARRAÇÃO: RÔMULO MAZZARO RIZZI
Eu odeio a parada LGBTQIA+. Acho um evento hipócrita. Acho que existem formas melhores para exigirmos os nossos direitos. Pareço mais emburrado do que gostaria, então, a Clara pede mais entusiasmo da minha parte.
Nunca vi tanta bandeira colorida na vida. Cara, mas a pior parte é o glitter. Porque o glitter? Espero que eles sejam ecológicos. As tartarugas agradecem. Um rapaz grita perto de mim, aparentemente, ele encontra o grupo que fazia parte, pois todos vestiam uns collants rosas e saias de tule.
Nas caixas de sons, a música "Firework" da Katy Perry tocava, enquanto algumas pessoas dançavam e outras apenas bebiam. Abri o cooler estilizado (obrigado, mamãe) e peguei uma cerveja para facilitar a experiência.
O papai mostra todo orgulhoso a sua camiseta "Meu filho é gay, e tá ok!". Inclusive, fiquei assustado, porque descobri que ele criou um perfil no Instagram e começou a fazer stories. Olhei para a esquerda e o vi. Os olhos de Lince. A única reação foi cuspir a cerveja que acabara de tomar.
— Filho? — papai perguntou parando de gravar e voltando sua atenção para mim.
— Rômulo? — Clara pegou no meu ombro, pois ficou preocupada com a cara de #% que devo ter feito.
— O Olhos de Lince está aqui. — balbuciei, deixando a cerveja cair no chão e saindo em direção a ele.
— Olhos de que? — questionou meu pai confuso e me seguindo, junto à mamãe e Clara.
Como pode? Depois de anos sonhando com os Olhos de Lince, tenho a chance de encontrá-lo. Mas como vou abordá-lo? E se eu for um mero estranho? As perguntas surgem na minha cabeça na velocidade em que o meu coração dispara. Esbarro em algumas pessoas e nem peço desculpa, porque não consigo falar nada.
Ele está de costas para mim. A medida que ando, o meu coração é invadido por um sentimento de saudade e pertencimento. De repente, tenho uma visão. Uma espécie de sonho ou lembrança. Além dos Olhos de Lince, vejo a Clara e mais três pessoas. Nós estávamos em volta de uma fogueira, cantando e celebrando.
Tento andar, porém, as pernas não obedecem. Continuo preso àquele momento. Os meus pais e Clara me observam, sem saber como reagir. Às lágrimas escorrem pelo rosto. Eu quero gritar, mas não tenho forças. Então, Clara corre e o vira na minha direção.
***
NARRAÇÃO: JULIANO BELLINI SARTORI
Uma explosão de sentimentos. O TDB está na minha frente e o copo de plástico que estava em minhas mãos caí de encontro ao chão com uma velocidade impressionante. Eu não consigo evitar às lágrimas. Me aproximo e toco o seu rosto. É igual aos meus sonhos. Ele possui um maxilar quadrado e imponente. Os meus dedos passeiam, gentilmente, pela sua face.
Fico assustado com o magnetismo que passa pela minha coluna. O TDB despertou um Juliano que estava adormecido há anos. Através de seus olhos azuis tenho um vislumbre de nós dois, quer dizer, pelo menos, eu acho que somos nós. São beijos, carícias, declarações e despedida.
— Eu prometi que ia te encontrar. — afirmou o TDB, limpando as minhas lágrimas.
— Não era um sonho? — perguntei, ainda confuso a respeito de tudo.
— A minha amiga afirmou que somos almas gêmeas. Eu sonho contigo há anos. Os seus olhos são as coisas mais lindas que já vi. — ele explica, rindo e chorando.
— Vidas passadas?
— Sim. — ele responde, pegando em meu rosto e o acariciando. — Eu te conheço de outra vida. Hoje, eu me chamo Rômulo.
— Eu me chamo Juliano. Ainda não acredito que, finalmente, te conheci. A melhor parte do meu dia era justamente quando sonhava com você. — contei, lembrando de todas as vezes que sonhar com o Rômulo me confortava, principalmente, quando perdi os meus pais.
— Olha. — ele disse mostrando todo animado uma tatuagem de caveira e flor.
— Eu não acredito. — soltei, pegando em seu braço e acariciando a tatuagem. — Te dei na tenda, né?
— Sim. Eu ainda não estou acreditando que te encontrei.
— Nem eu. É surreal.
— Juliano. Eu posso te beijar? — Rômulo perguntou, quando estava com as duas mãos no meu rosto.
— Eu pensei que não ia perguntar.
***
Nós somos todas as estrelas
Nós estamos desaparecendo
Apenas tente não se preocupar
Você nos verá algum dia
Apenas pegue o que você precisa
E siga seu caminho
E pare de chorar tanto
***
Damos um beijo avassalador. Não tenho como descrever com outra palavra. O beijo do Rômulo é quente e carinhoso. Ainda bem que estamos em um lugar seguro, porque não aguentaria ficar sem beijar a boca dele.
— O que está acontecendo aqui? — quis saber Katri, olhando para o grupo do Rômulo.
— Ah, menina. Uma história louca. — contou uma moça morena com tranças no cabelo.
— Eu gostaria muito de saber. — afirmou um homem que usava uma camiseta escrita "Meu filho é gay, e tá ok!", presumo ser o pai do Rômulo.

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