Os pés afundaram na extensa camada de neve. Eram passos pesados, cansados, trêmulos. A subida era íngreme e a comida havia acabado há três dias. A ventania era tanta que por pouco não se desabava no chão e as nuvens não deixavam enxergar o cume. As vestes do rapaz não eram o suficiente para protegê-lo do frio e suas pernas não tinham força o suficiente para continuarem. Não tardou para seu corpo cair sobre a neve amortecedora. Com metade do rosto coberto, sentia o frio úmido da superfície lentamente tornar-se mais quente, sua visão ficou turva, já não aguentava mais. Por que diabos decidiu seguir esse caminho? Por que diabos decidiu sair de casa? No fim… nunca teve uma escolha, não tinha esse privilégio.
Miguel… uma voz abafada e longínqua ecoou através da paisagem desolada, mas não foi nada mais que uma brisa para o rapaz. Miguel… repetiu, um pouco mais audível dessa vez, mas ainda um suspiro inócuo para ele. MIGUEL! Agora pareciam vozes fantasmagóricas rodeando o corpo do desamparado. O chamado logo tornou-se um agarrão. Ele sentiu alguém puxando-o, virando seu corpo para conseguir respirar melhor. Via apenas um borrão à sua frente, encapuzado para proteger-se do vento gélido.
- Vamos, não desista agora, estamos quase no topo da montanha! Acorde, Miguel! - Disse uma voz feminina em meio ao som ensurdecedor da nevasca. - Do outro lado deve haver algum assentamento! Poderemos comer ali, basta apenas caminhar mais um pouco… - Insistiu num tom assegurador, esfregando suas mãos nas dele rapidamente para tentar esquentá-las.
Ao passo que a visão do rapaz melhorava, foi recobrando a consciência e relembrando a situação em que estava. Tentou levantar-se de súbito, mas a exaustão revelou-se mais forte.
- Não faça movimentos bruscos! Vá com calma, você ainda não está muito bem para esse tipo de esforço. - Inferiu a voz, cujo corpo ergueu-se e ajudou Miguel a levantar-se com cuidado. - Eu vou te levar para lá.
Dito isso, ajudou o rapaz a apoiar-se nela e ambos voltaram a subir, lentamente, na esperança de haver luz além das nuvens, de haver uma alma amiga depois da montanha. No entanto, leitor, houve uma extensa cadeia de eventos que levaram ao que aqui aconteceu, cadeia essa que caso ature minha escrita, será revelada no seu devido tempo.

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