Falst era uma aldeia rural pertencente a um de inúmeros feudos, rodeada por campos e plantações. Sendo um lugar bem simples, todas as casas eram predominantemente de madeira e ficavam situadas em torno de um poço no centro da cidade, que abastecia todos os moradores. Como era praxe, cada família tinha sua terra, uma porção pequena quando comparada aos vastos campos do senhor feudal, porém o suficiente para que pudessem sobreviver.
A primavera chegou atrasada em Falst, o que não era um bom sinal. O pequeno vilarejo campestre já estava passando por dificuldades em função do clima desfavorável e esse atraso causaria mais problemas para pagar a talha, metade da produção que deviam ao senhor local. A última colheita fora muito pouco produtiva e caso esse ano fosse igual, poderiam ter algum tipo de penalidade, tal como um impedimento no uso das construções do feudo, como o moinho e o forno. Todos esses fatores davam um aspecto triste à aldeia, com plantas secas e solo duro permeando a paisagem, predominando uma cor mais seca ainda.
Felizmente Falst era uma comunidade unida e as pessoas se ajudavam e trocavam favores de bom grado. Isso permitiu que um conseguisse prover pelo outro, o que fez com que raramente alguém arrumasse problemas com a autoridade, isto é, até o ano passado. Como já citado anteriormente, o clima não foi gentil com a produção e a catástrofe foi tanta que muitas famílias encontraram-se com poucos recursos, que se tornaram menos ainda após o pagamento da talha. Isso levou a uma crise local, uma vez que os trabalhadores não podiam trabalhar direito por causa da fome e da exaustão. A falta de chuvas e os frios ventos, além de arruinarem as plantas, arruinaram as pessoas também, que logo foram tomadas pela doença. Houve diversas mortes e um sentimento geral de tristeza. Por isso que, quando a primavera finalmente chegou, uma leve esperança aqueceu os corações dos moradores.
Dentre esses moradores estava Miguel, um jovem camponês que, como todos os servos ali, nunca saiu de Falst, uma vez que estava preso à terra. Destinado a trabalhar, seus vinte e um anos de vida se resumiram a isso, mas ele não se importava, afinal, desse modo poderia ajudar sua família a ter uma vida mais tranquila e estável.
O inverno não foi gentil com a família de Miguel. Assim como todos os moradores, as poucas terras que tinham foram seriamente comprometidas pelo clima ruim e logo não sobrou comida para saciar aquela família grande de seis pessoas. Seu pai, Horácio, um homem robusto de braços largos e fortes, ainda podia receber ajuda de Bernardo, o filho mais velho, e Miguel, ligeiramente mais jovem, mas ainda não podia contar com Carminha e Gabrielzinho, que ainda não tinham a força para erguer uma enxada. Manoela, a mãe fazia um trabalho duplo, cuidando das crianças e trabalhando na terra. Num primeiro momento, os vizinhos tentaram ajudar a família na medida do possível, mas ao passo que a crise se alastrou e todos ficaram sem nada, não havia nada para dar.
E como o diabo bem sabe fazer, criou mais problemas a partir do nada, e a família de Miguel também ficou doente. Começou com Bernardo, logo Carminha também e depois Horácio e Gabrielzinho. Miguel e Manoela tiveram que passar noites em claro para conseguir realizar todas as tarefas e ainda cuidar dos enfermos. No entanto, chegou o fim do inverno havia cinco pessoas em casa e uma na cova. Gabrielzinho, ainda muito jovem e frágil, sucumbiu à doença e partiu desse mundo antes mesmo de completar seis anos.
Aqui voltamos à primavera, à esperança dos moradores de Falst e ao desamparo de Miguel, ainda incapaz de lidar com a perda de seu irmão menor. Começou a trabalhar mais intensamente, talvez como forma de esquecer disso tudo. Queria que esse ano fosse bom para a família, que não houvesse mais problemas. Essa terra, porém, meu caro leitor, não é gentil para com as pessoas, especialmente quem não passa de uma ferramenta de produção, como é o caso dos moradores de Falst, e Miguel, ainda ingênuo e alienado do mundo, apenas descobriria isso na primavera, uma estação cheia de esperança, mas que facilmente pode ser transformada em pesar, pois foi em um dia de primavera que a família ouviu batidas na porta de casa e, ao abrir, Horácio se deparou com dois soldados, carregando espadas na cintura e um pergaminho na mão.

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