Passaram-se dois dias desde que partiram de Falst. A companhia seguiu por uma estrada que atravessava o feudo. Dali podiam vislumbrar ao longe o castelo do senhor de Sá, sobre uma colina. Era uma estrutura mastodôntica, grossa e firme. Não era possível ver janelas de nenhum tipo, apenas paredes e torres maciças de blocos de pedra.
- Parem com a marcha! Descansaremos um pouco aqui antes de prosseguirmos! - Anunciou o soldado à frente do grupo.
Os rapazes sentaram-se em pedras e troncos que achavam perto da estrada e começaram a curtir um merecido descanso, se é que se pode chamar aquilo descanso. Miguel sentou-se num tronco grande e tirou um pedaço de pão da mochila. Tinha que tomar cuidado para que não acabasse, pois só conseguiria mais comida quando chegasse no acampamento. Bernardo veio a seu lado e tentou esboçar um sorriso forçado.
- Como está indo, Miguel? Se precisar descansar mais, posso tentar pedir mais tempo para o soldado.
- Não precisa, não é como se ele fosse te ouvir.
Bernardo manteve-se em silêncio por alguns segundos, talvez as palavras não estavam claras em sua cabeça e, quando conseguiu formar uma frase satisfatória, continuou a conversa.
- Desculpa, Miguel. Eu não queria ter te levado junto. Era pra você estar ajudando o pai com a terra, mas está indo morrer na guerra. Desculpa mesmo, Miguel.
- A culpa não é sua, irmão. Eu nunca tive escolha e você também não e todo mundo aqui com a gente também não. Só que ficar se remoendo que nem o pai não vai ajudar. É como você falou. A gente tem que sobreviver pra voltar pra casa. É só isso que precisamos fazer.
O irmão mais velho, ao ouvir as palavras de Miguel, esboçou um sorriso de canto de boca e deu umas batidas em seu ombro.
- Isso mesmo. A gente vai sobreviver, tenho certeza. Força.
Nisso Bernardo levantou-se e foi conversar com um dos soldados para saber quando faltava para chegarem. Miguel permaneceu sobre o tronco, observando a natureza. Essa era a primeira vez que saíra de Falst, mas definitivamente não esperava que fosse ser desse jeito. Uma brisa fazia a grama alta ondular como labaredas e as nuvens cobriam o sol, proporcionando uma atmosfera desolada. Ele então pegou o soldadinho de madeira de sua bolsa e ficou observando aquele entalhe rudimentar. Não era nada especial, não tinha cores, detalhes, era apenas um soldadinho simples. No entanto, nos olhos de Miguel aquilo era um presente, uma memória. Talvez fosse a única coisa capaz de fazê-lo sorrir naquele ambiente desconhecido para ele. Sua reflexão, entretanto, foi interrompida por uma voz desconhecida.
- Posso sentar?
Miguel olhou para cima. À sua frente estava um rapaz com cabelo em tigela, não muito alto de estatura e bem magro.
- Pode sim. - Disse após uma pausa, enquanto guardava o soldadinho de volta na bolsa.
O rapaz sentou-se ao seu lado e então instaurou-se um silêncio profundo. Ninguém dizia nada, o que acabava por deixar ambos desconfortáveis.
- Eu me chamo Leo. Como você se chama? - Perguntou, tentando puxar conversa.
- Miguel… - Respondeu, olhando de relance para o rapaz.
- Eu sou o único filho homem do meu pai, então tive que ir pra guerra. Não parece nada legal, mas não tive escolha nem nada. Só espero que seja rápido, porque vou sentir falta da comida de casa. Queria poder mostrar para meu pai de algum jeito que estou bem, pena que não dá pra fazer isso. A cada dia que passa, quero voltar mais pra casa, você sente isso também?
Miguel ficou um pouco atordoado pela falatória sem parar de Leo, demorando um pouco para conseguir processar tudo. Aquele rapaz simplesmente disparava informações pra lá e pra cá sem nenhuma pausa. O jovem tentou selecionar o que deveria responder dentre tudo que ele disse.
- Bom, eu queria poder ficar com a minha família e dizer que está tudo bem, mas por enquanto só espero que consiga sobreviver.
Ele não tinha o mesmo ânimo que o rapaz ao lado, muito menos o mesmo otimismo. Preferiu apenas responder o necessário, afinal, julgou que o tal de Leo manteria a conversa acontecendo mesmo com a mínima participação dele.
- Sabe, eu não entendo muito bem essa história de guerra, nem o que a gente tem haver com isso. Não é como se essa guerra fosse mudar alguma coisa pra gente, né?
- Sinceramente, eu não sei. Acho que no fim, a gente vai continuar arando a terra e dando comida para um senhor feudal. pra gente não muda nada quem ganha e quem perde, mas pro tal senhor de Sá deve mudar bastante… não sei, não entendo dessas coisas.
- Eu também não, mas me deixa curioso. Um dia vou saber mais sobre, talvez a gente descubra nessa guerra até, não acha?
- Acho que nessa guerra a gente vai descobrir mais sangue mesmo, pelo menos o que meu pai me contava da guerra não era nada legal, eu ficava com pesadelos à noite.
- Acho que o fato da guerra ser tão ruim assim explica porque a gente procura proteção do feudo. Ele não deixa a gente morrer na guerra e a gente dá comida pra ele, parece um bom negócio.
- Seria um bom negócio se a gente realmente fosse protegido. Mas olha pra gente, no fim a gente que tá protegendo o senhor, e pra isso podemos morrer…
- Agora que você diz… tem razão. - Leo pareceu meio desanimado após receber essa resposta pessimista, afinal, isso o fazia questionar porque estava indo para a guerra.
A conversa não pôde continuar, pois os soldados anunciaram terminado o descanso e todos voltaram a montar as filas para voltar a caminhar. O trajeto foi tão desolado quanto antes, mas ao menos agora Miguel tinha alguém além de Bernardo para conversar. No fim do dia passaram pelo castelo do senhor de Sá e de lá continuaram rumo ao acampamento. A paisagem mudava às vezes, ora viam plantações vastas, ora florestas e bosques escuros, ora pastos e aldeias que nunca tinham visto antes, mesmo estando tão próximas de Falst. Sempre que passavam por uma dessas vilas, Miguel se perguntava quantos foram levados por soldados, assim como ele, e se encontraria essas pessoas no acampamento. Essas perguntas, entretanto, só poderiam ser respondidas quando chegasse.

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