As nuvens cobriam o céu como uma tábula e sobre ela esculpiam-se figuras abstratas, nuvens densas com formas chamativas e pontiagudas. A caminhada de seis dias foi bastante cansativa, mas enfim chegaram no acampamento militar. Várias tendas, feitas de tecidos brancos. Havia bandeiras e estandartes em todo o lugar. Cavalos sendo guiados para os estábulos, soldados afiando armas e limpando armaduras. Não havia um sinal sequer de amizade, ninguém estava ali para rir e demonstravam isso com uma expressão fechada e rígida.
Ao aproximarem-se de uma tenda maior que as outras, o soldado parou de andar e fez sinal de parada para o resto do grupo. Um oficial, reconhecido por seu capacete emplumado, cumprimentou o condutor.
- Quantos conseguiu reunir, soldado?
- Trinta e sete, senhor!
- Apenas trinta e sete?! Não há mais homens neste feudo? Quase todos os recrutamentos não têm os números esperados.
- Senhor, acho que o inverno passado foi muito rigoroso, muitos morreram.
- Então esperemos que os que sobreviveram sejam os mais fortes.
O oficial deu um passo para a frente e virou-se para o grupo de recrutas, com as mãos atrás do corpo e peito estufado. Então, bradou para os medrosos à sua frente.
- Algum de vocês já manuseou uma lança?!
As respostas foram decepcionantes, para dizer no mínimo, alguns “sim” dispersos em meio a uma maré de negações feitas com a cabeça. O oficial inspirou profundamente e vociferou ainda mais alto.
- Estão me dizendo então que são um bando de inúteis! Inúteis! Hoje vocês servem ao senhor de Sá e o que têm a oferecer? Nada! Porém não se alarmem, eu farei com que saibam ao menos morrer com dignidade e servir de alguma coisa para a conquista da vitória!
Nisso instaurou-se um silêncio. Metade das pessoas estava aterrorizada e a outra pensava em voltar para casa. Infelizmente não podiam escolher o próprio destino, pois este estava nas mãos do senhor de Sá. O oficial então chamou o soldado que os tinha levado e disse num tom mais calmo.
- Quero esses rapazes bem treinados e capazes de lutar o mais rápido possível. Fui informado que faremos uma ofensiva conjunta com as forças do suserano em duas semanas. É tempo o suficiente.
- Sim, senhor!
O soldado fez um sinal de respeito para o oficial, que, sem dizer mais uma palavra, entrou na tenda maior, sumindo de vista. O grupo foi distribuído em tendas, organizado e enviado para campos de treinamento, onde aprenderiam a combater. Miguel acabou ficando numa tenda diferente de Bernardo, mas ao menos conseguiu a companhia de Leo. Sem assunto ele definitivamente não ficaria.
O treinamento era duro. Para aqueles rapazes que estavam acostumados a usar ferramentas como enxadas e machados, a força não era o problema. Conseguiam erguer e mover bem as armas. Porém, quando o assunto era a movimentação, especialmente com um capacete, ou algum outro tipo de equipamento de metal no corpo, aqueles fazendeiros não faziam ideia de como fazer. Veja bem, eles tinham a capacidade física para lutar, mas faltava jogo de pés, reflexos, percepção de campo e, talvez mais importante, coragem. Se até mesmo com armas de madeira ficavam receosos, quem diria com as de metal.
- Acha que realmente vamos conseguir em apenas duas semanas? - Perguntou na primeira noite Leo.
- Depende. - Disse Miguel, com uma visão mais realista da situação. - Acho que a gente vai conseguir aprender o básico para sermos considerados escudos humanos, mas definitivamente não o suficiente para sermos soldados. Somos camponeses, esse não é nosso trabalho, não me culpo nem culpo ninguém aqui por isso, é só… como as coisas são.
- Você fala como se não tivesse como a gente melhorar. Não acho que só porque a gente é camponês que não vamos conseguir fazer nada além disso. Se os outros conseguem, a gente consegue.
- Os outros não são camponeses. Às vezes a pessoa nasce pra ser soldado, ou pra ser camponês, ou pra ser senhor.
- E quem é que decide isso? - Falou Leo, levemente irritado com aquela visão determinista de seu colega.
- Sei lá, talvez o destino…
- Eu prefiro pensar que consigo, assim vou poder voltar pra casa logo.
E assim terminou a conversa. Miguel não era uma pessoa má nem nada do tipo, mas com certeza era pessimista em relação a muitas coisas. Especialmente com os eventos recentes, tinha dificuldade em ver algum tipo de solução para seus problemas.
Os dias passaram e o treinamento começou a ficar menos cansativo. Repetir os exercícios e praticar em grupo ajudou os rapazes a melhorarem, mesmo que pouco. Passaram de inúteis para alguma coisa, o que era exatamente o que os oficiais queriam. Nunca foi a intenção deles construir soldados. Precisavam mesmo era de uma carapaça descartável para não colocar em risco os verdadeiros guerreiros. Quem conseguiu um progresso considerável foi Bernardo. Talvez tenha sido seu senso de responsabilidade que o fez focar ao máximo seus esforços no treinamento, pois conseguiu desenvolver uma habilidade expressiva, que ficou evidente especialmente depois da primeira semana. Miguel tinha suas forças, claro, porém não avançou tanto assim. Não por falta de aptidão, ele com certeza tinha capacidade para melhorar. O que lhe faltava era motivação, talvez, vontade. Nunca treinava de verdade, fazia apenas um fingimento esforçado. Progredia, claro, mas numa curva muito mais tênue do que poderia. Quando de fato se motivava, era porque lembrava de sua família e que tinha que sobreviver, e para sobreviver teria que saber se defender. No entanto, limitou-se a isso, sobreviver, nunca vencer.
Conforme as semanas acabavam e o dia prometido se aproximava, um ar de tensão começou a se instaurar no acampamento. A maior parte daqueles recrutas eram ainda virgens da guerra, nunca antes estiveram em meio a uma batalha. Por mais que para muitos aquilo parecesse minimamente interessante, animador, para a grande maioria era preocupante. Pensavam que podiam morrer, mas não sabiam como. Pensavam que podiam ganhar, mas também não sabiam como. Estavam sendo treinados para fingir que lutavam, porém a luta só se aprende no campo de batalha. Apenas as cicatrizes ensinam da guerra, por isso as caras novas sempre tendem a morrer. Alguns buscaram treinar mais como forma de se distrair desses pensamentos, outros recorreram ao sobrenatural e à religião para ter proteção e conselho, o resto enfurnou-se debaixo de suas cobertas e tentou esquecer de tudo. Saiba que o terror da guerra começa antes mesmo de haver qualquer luta.

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