Um mês passou voando. Nesse meio tempo, Miguel foi se acostumando com as tarefas diárias na cabana. Ajudava a preparar a comida, pegar madeira, plantar na horta e pescar. Ainda de forma autodidata, conseguiu aprender a língua dos livros de Evaristo e passou a ler mais. Livros de aventuras, intrigas e descobertas encantavam o jovem estudante, que havia acabado de conhecer a magia da literatura. Além do conhecimento nos livros, o velho também lhe contou diversas histórias, sobre as máscaras na cabana, lendas de lugares muito longínquos, contos de dragões e fadas, fantasmas e todo o tipo de criatura bizarra. O quanto disso era verdade, Miguel não fazia ideia, mas ainda assim se encantava com tamanho conhecimento e imaginação do senhor.
Entretanto, essa experiência trouxe para o jovem fazendeiro uma sensação que nunca sentira antes, uma vontade esquisita, uma… curiosidade. Até então sua vida resumiu-se a arar a terra e ajudar a família, nunca imaginara nem por um segundo como poderia ser o mundo fora de Falst, nem ao menos teve um mínimo interesse nele. O fatídico episódio da batalha o fez extremar-se nesse pensamento. A indiferença tornou-se medo, ira. Não queria mais saber do mundo perigoso, desejava apenas ficar na segurança de seu vilarejo, se é que fosse realmente seguro. Agora, porém, a curiosidade lentamente conseguiu sobrepujar-se em relação ao medo, e um frio na barriga vinha toda a vez que pensava no vasto mundo afora. Imaginava os tipos de pessoas que poderia encontrar, as casas, as árvores, as montanhas, os rios… era uma mente fértil, como uma criança, como se a infância que nunca teve tivesse finalmente desabrochado em seu coração. Isso causou um certo dilema no rapaz. Por um lado, ainda desejava muito voltar para casa, avisar que estava bem, por outro queria encontrar logo seu irmão Bernardo, mas por outro ainda ansiava pelo mundo que podia desbravar.
Evaristo não tardou a perceber essa inquietação em Miguel. De certa forma, deleitava-se com aquela renovação, afinal, era como se tivesse completado um objetivo. Vê-lo trabalhando e estudando animado era um colírio para os olhos e o sábio sabia que enfim estava chegando o momento dele começar uma nova etapa de sua vida. Por isso um dia chamou Miguel enquanto limpava algumas máscaras de madeira.
– Veja, rapaz, eu já lhe contei o que essas máscaras significam? – Perguntou calmamente ao passar um pano sobre uma figura de lagarto com a boca aberta.
– Claro, me contou várias vezes já. Elas representam criaturas fantásticas, com grande sabedoria e poder. Estão em muitos dos seus contos de fadas. – Respondeu alegre, dando uma breve risada.
– Isso, isso. Miguel, será que você poderia pegar o meu bastão de caminhada? O dia está tão bonito, seria uma pena não aproveitarmos com um passeio.
– Um passeio? Para onde vamos? – Indagou ao esticar o braço para pegar o bastão e dá-lo para Evaristo.
– Não importa onde vamos, o que importa é a caminhada. – Concluiu o velho, levantando-se com o apoio do bastão.
Ambos saíram da cabana e navegaram até a extremidade do lago. Evaristo não perdeu tempo e saiu perambulando pelo pântano, com Miguel logo atrás. A caminhada seguiu em silêncio, até que alcançaram uma pradaria plana e grande, com grama alta ondulando que nem as ondas de um mar esverdeado. Um grupo de ovelhas podia ser visto ao longe, pastando tranquilamente. Apenas então o velho começou a falar.
– Rapaz, nesse mês você mudou muito, não acha?
– Bom, acho que sim, afinal, consegui aprender muito graças à você. – Respondeu Miguel de forma meiga.
– Aí que você se engana. Não importa o quanto eu fizesse, nada iria desabrochar se você não tivesse a vontade para isso.
– É, talvez… – Ele não havia entendido novamente o que Evaristo quis dizer com aquilo, mas concordou, como sempre.
– Tendo isso em mente, acredito que você está quase pronto para poder partir.
– Partir? – Exclamou Miguel. – Mas já? Achei que podia ficar mais tempo aqui, pelo menos um ano.
– Ora, um ano é tempo demais. Não quero você se apegando a esse lugar, senão não vou conseguir mais te tirar. Eu não preciso mais de você, e você não precisa mais de mim. Já está na hora de continuar sua própria estrada, fazer o que quer, encontrar quem quiser.
– Mas… não é justo, eu ainda não estou pronto. – Protestou o rapaz.
– Sim, não está.
– Então por quê?
– Exatamente por isso vou te deixar pronto ainda hoje.
Miguel não estava entendendo nada do que Evaristo falava. Por que aquela decisão tão abrupta? O que fizera ele para o velho querer mandá-lo embora assim? O jovem via aquilo como algo ruim, algo negativo, mas algo na expressão do sábio lhe dizia que não era bem assim, pois ele mantinha uma expressão plena no rosto, os olhos descansados, mas abertos, um sorriso discreto, mas satisfeito. Por mais que Miguel não quisesse sair, aquela expressão lhe dizia que era a melhor coisa a se fazer.
– Mas então… como vou fazer para ficar pronto? – Perguntou curioso.
– Espere, Miguel. Já vou te mostrar, mas por que estragar essa bela caminhada com essas dúvidas?
– Se o senhor diz…
E lá se foram os dois pelos campos gramados. Chegaram perto do grege de ovelhas, que comiam em abundância o capim primaveril. Conversaram com o pastor, que estava otimista para a produção deste ano. Ele parecia conhecer Evaristo, pois disse que daria um queijo de presente a ele em gratidão por um favor passado. Despediram-se e continuaram seu trajeto. Encontraram uma raposa à frente, carregando na boca um coelho morto. Evaristo deu uma risada.
– Parece que ela terá um banquete hoje. – Disse o velho.
– Com certeza. Ainda lembro da sopa de coelho que minha mãe costumava fazer. – Respondeu Miguel, com um discreto sorriso. Lembranças de casa muitas vezes lhe causavam saudade e tristeza, mas havia raros momentos em que o faziam sorrir.
Passaram por um riacho e atravessaram uma ponte simples de madeira. Miguel podia ver os peixes nadando pra lá e pra cá, em paz, quase que não afetados pela correnteza.
– Um peixe se acostuma com a correnteza em seu devido tempo.
– Acho que sim…
Não muito depois da ponte, encontraram uma pequena casa de campo, que parecia mais ser um depósito. Evaristo parou na frente do portão e o abriu empurrando com um pouco de dificuldade. Miguel prontamente ajudou-o a completar o trabalho. Dentro havia várias ferramentas, como enxadas, arados, selas e machados.
– Chegamos. – Disse satisfeito o velho enquanto adentrava o depósito, olhando ao redor.
– Então havia um destino, afinal. Mas… por que viemos aqui? – Perguntou curioso o rapaz, que rapidamente já começou a fuçar nos vários objetos espalhados.
– Para pegar tudo necessário para sua tarefa.
– Minha tarefa?
– Sim. Para ficar pronto para sair mundo afora, você precisa realizar uma última tarefa. E para isso vai precisar de algumas coisas daqui.
Evaristo logo foi pegando e revirando objetos. Uma tocha, uma velha faca, um par de botas mais grossas e uma capa esverdeada, com um capuz para se proteger da chuva.
– Acho que isso é tudo… o resto encontraremos na cabana. – Concluiu o velho, passando esses objetos para Miguel, que ainda estava confuso.
– Mas por que eu preciso de tudo isso?
– Logo você entenderá, rapaz. Logo entenderá.
Fecharam a porta do depósito e pararam para almoçar nos próprios campos, um piquenique, assim por dizer. Em seguida, fizeram o caminho de volta e chegaram ao lago pela tardinha. Navegaram até a cabana e Evaristo não perdeu tempo, já começou a procurar mais coisas lá dentro.
– Mas vou fazer isso ainda hoje?
– Sim, não há tempo a perder. Quanto mais cedo fizer, melhor será.
Miguel estava um pouco aborrecido e suspirou um suspiro breve. O velho, por sua vez, pegou um velho pergaminho de dentro de um dos vários potes de cerâmica, bem como uma das máscaras que guardava. A máscara era de tons azuis claros e escuros e representava a imagem de um sapo, cheio de verrugas, fazendo uma careta com a boca. No contorno da abertura para os olhos, havia uma leve pincelada amarela. O rapaz observou aquela máscara por um tempo, contemplando a atenção ao detalhe e a beleza daquele trabalho.
– Acho que isso é tudo. – Afirmou o velho. – Eu digo que você já pode partir.
– Partir? E pra onde?
– Ora, para o Bosque dos Sapos, é claro.
– Mas você mesmo disse que era perigoso! – Exclamou Miguel, surpreso e levemente assustado com a ideia de entrar novamente naquele lugar bizarro.
– Por isso se chama tarefa. Nunca falei que seria fácil e segura. Caso consiga, estará pronto para sair daqui.
Miguel olhou preocupado para Evaristo, um pouco incrédulo também, com as sobrancelhas franzidas e os olhos trêmulos.
– E… o que eu preciso fazer?
– Quero que você faça um acordo. Isso é tudo que precisa saber.
– Um acordo? Como assim? E o que tem haver com o bosque? – Insistiu o rapaz.
– Isso você vai descobrir no caminho, não se preocupe. Com o que aprendeu esse mês, não tenho dúvidas de que você saberá como fazer.
Miguel não estava convencido, mas não tinha muito o que podia fazer além de concordar. Vestiu as botas e a capa, colocou a faca presa no cinto, junto com a tocha e a máscara. Em seguida, pegou o pergaminho e abriu-o, revelando uma espécie de mapa meio mal desenhada. Ela representava uma floresta e havia um “x” na região superior esquerda.
– Pra que serve esse mapa? E o que ele está representando?
– É um mapa simples do Bosque dos Sapos. Claro, não vai ser de tanta ajuda, mas nos momentos em que se sentir perdido, sempre pode tentar se guiar por ele.
– Entendi… acho. Preciso de mais alguma coisa?
– Não, acho que está pronto.
Dito isso, Evaristo caminhou para fora da cabana. O rapaz seguiu-o. Chegaram na borda do bosque e lá ficaram parados por algum tempo. Miguel fitava aquelas árvores fechadas e retorcidas com certo temor. Ainda se lembrava da última vez que estivera ali, e não eram lembranças muito boas, até porque dessa vez, não teria a ajuda de Evaristo. O velho, por sua vez, parecia mais calmo. Virou-se para o rapaz e disse num tom reconfortante.
– Lhe desejo boa sorte, jovem. E lembre-se, caso você se encontre numa situação desagradável ou complicada, lembre-se do nome dado a esse lugar e faça bom uso da máscara que lhe dei.
– O que? Como assim?
– Vamos, pode começar a tarefa.
Miguel engoliu em seco e, vendo que não teria nenhuma resposta a mais de Evaristo, deu um passo à frente, e mais outro, e lentamente adentrou no estranho bosque que parecia tão destacado daquele mundo, enquanto o sol se preparava para dormir e a lua erguia-se, para assistir à provação do jovem fazendeiro.

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