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Feérico: O Príncipe Demônio e a Coroa de Sangue

Capítulo 2

Capítulo 2

Apr 09, 2023

Noah ignorou o olhar abatido de Theodor, não sabendo como consolá-lo ou se realmente deveria o consolar. Pensou nas palavras que poderiam ser ditas e então, preferiu o silêncio.

"Não havia sido um ataque." As palavras de Theodor ainda martelavam na cabeça de Noah, como se aquilo fosse algo totalmente inacreditável. "Eles não estavam atrás de minha família, era como uma disputa de duas alcateias por território. Eles saíram destruindo tudo que havia pelo caminho, enquanto lutavam brutalmente entre si. Mas, infelizmente fomos envolvidos nesse infortúnio."

Noah encarou a neve branca que voltará a cair incansavelmente, não havia mais lobos no quintal, não era mais possível ver as poças de sangue que haviam coberto a neve fofa naquela noite, porém tudo aquilo fora real e ele se sentia incapaz de ignorar cada detalhe que o lembrava daquelas feras, de lembrar que não era um dos pesadelos que o assombrava durante seu sono tornando-o incapaz de ter uma noite pacífica, aquilo realmente havia acontecido.

A cerca ainda se encontrava destroçada, assim como a porta e a parede do pequeno casebre dos Hayes. A sensação de suas mãos nuas arrastando aqueles pesados corpos inertes ainda estava ali, juntamente ao corpo sem vida da filha mais velha de Theodor, que havia morrido agonizando com seu próprio sangue ao ter o estômago e o pescoço dilacerados. O cadáver havia sido deixado por seu pai, em cima de uma velha cama de palha, para então começar a cavar uma cova ao lado de onde sua esposa havia sido enterrada alguns anos antes. 

Se aproximou lentamente, tão lentamente que por um momento sentiu que seria impossível alcançá-la, ajoelhou-se de forma breve, enquanto segurava uma das mãos frias de Maria com as suas próprias. Apertou firmemente junto às suas enquanto as levava em direção a sua testa, fechou os olhos ao sentir a sensação fria em sua pele, sussurrou palavras de desculpas e lamentações e após alguns minutos, finalmente largou a mão gélida e fechou os olhos sem vida que lhe encaravam de uma forma tão dolorosa.

Quando finalmente voltou a ficar de pé, percebeu que Theodor ainda estava cavando uma cova com dificuldade, no entanto Noah não o ajudou, ao invés disso percorreu o caminho até um minúsculo armazém velho e mofado onde a família Hayes guardava lenha seca e ferramentas. Ele arrastou os corpos e esfolou os lobos extraindo suas peles, fora um trabalho cansativo, eles eram grandes e sua pele grossa, entretanto, ele se sentiu incapaz de pedir ajuda a Liam ou Theodor, já que aquelas bestas foram responsáveis por destruir seu lar e matar um ente querido. As próprias mãos de Noah tremiam enquanto puxava a pele e cortava com sua adaga, a qual ele havia deixado cair inúmeras vezes durante o processo.

Após a remoção da pele, Noah arrastou os corpos pela floresta, deixando-os o mais longe possível do casebre. O pensamento de consumir a carne havia atingido sua mente, porém tão rápido quanto veio se foi, se imaginar consumindo a carne daquelas criaturas lhe dava ânsia.

Durante todo esse tempo, ele não conseguiu deixar de pensar em Maria, a filha mais velha de Theodor que a tão pouco tempo havia sido contratada pela costureira da cidade, para ajudá-la a confeccionar roupas para as crianças miseráveis que frequentavam a igreja. Maria contou a Noah sobre a notícia com um enorme sorriso no rosto, ela estava feliz, pois havia começado a seguir os passos de sua mãe, porém agora ela já não estava mais ali.

Noah sentiu uma náusea intensa, ele e Maria de certa forma cresceram juntos, ela fora a primeira garota que ele beijara e apesar de não ter um sentimento romântico por parte dele, aquele laço fraternal que se construiu com o passar dos anos, não poderia ser facilmente rompido. Ele se perguntou se aquelas bestas sentiram algo ao acabar com a vida de uma garota inocente, Noah quase riu com esse pensamento.

— Como se pudessem sentir algo.

Sentindo uma ardência em seus olhos, fechou os olhos e deixou com que as lágrimas a que prendera durante tantos anos fossem finalmente liberadas em um fluxo contínuo, enquanto sentia uma dor excruciante em seu peito e novamente aquela vontade repentina de vomitar.

•••

— Você tem certeza que vai ficar realmente bem? Se quiser eu posso levar Liam comigo. — Noah olhou para o casebre destruído atrás dele, implicando com o olhar as palavras que queria dizer, porém achava que não seria adequado. Theodor era velho e tinha uma dura experiência de vida, porém Liam ainda era uma criança que não havia atingido dois dígitos de idade. Por mais que vivesse duramente, ele poderia morrer se passasse mais uma noite sem abrigo.

Mas, Theodor apenas balançou a cabeça em negação, seus olhos estavam vermelhos e ele mostrava fortes sinais de cansaço. Além disso, Noah finalmente notou um enorme ferimento na perna direita e vários arranhões espalhados pelo corpo, os quais Theodor apenas se deu ao trabalho de enrolar pedaços de tecidos velhos em volta.

— Agradeço sua ajuda, Noah! Mas, irei buscar abrigo na igreja do vilarejo. Direi que fomos atacados no meio da noite por um urso faminto que não conseguiu hibernar e que já não temos abrigo. — Sua voz era fraca, mais baixa e sem vida do que Noah conseguia se lembrar.

Liam estava sentado perto da cerca destruída, seus olhos estavam vidrados em nenhum ponto específico, enquanto suas mãos nuas arrancavam o que sobrara do mato por debaixo da neve, suas mãos estavam vermelhas e enrijecidas pelo frio, no entanto ele parecia não perceber. Uma das peles que Noah arrancou de um dos lobos menores pendia ao seu lado, Theodor havia coberto seu filho com ela, tentando amenizar o frio, porém Liam arrancou-a de si como se fosse uma criatura aterrorizante. Depois disso, Theodor não insistiu que ele a usasse.

Noah encarou-o com pesar, vendo uma versão de si mesmo em Liam.

Será que, a treze anos atrás, essa era a mesma visão que as pessoas de fora tinham dele e de seu pai?

Eles sentiam pena deles?

Ignorando aquelas lembranças, ele disse para si mesmo que eram situações diferentes.

"Não havia sido um ataque."

As palavras de Theodor ainda percorriam seus pensamentos o perturbando.

— Não diga a ninguém o que aconteceu aqui, Noah. — Theodor repetiu aquelas palavras diversas vezes ao decorrer do dia como um mantra, como se ao invés de serem proferidas para Noah, fossem para si mesmo. — Acho que você sabe mais do que eu, o que aconteceria se contasse…

O olhar de Theodor foi tão profundo que por um momento Noah se perdeu nele, como se velhas lembranças estivessem voltando à tona da forma mais desagradavel possível. E era o que estava acontecendo, ele estava revivendo um pesadelo que até então achava que estava apenas no passado. 

— Eu não direi, você tem a minha palavra!

Não que sua palavra valesse muito, Noah não era muito conhecido por sua honestidade, porém aqueles eram detalhes sem importância no momento.

Noah suspirou levemente e olhou para a trilha que o levaria de volta para casa. Apertando fortemente a adaga de prata entre os dedos ele se aproximou de Liam, que ainda se encontrava sentado perto da cerca em destroços.

— Você não pode se esquecer do que aconteceu aqui. — Suas palavras soaram mais duras do que o desejado, porém ele achou que era necessário. Theodor observou-os por alguns segundos antes de dar meia volta e mancar para dentro do casebre. — Lembre-se que você é fraco e por isso não conseguiu e não vai conseguir proteger ninguém, se quiser que nada disso aconteça novamente, se torne alguém forte. Somente assim você conseguirá proteger seu pai… e a si mesmo — Noah agarrou as mãos pequenas de Liam, assim como fizeram com ele em suas memórias e colocou a adaga dentre seus dedos e apertou-a com força. Liam encarou Noah com seus olhos repletos de medo que começaram a lacrimejar. — Entretanto, nada disso trará sua irmã de volta, de agora em diante será apenas você e seu pai. Não quebre Liam, ou você irá ficar sozinho, proteja o que sobrou de todas as maneiras possíveis, ou você se arrependerá pelo resto de sua vida e nunca, em hipótese alguma, pense em vingança. Você terá mais a perder do que a ganhar com ela. — As palavras que saíram de sua boca possuíam um gosto amargo, eram palavras que queria ter escutado, eram palavras que queria ter dito ao seu pai antes dele ruir e se quebrar em pedaços tão pequenos que era impossível consertar.

Liam deixou com que a adaga caísse sobre a neve fofa e agarrou as vestes de Noah em desespero, enquanto soltava altos soluços que saiam engasgados por conta do choro.

— Eu não quero ficar sozinho, me ajude, por favor me ajude Noah. — Ele enterrou sua cabeça sobre o peito de Noah, querendo apenas fugir, como se assim pudesse esquecer todos os acontecimentos recentes. — Eu não sei o que fazer, não quero perder o papai. Mamãe e Maria se foram, eu não quero que o papai se vá também.

Liam era apenas uma criança, uma criança que vivia pacificamente com sua família sem causar dano a ninguém e mesmo assim teve sua vida pacífica destruída por aquelas bestas.

Noah sentiu aquele velho ódio se apossar de seu corpo. Ele os odiava, odiava tanto a ponto de sentir uma dor aguda dilacerando seu peito junto a sensação de impotência.

E, naquele momento, ele percebeu que aquela falsa paz que sentia já não mais existia.


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