Apertando fortemente a pele de um dos grandes lobos cinzentos em suas mãos, que Theodor pediu para que ele ficasse, Noah voltou para seu velho casebre desgastado, o qual começará a ruir com o tempo. Apesar de todos os acontecimentos do dia anterior, Noah tinha que ir até o vilarejo no período da tarde, pois havia prometido para Wesley, o ferreiro, ajudá-lo na forja naquele dia.
Noah não poderia se dar ao luxo de ignorar seu trabalho, até porque ele ainda precisava de dinheiro para sobreviver. Mesmo não sendo o suficiente para dar-lhe uma vida cômoda, o valor que recebia era o suficiente para que ele comprasse alguns pães e condimentos para preservar a carne dos animais que caçava.
Ele não ajudava o ferreiro Wesley com muita frequência, apenas quando a quantidade de trabalho que o ferreiro tinha, acabava sendo maior que o prazo de entrega.
Deixando a enorme pele de lobo em cima da cama, ele se perguntou se poderia vender aquilo no comércio local e faturar algumas moedas de prata, o que seria o suficiente para alimentá-lo por alguns meses.
Suspirando, ele decidiu que veria o que fazer assim que voltasse.
Ele certamente sentia-se incapaz de usar aquilo.
•••
Noah sentiu um forte aperto na garganta e o ar se tornar rarefeito, assim que seguia pela trilha que levava para o vilarejo, ele avistou no canto da trilha coberta de neve o corpo de um lobo com os pelos cobertos por uma espessa camada de gelo. Não era grande como os das bestas que havia visto na noite passada, na realidade era menor que um lobo cinzento adulto.
Porém, não era um lobo cinzento, apesar de estar todo coberto por neve e pequenas camada de gelo, seu pelo era negro, tão preto quanto carvão.
Não havia lobos negros naquela região.
Noah passou a mão suavemente sobre suas roupas, parecendo procurar por sua adaga, quando finalmente lembrou que havia dado a mesma a Liam. Praguejando, ele agarrou o cabo da velha faca que ficava escondida em sua bota desgastada e se aproximou do lobo silenciosamente.
O lobo respirava fracamente, o que fazia com que seu peito subisse e descesse levemente. Ele morreria em pouco tempo, estava machucado e cansado, se o frio não o matasse, certamente a fome o faria.
Noah abaixou a faca, escondendo-a novamente em suas roupas. Resolvendo deixar a besta morrer pela vontade da natureza.
•••
— Você parece perturbado, aconteceu algo?
O som do martelo batendo no ferro quente fez com que Noah apertasse os lábios em desagrado, ele havia passado a noite toda despertado e por conta da adrenalina, não havia sentido cansaço, porém, no momento em que passou a ajudar o ferreiro na forja, sentiu todo o estresse ser despejado em seu corpo como uma cachoeira ininterrupta.
— Nada realmente preocupante, apenas penso se a temporada de venda nas cidades baixas ainda irá ocorrer devido à ameaça de uma possível guerra. — Noah não revelou nada do que havia acontecido ao ferreiro Wesley, porém, achou que sua dúvida fosse uma resposta crível para sanar a curiosidade do velho.
O que não era mentira, pois nos últimos dias, Noah estava realmente preocupado com a temporada de vendas. Já que era um grande evento que acontecia a cada inverno e que sempre havia necessidade de mão de obra. Se ele tivesse sorte poderia se manter ocupado até o começo da primavera com vários trabalhos de curto período, essa geralmente era a época em que ele mais ganhava e não poderia deixar de ficar preocupado se sua maior fonte de renda anual fosse prejudicada. Ele sempre ajudava as pessoas a arrumar carroças, carregar os produtos e nas duas últimas temporadas ele foi com o ferreiro para as cidades baixas, uma viagem de sete dias a pé, na qual ele havia ganhado mais do que em três meses fazendo pequenos trabalhos. Não era um valor alto, porém o suficiente.
— Não acredito que isso ocorra, a maioria dos artesãos e comerciantes esperam por essa época o ano inteiro e é também o momento em que a guarda real aumenta os impostos das cidades baixas de maneira exorbitante. Ocorreria uma rebelião contra a coroa se isso acontecesse. — O ferreiro Wesley suspirou enquanto amolava o fio de uma espada curta, qual hora ou outra ele passava em um pequeno pedaço de couro testando o corte. — Isso seria como acender uma fagulha em um curral cheio de palha, ninguém está realmente satisfeito com a família real e suas ações. Pensar em uma rebelião nas cidades baixas ou nas cidades fronteiriças não é algo sem sentido.
Noah concordou com as palavras do ferreiro, apesar de não entender muito sobre as questões da realeza ele os odiava assim como a maioria dos pobres e pequenos comerciantes. O imposto cobrado pela família real era alto demais, pois segundo eles estava sendo usado para suprir com armas e ferramentas necessárias para os soldados, já que afirmavam que uma guerra contra o país de Galees iria chegar a qualquer momento. Porém, assim como como qualquer outro, Noah sabia que a realidade não era essa. O dinheiro dos impostos que deveria ser investido em forças militares, estava sendo usado para suprir as necessidades supérfluas da família real. Como bailes exuberantes e banquetes abundantes nos quais montanhas e mais montanhas de alimentos eram jogados fora, diziam até mesmo que um criado de ramo baixo fora condenado à forca, acusado de roubo após tentar levar um pouco da comida que apodreceria a céu aberto para seus filhos. Seu corpo fora pendurado em um tronco na praça do centro comercial, uns dos lugares mais movimentados da capital, para mostrar a todos o que ocorreria se alguém tentasse qualquer coisa contra a coroa.
E havia orgias.
O príncipe herdeiro seguia o mesmo caminho do pai nesse quesito. Era muito comum ouvir os viajantes sussurrando sobre as grandes festas desinibidas no castelo, onde se você tivesse uma boa aparência e um patrocinar com um grande dote, poderia participar e se perder nos prazeres profanos da nobreza.
Diziam que assim como seu pai, o príncipe já cultivava uma ninhada de bastardos.
O segundo príncipe, mal era citado. No entanto, era comum escutar rumores de que ele na realidade era um ser divino ou então celestial que havia sido enviado para abençoar o reino com ações milagrosas. Todos que diziam ter o visto, falavam que sua aparência se assemelhava a de um anjo. No entanto, após mais de vinte anos e nenhum milagre, muitos plebeus começaram a pensar que a realeza poderia ter inventado toda essa história apenas para amenizar a raiva do povo devido suas ações sem escrúpulos.
Era uma família abominável e de certa forma a maioria dos cidadãos do reino esperavam silenciosamente por um golpe de estado, por mais que não admitissem.
— Sim... — Noah calou-se, pois, falar qualquer coisa que manchasse o nome já imundo da família real era visto como traição. Ele não era tão corajoso como o ferreiro Wesley para falar desse assunto tão casualmente, pois seria como uma sentença de morte se fosse escutado pela pessoa errada. Ele ouvira falar sobre pessoas que foram assassinadas pelos soldados de cargos baixos, eles eram isentos ao matar se achassem que tais pessoas poderiam trazer risco não apenas a coroa como para a nação.
Então, ser um soldado era a melhor forma de conseguir suborno, se você quisesse que alguém fosse morto, era fácil, teria apenas que contratar um soldado e ele iria se encarregar disso por você, alegando traição a punição seria a morte.
Eles eram tão podres quanto a realeza, pois nesse país não havia realmente alguém preocupado pela segurança do seu povo.
— Não se acanhe garoto, nessa porra de lugar não existe ninguém cego o bastante para apoiar aqueles bastardos sem vergonha. — O ferreiro Wesley largou a faca que afiava e bateu com o martelo no ferro quente que Noah lhe entregou. — Um dos viajantes disse que um grupo de rebeldes se reuniu em Icaias e falou que eles planejavam dominar as cidades fronteiriças da Zona Norte do país, acredito que o momento perfeito seria na temporada de vendas.
Noah suspirou, tudo que ele menos queria era se envolver ativamente com rebeldes contra a coroa. Ele gostava demais de seu pescoço para fazer algo assim.
No entanto, começar uma rebelião pela cidade de Icaias era arriscado, porém era a melhor opção para os rebeldes. Icaias era uma das maiores cidades fronteiriças do Reino de Arcais, fazendo divisa com o Reino de Draconis, localizada na Zona Norte do país, em uma região conhecida como cidades altas. Uma guerra poderia começar a qualquer momento contra Galees que fazia divisa com as cidades baixas da Zona Sul do país, sendo assim, se realmente ocorresse uma rebelião na Zona Norte de Arcais, não haveria como mandar um exército para contê-la, pois precisam de todas as forças militares disponíveis caso uma guerra se iniciasse. Era impensável mandar tropas para o outro lado do país para deter rebeldes.
Era uma boa jogada, arriscada, entretanto poderia funcionar. Se os rumores estiverem certos como todos acreditam, entre os rebeldes deveria haver membros do conselho real e nobres que conspiram contra a coroa almejando um golpe de estado. Fechar uma das maiores cidades fronteiriças poderia ser o começo de uma tomada de poder, o que motivaria mais e mais rebeldes a fecharem as cidades por dentro matando soldados e aumentando o território dominado. No final das contas também não seria tão difícil ter o apoio de uma frota militar de algum oficial de alto escalão que visava um golpe de estado, já que a lealdade à coroa era algo a ser questionado no Reino de Arcais. Noah não entendia muito sobre as questões militares, era analfabeta e quase tudo que sabia sempre vinha do que via e escutava de outras pessoas, principalmente dos forasteiros.
— É inevitável... — Noah observou quando o ferreiro voltou a falar, vendo a curiosidade presente nos olhos do garoto ele sorriu mostrando seus dentes amarelos — a guerra contra Galees sempre foi algo esperado, a anos que ela vem se prorrogando e isso apenas aprofunda ainda mais a inimizade entre nosso país e o país de Galees. Quanto à rebelião, nosso povo uma hora ou outra não mais irá querer se submeter a família real e suas ações abusivas.
— Eu entendo. — Noah disse enquanto mergulhava a extensão de uma pequena faca que forjava em um balde de ácido, ele ergueu e em seguida mergulhou-a na água. Seus olhos observavam com afinco a pequena faca, porém, seus pensamentos estavam distantes. Vendo a distração de Noah, o ferreiro Wesley voltou a bater contra o ferro na pedra de forja.
Noah compreendia que não havia forma de evitar o derramamento de sangue e que uma hora ou outra todos sentiriam na pele as consequências. E ele não queria se envolver em algo tão problemático assim, sua pequena e insignificante vida era muito preciosa para si mesmo, para jogá-la fora desse jeito.

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