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Feérico: O Príncipe Demônio e a Coroa de Sangue

Capítulo 5

Capítulo 5

Apr 09, 2023

 

Com certa descrença, Noah olhou para aquela criatura que de alguma forma havia aberto a porta e invadido seu velho casebre. O animal se encontrava encolhido no canto junto a pele do lobo cinzento que havia sido deixada sem cuidado algum por Noah logo pela manhã.

Noah sentiu um choque enorme ao retornar e encontrar a porta aberta, sua primeira reação havia sido agarrar a faca de caça e entrar sorrateiramente no casebre a procura do invasor. De início, nada parecia fora do lugar e não parecia haver um intruso, somente após ascender a velha lamparina ele escutou fracos ruídos dentro do casebre e assim encontrou aquele mesmo filhote de lobo que havia visto de manhã. Aquele que ele havia deixado para morrer de frio.

Apesar de tudo, Noah não conseguiu ferir o animal, toda vez que se aproximava tentando acertá-lo com sua faca de caça, algo o fazia parar. Talvez o fato de ainda ser um filhote, fizesse com que ele se sentisse impotente, mesmo que esse animal fosse maior que um filhote de lobo comum. Porém, ele tinha que dar um jeito naquela situação, esse lobo era com toda certeza um filhote da mesma espécie que havia atacado a casa de Maria e se crescesse, se tornaria igual a todas aquelas outras bestas.

Era uma situação horrível.

Aproveitando o fato do animal ainda se encontrar debilitado, ele agarrou a enorme pele do lobo cinzento e enrolou o corpo do filhote de lobo negro e passou a arrastá-lo para fora do casebre. Com sorte, o animal estaria morto ao amanhecer e Noah poderia aproveitar sua pele. Após deixar o animal nos fundos do casebre, Noah parou em frente a porta, usando a luz da lua para tentar descobrir como o animal havia entrado, não havia arrombamento e nem marcas de arranhões evidentes.

— Como? — Noah encostou levemente a mão na porta, uma ideia passou pela sua cabeça, porém ele não acreditou, na realidade ele não queria acreditar.

...

Noah desde cedo havia aprendido a se acostumar com as circunstâncias ao seu redor, ele sempre teve que se adequar ao ambiente para sobreviver. Suas recordações da infância e adolescência eram moldadas pela dolorosa fome e pelo intenso frio. Ele já havia roubado tantas vezes que já não era mais capaz de dizer quantas foram as ocasiões em que havia sido espancado quando pego. Não se arrependia, pois, não apenas precisava matar sua fome como também precisava alimentar seu pai, que naquela época já havia enlouquecido e não era capaz de pensar no seu próprio bem-estar ou no do seu filho. Noah também lembrava das brigas que tinha com as gangues de crianças que moravam nas ruas da cidade de Regor, sempre que ele conseguia algo para comer elas apareciam e tentavam roubar-lhe a pouca comida que tinha, sua fisionomia sempre havia sido pequena e magra, o que de certa forma o ajudava a fugir entre os becos e ruas movimentadas quando via que não seria capaz de ganhar contra as outras crianças fisicamente.

Foram longos anos vivendo uma vida como a de um animal acuado que a qualquer sinal de perigo fugiria para o mais longe que conseguisse. Apenas dez anos atrás, quando seu pai já completamente obcecado por vingança, veio a Gatria a procura de informações que pudessem ajudá-lo a concluí-la, foi onde Noah viu sua vida começar a caminhar a passos tímidos ao que poderia ser dias futuros melhores e pacíficos. Mesmo após a autodestruição de seu pai, ele não deixou o vilarejo, talvez por ainda acreditar nesses dias melhores que ainda poderiam chegar.

E, quando ele finalmente achava que tudo aquilo ficaria para trás e seu "eu" do presente finalmente poderia desfrutar de uma vida pacata, todos os seus devaneios de um futuro tranquilo, foram bruscamente levados para longe, como folhas secas arrastadas por uma ventania no outono.

Pois, após seu encontro com aquele animal ele teria tudo menos tranquilidade.

...

A criança o observava curiosamente, como se fosse a primeira vez que via uma criatura tão esquisita, O mesmo olhar estava presente nos olhos de Noah, porém sua expressão poderia ser mais caracterizada como terror.

E era exatamente assim que ele estava se sentindo naquele momento, aterrorizado.

Ao acordar naquela manhã, Noah sentiu algo estranho, quando finalmente abriu os olhos foi que descobriu de onde vinha tal sensação. Havia uma criança sentada na beirada de sua cama, balançando as perninhas curtas enquanto olhava Noah dormir. Ela parecia emburrada, no entanto ao ver os olhos dele se abrirem, sua expressão se suavizou.

No entanto o rosto de Noah se contorceu em horror ao notar que a criança se encontrava nua e a única coisa que tinha, era uma enorme pele do lobo cinza cobrindo seus ombros, seu corpo era branco como o de um cadáver o que contrastava com seu cabelo preto feito carvão e seus olhos azuis profundos, olhos esses que eram tão assustadores que faziam com que Noah não conseguisse olhá-los diretamente.

Sua boca se abriu, como se fosse gritar, no entanto não saiu som algum, ele também se viu incapaz de falar qualquer coisa. Enquanto a criança o olhava parecendo achar toda aquela situação engraçada.

Noah sabia o que era aquela criança, o que não o tranquilizava nem um pouco. Foi há mais de treze anos, que ele presenciou uma situação semelhante a aquela, onde uma daquelas bestas se transformou em uma figura humana e lhe tirou três pessoas importantes. Tantos anos tinham se passado que Noah já havia começado a duvidar de sua própria memória e passou a crer que era apenas uma alucinação criada pela dor da perda, pelo cansaço e estresse emocional.

No entanto, era inegável que existia uma daquelas bestas na sua frente e, o que era ainda mais aterrorizante, ela tinha uma aparência completamente humana, como uma inocente criança de tenra idade. Parecia até mesmo mais jovem que Liam.

O corpo de Noah agiu antes mesmo que seu cérebro conseguisse acompanhar todos aqueles acontecimentos, sua mão direita agarrou a faca de caça que estava em cima da mesa de pedra e golpeou o corpo a sua frente. Como se sentisse certo perigo, a criança pulou para longe, com uma agilidade impressionante.Durante esse processo, Noah sentia uma forte queimação começar em seu pescoço e se espalhar rapidamente por todo seu corpo o que o fez quase derrubar a faca que segurava, uma dor lancinante que se foi tão rapidamente quanto veio. Deixando-o brevemente desorientado.

— O que você está fazendo? — A voz era suave, como uma melodia doce. Noah piscou desnorteado, ao notar que era realmente a voz de uma criança. Diferente do que ele imaginava, o que saiu de sua boca não foram sons medonhos e guturais, mas sim a voz fina e fofa.

Noah parou, sentindo-se hesitante ao pensar em tentar outro golpe. Por mais que a criatura à sua frente pudesse sem não ser humana, ele era incapaz de matar uma criança. No entanto, a dúvida o atingiu naquele momento e se realmente fosse apenas uma criança?

— O que... o que diabos você quer? — Depois de muito tempo, Noah sentiu as palavras saírem de sua boca, ainda que seu tom não fosse certo e que as sílabas proferidas tremeram levemente, ele ainda tentou se manter firme diante aquela situação.

A criança pareceu não entender direito o que Noah queria dizer, então fez uma expressão pensativa antes de responder:

— Eu quero carne, estou com muita fome! — A mesma passou a mão em cima do estômago, sentindo-o dolorido, havia dias que não comia nada, era a primeira vez que aquela sensação de vazio o preenchia.

Noah encarou a situação com incredulidade, olhando para a figura à sua frente, ele não conseguiu captar qualquer tipo de fingimento.

Talvez independente da espécie, um filhote daquelas bestas poderia agir como uma criança normal? Ou seria ele uma criança normal?

Sem compreender direito a situação, ele calçou suas botas e relutantemente guardou sua faca em um lugar de fácil acesso. Ele não seria tão ingênuo a ponto de crer facilmente em suas próprias conclusões, ainda mais sem qualquer fundamento. Ele precisava verificar se o filhote de lobo ainda se encontrava no lugar que havia deixado na noite anterior

— Qual é o seu nome? — Noah olhou de soslaio para a criança, os dias estavam cada dia mais frios e vê-la nua, lhe causava uma agonia imensa. Começou a procurar alguma roupa velha no baú, para ela usar. Enquanto bolava mentalmente um plano para se livrar da mesma. Se fosse apenas uma criança perdida, poderia abandoná-la na igreja, as freiras iriam cuidar dela. No entanto, se fosse uma daquelas bestas, poderia deixá-la perto do rio, com sorte a mesma morreria ali. Esse último pensamento lhe trouxe uma estranha pontada dolorida na cabeça, na qual Noah ignorou, não era o momento para se importar com uma dor tão irrelevante.

Noah não era grande, na realidade, sua altura conseguia ser menor que a maioria dos homens do vilarejo possuía uma aparência desnutrida, no entanto o garoto que o olhava com curiosidade não parecia ter mais de nove anos de idade e seu corpo era consideravelmente franzino. Suas roupas não serviriam na criança e as roupas que usava na infância foram todas trocadas por comida, quando as mesmas ficaram pequenas.

— Algor, Algor Lumenegred — o garoto parecia bem animado ao falar seu sobrenome, como se estivesse muito orgulhoso do mesmo.

Algor? Noah, assim como a maioria dos habitantes daquele vilarejo, não tinha estudos, o máximo que ele sabia era escrever seu nome, fazer contas básicas e ele também era capaz de reconhecer algumas palavras simples. No entanto, mesmo com seu limitado conhecimento, ele sabia que Algor era um péssimo nome e que com certeza era considerado mau agouro pela maioria das pessoas. Já havia escutado diversas lendas sobre esse nome, não lembrava muito bem da maioria delas, porém uma ou outra haviam se tornado mais famosas entre o povo. Em uma delas, dizia-se que na capital, a milhares de anos um valente rei enfrentou um terrível demônio de gelo em uma luta até a morte, esse terrível demônio destruiu lavouras com intensas geadas e matou centenas com seu frio devastador. Após tantos anos atormentando o reino, o demônio finalmente foi derrotado pelo valente rei e antes da sua morte, praguejou e gritou amaldiçoando todas as criaturas vivas do reino. O nome desse demônio era Algor. Apesar de acreditarem que não passa de uma história inventada por algum bardo desocupado a muitos anos atrás, o nome acabou sendo visto como algo ruim para os moradores do reino, que de certa forma estava relacionado com suas dificuldades ao enfrentar o frio do inverno.

— E como você se chama?

— Noah — ao finalmente encontrar o que estava procurando, ele fechou o baú e entregou alguns trapos velhos para Algor, que olhou estranhamente para aquelas roupas que tinham um cheiro peculiar — vista, você irá morrer de frio se não usar nada além dessa pele.

O garoto obedientemente colocou as roupas, o mesmo fez uma expressão estranha ao vestir.

— Eu nunca usei nada assim antes, tem um cheiro estranho.

— É mofo, isso está guardado a anos. — Noah amarrou uma corda em volta da cintura de Algor, para que a calça não caísse, ele dobrou a barra da calça e as mangas da blusa, ele não tinha nenhuma bota sobrando, então com alguns pedaços de trapos ele enrolou os pés do garoto e amarrou. Quando ele pegou a pele do lobo cinzento, ele se perguntou se Algor não se sentiria incomodado em usar a pele do que provavelmente poderia ser um dos da sua espécie para envolver em seu corpo. No entanto, ao lembrar de que o mesmo já havia enrolado a pele em si mesmo anteriormente, o fez deixar essa questão de lado.

Pegando sua faca, ele fez dois buracos pequenos na pele e amarrou duas pequenas tiras de cordas, em seguida envolveu o ombro do garoto e atou as duas extremidades.

— Você sabe como voltar para casa? Ou sabe onde seus parentes ou companheiros podem estar? — Noah esperava que sim, queria mandar o garoto embora o mais rápido possível. Estava estranhando suas próprias atitudes, sentisse levemente influenciado por aquela criança, como se o que estivesse fazendo ou pensando não fosse realmente suas próprias vontades o que lhe dava calafrios.

Algor balançou a cabeça negativamente.

— Eu estava dormindo em casa quando eles começaram a quebrar tudo, papai não estava, então eles foram muito barulhentos, eles sempre são assim quando papai não está — ele riu — eles me pegaram e me levaram para um lugar estranho, os guardas vieram atrás e lutaram com os homens malvados, como sou muito esperto, eu consegui fugir.

Noah olhou para o garoto com uma expressão horrorizada. Ele havia sido sequestrado?

— Você não está com medo? Digo de não conseguir voltar?

— Não, papai sempre me encontra, às vezes demora um pouquinho, mas ele sempre me acha e fala que sou muito corajoso.

Noah apenas concordou com a cabeça, no entanto sua mente procurava uma forma de dar um jeito naquela situação, tudo o que ele menos queria era se encontrar com outras bestas. Ele tinha muitas perguntas, no entanto não sabia se gostaria das respostas que conseguiria. Então, no momento, decidiu que ficar calado era a melhor opção.

Ele pensaria em uma solução o mais rápido possível, naquele momento ele só pensava em se livrar do garoto. Noah não tinha coragem de matá-lo, no entanto se Algor não estivesse por perto, e algo acontecesse com o mesmo, não seria problema dele.

Deixando aquilo de lado, Noah saiu do casebre, aproveitando que não nevava ele percorreu o caminho que o levava para os fundos e preparou uma fogueira, onde faria uma sopa com o que restou do coelho que havia caçado, enquanto procurava uma brecha para verificar se o corpo do filhote se encontrava onde ele havia deixado na noite anterior.

Algor o seguia como um carrapato, parecendo ter grande interesse em suas ações.


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Anaa Isa

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