Liam chorou todas as noites após a morte de sua irmã mais velha.
Se encolhia em meio de algumas velhas cobertas no pequeno quartinho cedido pela igreja, onde dividia o espaço com seu pai e mais três homens. Dois andarilhos e um morador local que teve o teto de sua casa destruído por uma árvore, que desabou durante uma grande ventania há dois meses, era velho e não possuía parentes e vendo que o homem possivelmente morreria de fome ou frio o padre resolveu acolhê-lo na igreja. Durante as noites que passou naquele lugar úmido e frio, ouvindo o som dos ratos correndo de um lado para o outro entre o feno que cobria o chão, Liam sentiu saudade dos braços de Maria que o acalentava durante as noites mais frias, enquanto lhe contava histórias antes de dormir.
Foi a primeira vez que Liam sentiu tanto frio, um frio que ia além da pele, parecendo atingir até mesmo seu coração.
Seu pai dificilmente ficava naquele quartinho apertado com um forte cheiro de mofo e mijo, durante sua estadia, Liam sempre o via se levantar silenciosamente em algum momento da madrugada e sair pela porta desgastada, voltando somente na tarde seguinte. Após dois dias de seu alojamento na igreja, ele finalmente cedeu à curiosidade que lhe preenchia e perguntou a seu pai para onde ele estava indo durante as noites.
— Eu... irei caçar!
A resposta não preencheu a curiosidade de Liam, no entanto como ainda era uma criança incapaz de compreender muitas coisas da vida, também não foi capaz de notar o cansaço presente nos olhos de seu pai e o desgaste em sua voz.
Quando sua mãe morreu devido a uma praga, ele era muito novo para entender o que significava perder alguém, então ele esperou. Esperou por dias junto a Maria, que se debulhava em lágrimas toda vez que ele pedia por sua mãe. Com o passar dos meses ele pareceu perceber que talvez sua mãe já não fosse mais voltar. No entanto, ele finalmente compreendia a estranha sensação de perder alguém a qual ama, a ponto de se sentir doente e o fato de ele compreender que já não mais seria capaz de ver Maria, fazia com que aquela dor em seu peito aumentasse a ponto de ele ter uma forte ânsia de vômito.
Mais um dia havia se passado e seu pai novamente saiu durante a noite, Liam pensou em segui-lo, no entanto, desistiu ao não encontrar nada além da escuridão quando tentou sair furtivamente da igreja. Seu pai já havia desaparecido entre as ruas tomadas pelo breu. Agora, era apenas capaz de esperá-lo enquanto observava o padre rezando a missa. Procurou por Noah entre os moradores, ele dificilmente participava das missas, no entanto, por algum motivo queria que ele estivesse ali naquela manhã. Mas, nenhum sinal de Noah foi visto. Quando seus olhos passaram pelos primeiros bancos de madeira, conseguiu ver a senhora Vulnere e Elisa, Thomas não estava com elas.
— Soube que Theodor saiu novamente para caçar nessa madrugada — uma voz sussurrou levemente no banco de trás, não temendo ser ouvida por Liam, pois, era um assunto falado por todos no vilarejo — sinto que ele está agindo como um tolo.
— Deixe-o, não há nada que possa ser feito a essa altura — a outra voz sussurrou de volta com pesar. — Ele ainda está lidando com o luto de sua maneira, assim que a dor estiver amenizada ele irá perceber que suas atitudes não são apropriadas.
Liam virou a cabeça, para tentar escutar melhor o que aquelas duas pessoas falavam sobre seu pai.
— Não se trata apenas do luto, esse homem está enlouquecendo — a primeira pessoa se alterou, ao perceber que sua voz havia saído mais alto que desejava voltou a sussurrar — não, na realidade há boatos que esse homem está amaldiçoado...
— Não diga besteiras — disse rapidamente o segundo, olhando para os lados com um olhar levemente assustado. — Não fale essas coisas em voz alta.
Liam virou-se para trás seus olhos carregados de amargura, todos falavam de seu pai, que estava louco, que havia sido amaldiçoado e que já não tinha salvação.
As duas pessoas se silenciaram ao notar que Liam os encarava de uma forma tão intensa.
— Não falem mal do meu pai — sussurrou tão fracamente que nenhuma daquelas duas pessoas foi capaz de compreender suas palavras.
Ele não queria mais ouvir, não aquelas palavras desagradáveis. Agarrando firmemente a adaga que Noah lhe dera, qual Liam via-se incapaz de deixar longe de si, principalmente após as palavras ditas pelo mais velho. Naquele momento, sentia uma onda de tristeza lhe afligir, pois já não tinha Maria para escutar suas lamúrias e lamentações. Liam esperou pacientemente até o fim da missa, após a finalização do padre, ele silenciosamente andou entre as pessoas que voltavam para suas casas e desapareceu entre as ruas cobertas por neve.

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