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Feérico: O Príncipe Demônio e a Coroa de Sangue

Capítulo 7 - Parte 2

Capítulo 7 - Parte 2

Apr 09, 2023

•••

Liam puxou um enorme galho de árvore que havia caído perto da cerca. Sentiu suas mãos dormentes conforme arrastava o galho para longe. Não havia caído de maneira natural, era possível ver as enormes marcas de garras na madeira. Ele lembrou-se então que, quando havia saído com seu pai, indo para a igreja, o galho ainda estava pendurado na árvore de forma precária.

Mas agora havia caído… 

Ele olhou para a cerca destruída, em seguida para a parede do casebre, na qual um enorme buraco havia sido aberto e seu olhar se reteve na sepultura de Maria ao lado de onde sua mãe dormia a anos. Liam sentiu uma enorme vontade de virar-se e correr para longe, apesar de ter passado sua vida inteira naquele casebre, não havia nada ali, nada que era precioso além das memórias ternas que carregava, no entanto, tantas coisas dolorosas haviam se iniciado naquele local. Por um momento ele se arrependeu de ter voltado, pois isso fez com que ele se sentisse ainda mais...

Sozinho

Ele perguntou para si mesmo se era assim que Noah se sentia, se aquela solidão o preenchia ao ponto de machucar.

Liam era apenas uma criança, com seus nove anos que ainda não compreendia muitas coisas, porém, agora era capaz de entender que a solidão era desesperadora.

Ele queria ver seu pai, abraçá-lo em busca de conforto.

No entanto, mesmo se voltasse para aquela igreja velha, a única coisa que o esperaria seriam aqueles olhos repletos de pena que o seguiam por onde quer que fosse e assim que ele estivesse longe ou ao menos em uma distância que aqueles moradores achavam que ele não seria mais capaz de ouvir, iriam começar a fofocar sobre seu pai e sua aparente deturpação.

Ele odiava tudo aquilo.

Remexendo nas coisas de Maria, encontrou um pedaço de pano delicadamente bordado com pequenas flores azuis e rosas, haviam pequenas letras trêmulas e uma linha solta, o que indicava que o bordado não havia sido finalizado. Maria não sabia ler nem escrever, assim como a maioria dos moradores do vilarejo, então ela havia pedido ao padre que lhe mostrasse como escrevia o nome de Liam, de seu pai, Noah e Thomas, pois, ela iria bordar um lenço para cada um deles.

As pessoas mais importantes de sua vida.

Voltando a remexer nas coisas de sua irmã, Liam encontrou outros três lenços, delicadamente dobrados. O tecido não era bom, como as roupas que a madame Vivianne usava, era um pouco grosso e duro, no entanto foi o melhor tecido que Maria havia conseguido comprar com o dinheiro que economizou em seu trabalho.

Lembranças recentes inundaram sua mente como uma avalanche.

— Maria, o que você está fazendo? — Ele perguntou com curiosidade ao ver sua irmã andando de um lado para o outro parecendo ansiosa.

Maria parou, olhando para Liam de maneira pensativa. Um sorriso se abriu em seu rosto antes preocupado.

— Liam, acho que isso pode dar certo!

Ele piscou, não compreendendo ao certo o que Maria queria dizer.

— Como assim?

— Noah irá para as cidades baixas novamente esse ano, se eu conseguir fazer algumas pulseiras com as contas de sementes que pegamos na primavera e bordar alguns panos e enfeitá-los, ele poderá levar consigo e vendê-los na feira.

Ela abriu o pequeno baú ao pé da cama, onde guardava seus materiais de costuras e tudo que poderia usar para fazer artesanato.

— Mas Maria — Liam hesitou por um momento, era sempre assim, sua irmã mais velha estava sempre ocupada tentando ajudar seu pai a dar uma vida mais confortável para os três. — Você já está bordando lenços e ajudando na igreja, tem certeza que vai conseguir fazer tudo isso antes da feira?

Liam queria crescer logo, assim poderia ajudar seu pai e Noah na caçada, ou mesmo aprender com Thomas como ajudar pessoas doentes. Maria não o deixava costurar, pois, da última vez que tentou acabou perfurando seus dedos inúmeras vezes com a agulha. A única coisa que podia fazer era catar galhos na floresta para serem usados como lenha e ervas para o pai de Thomas.

Maria sorriu.

— Bobagem, posso perfeitamente dar conta disso, ainda faltam muitos dias para a temporada de vendas — o inverno havia começado há pouco menos de um mês e a temporada de vendas geralmente ocorria no meio da estação — se bem que não tenho tantas contas. Pedirei a Thomas as sementes das frutas que usam na loja, eles geralmente jogam tudo fora.

Maria sempre estava sorrindo, mesmo quando seus olhos estavam vermelhos pelas lágrimas que se recusava deixar cair, era como se qualquer fraqueza que demonstrasse fosse fazer com que todo seu esforço desmoronasse. Apesar de já ter completado dezenove anos de idade, ainda não havia encontrado um prometido. Theodor, na época, vendo que sua filha já havia completado dezessete anos e que a mesma se recusava a encontrar um marido, decidiu mentir a idade da filha, adiando ao máximo o dia de seu compromisso com algum rapaz sem prejudicar a imagem de Maria. Porém, mesmo se passando dois anos, não havia sinais de que ela desejasse se casar.

No entanto, o que ninguém sabia era que Maria a muito tempo estava completamente apaixonada por alguém e que sabia que esse amor certamente não era correspondido. Mas, ela sempre foi uma garota com uma personalidade forte e mesmo que a resposta que recebesse de seus sentimentos fosse negativa ela ainda queria se confessar para a pessoa que amava, sempre dizendo a si mesma que estava apenas esperando o momento certo.

— Liam — a voz de Maria chamou calmamente, estendendo um dos lenços que havia tirado do baú, o bordado era simples com pequenas folhas e flores azuis, havia algo escrito de forma inconsistente, pequenas letras trêmulas que formavam um nome. — Finalmente terminei um dos lenços. Esse é para o Noah, acha que ele irá gostar?

Liam sorriu.

— Ele vai ficar muito feliz.

Maria sorriu, parecendo ligeiramente tímida.

— Espero que sim. — A voz soou baixa, quase como um murmúrio, Liam não havia sido capaz de entender o que ela queria dizer, então ignorou essas palavras.

— Você vai entregar para ele hoje? Acho que ele está caçando com o papai, vi os dois saindo juntos logo pela manhã — Liam falou ao se lembrar de vê-los partir ao nascer do sol. — O senhor João me disse ontem, que Noah havia prometido ajudá-lo cortar lenha hoje no período da tarde.

Maria riu.

— Não, irei terminar todos primeiro e depois darei um para cada. — Ela sorriu passando a mão pelo cabelo emaranhado de seu irmão. — Creio que Noah se sinta muito infeliz em prometer ajudar o senhor João com a lenha, ele odeia usar o machado no inverno, suas mãos enchem de farpas e ficam doloridas por vários dias.

— Eu não reclamaria se me deixassem cortar lenha. — Liam sorriu presunçoso. — Eu cortaria muita lenha e seria o suficiente para durar até o próximo inverno.

Sua irmã negou fracamente com a cabeça enquanto seu rosto ainda carregava um sorriso terno.

— Aposto que sim, meu irmãozinho é muito forte, fico muito feliz em poder confiar nele.

Liam ficou tímido, sua irmã sempre o elogiava de maneira vergonhosa.

— Eu já não sou um bebê! Não me trate como um...

Dessa vez Maria não aguentou e acabou rindo alto.

— Sim, sim, não irei mais tratar meu homenzinho como um bebê. Veja só como ele está grande, sinto que logo, logo estará tão grande como o papai. — Ela colocou uma das mãos na altura do joelho para simular o tamanho de Liam. — Há tão pouco tempo atrás você era desse tamanhinho, mal sabia andar e ficava o tempo todo chamando sua querida "Malia" enquanto pedia por colo.

Liam tapou as orelhas com a mão e correu para longe de sua irmã, seu rosto ficou vermelho como um tomate.

— Você sempre diz coisas tão vergonhosas.

Ele apertou fortemente os lenços que tinha em mãos. Por mais felizes que suas lembranças de Maria fossem, apenas conseguia sentir um desconforto em seu coração e uma imensa vontade de chorar.

Olhando fixamente para os lenços que tinha em mãos, desamassou-os com cuidado e os guardou em sua roupa como um amuleto precioso.

Virando as costas para tudo aquilo, Liam correu adentrando a floresta sem olhar para trás, querendo nunca mais retornar para aquele lugar repleto de lembranças ternas com sua família, qual nunca mais seria a mesma.

•••

Havia um corpo sobre a neve. Era grande como o de um homem adulto, não, na realidade era maior que o de qualquer habitante daquele vilarejo, maior que qualquer homem que Liam já havia visto em toda sua curta vida.

Aquele enorme homem estava estirado na neve como um cadáver coberto por uma camada de neve, o que indicava que ele estava ali sem se mover a pelo menos um dia inteiro.

Movido pela curiosidade, Liam afastou a neve de seu rosto revelando uma figura estranha. A pele não era branca como a dos nobres ou dos ricos que usavam maquiagem e quase nunca pegavam sol, no entanto também não era escura como a dos plebeus que trabalhavam debaixo do sol ardente, os mais jovens bronzeados em um tom que lembrava o trigo na época da colheita e os mais velhos com suas peles já duras e ressecadas lembrando os jarros de barros velhos e desgastados. O tom de pele desse homem era levemente azulado. Não era tão intenso como a cor do céu, mas Liam achou estranhamente agradável, como flores. Lembrava vagamente as hortênsias que Thomas sempre dava a Maria, um tom branco azulado. Uma cor que ele nunca havia visto antes em sua vida.

— É tão bonito.

E realmente era, se ignorasse o tapa olho preto que cobria a parte esquerda de seu rosto, aquela figura se tornava ainda mais agradável de olhar.

Liam afastou a neve em volta da cabeça daquele homem, revelando seu cabelo que era tão longo quanto o das mulheres do vilarejo, no entanto o cabelo dele possuía uma cor tão vermelha e vibrante como a de uma maçã madura.

Pela primeira vez desde o incidente que havia causado a morte de Maria, Liam sorriu, mesmo que fracamente. Após encontrar uma pessoa tão estranha, sua curiosidade infantil havia sido completamente despertada.

Segurando as longas pernas daquele homem, Liam tentou arrastá-lo em direção ao vilarejo. Após sair de sua casa, ele adentrou a floresta na direção oposta do vilarejo e agora ao tentar arrastar esse homem enorme e pesado ele notou que seria impossível percorrer aquela distância. Mesmo que fosse sozinho ele demoraria um bom tempo para chegar na igreja, em seu pensamento arrastar esse homem poderia levar uma eternidade isso se ele conseguisse movê-lo.

Exausto após minutos de tentativas nas quais não obteve sucesso, ele largou as grandes pernas e sentou-se ao lado do corpo, que até agora não havia dado nenhum sinal de vida.

Ele pensou em chamar Thomas para dar uma olhada, talvez ele conseguisse curá-lo. Olhando para aquela pessoa inconsciente, Liam se perguntou se deveria ou não fazer isso, no entanto seu raciocínio se perdeu ao notar que o homem vestia uma roupa parecida com a dos nobres, havia tantos metais e pedras que mesmo o tecido da camisa estando rasgado na parte do abdômen não deixava de ser chamativo. Mesmo a capa preta que usava, tinha diversas correntes metálicas penduradas com inúmeras pedrinhas coloridas. Eram diferentes das quais ele achava no rio, brilhavam como pequenas luzes fluorescentes.

— Suas roupas são engraçadas!

Liam olhou para o céu coberto por uma camada cinza, sua barriga roncou alto lembrando-o da hora do almoço. Ele tinha que voltar, talvez conseguisse trazer um pouco da sopa da igreja para o homem comer.

Antes de voltar ao vilarejo, com dificuldade, tentou puxar o grande corpo para perto de uma moita e arrancou alguns galhos de árvores para tentar encobri-lo e ao se sentir satisfeito com o trabalho feito, percorreu o caminho de volta.


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