Thomas suspirou.
Ivan o observava atentamente, seguindo todos seus movimentos com os olhos. Irritado com essa desconfiança desnecessária ele forçou o pano úmido que tinha em suas mãos sobre o ferimento com mais força do que o necessário.
— Ai!
— Desculpe. — Thomas encarou o homem à sua frente, que até então apenas havia visto de olhos fechados e sinceramente não tinha esperanças que fosse voltar a abrir os olhos. Sua aparência estava muito conservada para ser um plebeu, não havia manchas de sol, marcas de doenças ou cicatrizes em seu corpo como a maioria dos homens que Thomas conhecia, não havia calos em sua mão o que indicava que nunca havia feito trabalhos pesados. Tirando as feridas recentes, não tinha nem mesmo marcas feridas antigas além de uma bem pequena perto do coração, sendo a única que Thomas encontrou ao revisar seu corpo.
Era um nobre.
Obviamente sua posição não deveria ser simples, até mesmo sua aparência se diferenciava dos comerciantes abastados e nobres em posições mais baixas. Seu cabelo loiro era tão claro que parecia o de um idoso, apesar de não parecer ter chegado aos trinta, os olhos eram como cristais azuis, brilhantes, no entanto, eram tão frios que Thomas se perguntou se aquele homem poderia estar fingindo estar debilitado o que na realidade seria impossível.
Thomas pensou em Ivan, muito mais alto que qualquer pessoa comum e com uma força absurda. Dificilmente ele acreditaria que aquele homem era apenas um camponês. Na primeira vez em que o examinou ele notou que Ivan possuía as mãos calejadas, no entanto, não era como os calos feitos pelo uso do machado ou da enxada e sim calos causados pelo uso de uma espada, não eram muito evidentes o que indicava que talvez usasse luvas para praticar. Apesar de ter a pele bronzeada, não estava ressecada e nem apresentava sinais deixados por doenças comuns entre os plebeus.
Ivan era possivelmente um cavaleiro, talvez filho de um Barão ou até mesmo um Visconde. O que apenas confirma sua especulação de que o homem de cabelos claros era alguém importante, pois, por qual outro motivo Ivan iria o proteger de tal maneira?
Ele não disse nada, apenas continuou a examinar o homem à sua frente, apesar de ter acordado, ainda estava muito fraco e mal conseguia se mexer ou falar. No entanto, seus olhos encaravam tudo com uma frieza incomoda.
— Comparado com quando encontrei vocês, três dias atrás, sua condição está melhor. — Após limpar o local ferido e aplicar o unguento, ele voltou a cobrir o corpo do homem loiro. — Se tivermos sorte, você irá sobreviver!
O homem sorriu fracamente, o que quase fez Thomas desviar o olhar. Apesar de ter acordado, aquele homem estava tão branco quanto um cadáver e seus lábios estavam azulados pelo frio. Sua aparência era bonita, no entanto, seu aspecto moribundo o deixava desconfortável. Ele realmente não esperava que ele fosse acordar;
Ivan aproximou-se dos dois, parando ao lado de seu companheiro.
— Desculpe....
Thomas não entendeu a princípio, no entanto ao ver o homem loiro sorrir fracamente como se dissesse que tudo estava bem. Ele notou que era um assunto particular, não querendo se intrometer nas questões privadas de outros, até porque tinha seus próprios problemas para superar, resolveu se afastar dos dois.
Ele se sentia cansado demais, queria apenas se trancar em algum lugar e chorar até não haver mais lágrimas e depois hibernar como um urso durante todo o inverno, pois já não tinha ânimo para mais nada. No entanto, a única coisa que fez foi se encostar na parede de madeira úmida e descansar a cabeça sobre o joelho, fechando os olhos ele passou a lembrar do quão tolo havia sido durante sua vida. Em sua cabeça, há muito tempo havia planejado seu casamento com Maria, imaginou se teria filhos e quantos seriam, iriam morar na casa que era de seus avós, até Thomas conseguir um emprego em alguma cidade grande e juntamente a sua família se iriam se estabelecer ali.
Se sentiu um tolo por imaginar que poderia desfrutar de uma vida assim.
— Você está bem?
Thomas sorriu, mesmo que fracamente.
— Você está preocupado comigo?
— Se quiser achar que sim, não irei desmentir.
— Que considerado da sua parte. — Suspirando ele olhou para Ivan, não conseguindo mais esboçar um sorriso. — São apenas problemas... pessoais. Não se preocupe com isso.
Ivan se calou, não se importando mais com o assunto. Sentando ao lado de Thomas ele passou a observar seu companheiro atentamente, mostrando um leve traço de ternura, que desapareceu tão rápido quanto veio ao voltar a encarar Thomas.
— Quanto tempo você acha que deve demorar para que seu estado se estabilize? Ou o suficiente para que ele aguente alguns dias de viagem?
Thomas quis rir com essas perguntas.
"Dificilmente sei dizer se ele sobreviverá estando imóvel, quem dirá aguentar uma longa viagem? Só o fato desse moribundo ainda estar vivo é um milagre!"
— É difícil dizer, no entanto pode demorar algumas semanas até que se estabilize.
Ivan não respondeu, sua expressão se contraiu, parecendo ficar enraivecido com as palavras de Thomas. Essa expressão logo sumiu quando voltou a encarar o homem que havia voltado a dormir, suspirando fracamente ele voltou a ignorar Thomas.

Comments (0)
See all