No dia seguinte, Mine e Lydia estavam acabados.
Enquanto Mine sentia uma terrível dor nas costas – especificamente na região lombar –, Lydia lutava para permanecer acordada.
Para a sorte da professora de Herbologia, ela não tinha aulas naquele dia terribilíssimo, mas ainda teria que cuidar de algumas plantas que surpreendentemente chegaram naquela manhã ao Centro de Herbologia. O professor de Mana Puro, entretanto, tinha só mais duas aulas depois do tal duelo, mas seu cansaço estava tão pesado que ele começava a se sentir em algum videoclipe do Jack Stauber ou alguma coisa assim.
Ora tudo girava e ora ficava embaçado.
Entre tropeços e piscadas bem espaçadas, Mine caminhou até a Praça Central. Apesar do cansaço, seu orgulho falava mais alto para ele ganhar aquele bendito duelo a qualquer custo.
O dia estava calmo e o vento agradabilíssimo bagunçava os cabelos soltos de Mine, bem como suas roupas na medida que ele se aproximava da arena. Uma rajada forte de vento fez com que seus passos diminuíssem de velocidade e, cobrindo o rosto com uma das mãos, folhas secas esbarraram nele.
Quando a ventania cessou, Mine ergueu seu rosto em direção ao sol. O calor fazia sua pele pinicar, mas logo a sensação gradualmente sessou com outra rajada de vento que esvoaçou suas vestes e desamarrou seus cabelos.
Mine sentia-se bem... cansado. Isso era inegável.
Sentindo um peso irresistível nos olhos, ele piscou lentamente. Quando seus olhos abriram novamente, de alguma forma ele havia sido teletransportado para a sala comum dos professores no prédio da Administração Principal.
– Hein? – escapou dos lábios de Mine, que não parava de olhar aos seus arredores. Ele estava confuso e letárgico, mas aquela mudança repentina fez com que seu coração bombeasse adrenalina suficiente para que suas pesadas pernas se movessem.
Quando ele tentou se levantar, Mine percebeu que o casaco de alguém o cobria por completo. Era pesado, mas macio e cheirava muito bem. Notas de Ylang Ylang misturado com um toque de Musk e-
Mine não tinha tempo para tais devaneios.
Ele logo começou a olhar em volta, se perguntando como que um simples piscar de olhos conseguia fazer tal mudança.
Um fio de cabelo desgrenhado fez cócegas na testa de Mine que levou uma mão para sua testa. Quando seus dedos deslizaram na pele, ele sentiu uma dor aguda e um inchaço que apareceu do nada!
– Ai... – Mine esfregou o machucado levemente.
– Você acordou – uma voz profunda e irritadiça se aproximou dele. Mine mal teve tempo de raciocinar e uma mão havia apoiado em seu queixo e outra examinava sua cabeça.
Mine conseguia sentir o mesmo cheiro agradável das vestes vindo daquela pessoa de silhueta familiar.
– Tsk, – a pessoa estalou a língua – Deite-se e descanse. Te acordo depois – aquele sujeito familiar lhe ajudou a deitar, cobrindo-o com aquele mesmo casaco enquanto um par de olhos heterocromáticos luminescentes o fitavam em feixes amenos.
Mine apertou os olhos e esfregou o machucado novamente. Se sua visão não estivesse errada, aquele ali era... – Addai?
De novo. Esse sujeito de novo.
Será que só existia ele na universidade inteira?
Addai, incomodado, resmungou, nem afirmando e nem negando. Apenas demonstrou seu incômodo usual.
– Só estou retribuindo o favor, já que você me ajudou com os livros – Addai aproximou um algodão embebido de algo que ardia bem em cima do galo na testa de Mine. O toque ardeu, mas Addai não hesitou em continuar a passar o remédio. Quando ele terminou, um sorriso leve e provocador permeou seus lábios e covinhas. Mine já sabia que vinha bomba daí e, realmente, veio – Ah, e nada de lixo no chão, né? – provocou.
Mine fingiu não ouvir a última frase e suspirou fundo.
– Você é uma raposa bem astuta... – Mine fechou os olhos, sentindo o cansaço invadi-lo como tsunami, mas a testa latejante dificultou seu sono.
Addai apertou os lábios em desaprovação e estalou a língua novamente. – Seu ego gigantesco não foi afetado pela queda, mas sua cabeça foi – deu mais uma resmungada e estendeu a mão, colocando-a em cima da testa de Mine.
Sua mão era quente e surpreendentemente delicada, contrastando com a indelicadeza de suas palavras ácidas. Na verdade, todas as ações de Addai estavam sendo bem diferentes do usual. Não que Mine estivesse reclamando, lógico que não, mas... isso era, no mínimo, bem intrigante.
– Por que... você está fazendo isso? – Mine perguntou, fitando Addai com olhos sonolentos.
Addai mastigou o que quer que tivesse rascunhado para falar e resmungou – Eu já disse o porquê.
Mine levemente ergueu sua mão para tocar na de Addai em sua testa e, já delirando de sono, acomodou-a em sua bochecha – Obrigado – disse antes de embarcar no trem do sono.
Uma quantidade de tempo indeterminada havia passado e Mine só acordou porque um fio de baba escorreu por sua bochecha e alguém havia acabado de enxugá-lo. O toque de uma toalha áspera junto a inúmeras chamadas para acordar foi o suficiente para que Mine acordasse resmungando.
– O que foi? – Mine perguntou entre resmungos.
E quem ainda estava lá era ele: Addai.
– Tá melhor? – Addai perguntou, colocando o pano úmido ao lado e deixando que uma de suas presas aparecesse em seu sorriso provocativo.
Mine piscou algumas vezes e rezingou mais outras: — Sim… — resmungou, cobrindo a cara com suas mãos.
Talvez cinco minutinhos a mais seriam perfeitos...
– Que bom – Addai disse, levantando-se. – Minha aula está prestes a começar e tratei do seu ferimento na cabeça. Você não deve mais sentir dor por hoje – explicou, já com sua mochila em seus ombros.
– E o nosso duelo? – Mine perguntou, confuso.
– Nah, esquece isso – Addai abanou a mão e girou a maçaneta da porta. – Ah, tem uma coisa pra você na geladeira.
Antes que Mine pudesse sequer perguntar o que seria, Addai já tinha fechado a porta. Então, ele levantou-se e dobrou cuidadosamente o casaco que o cobria, colocando-o em cima da mesa com um pequeno origami de estrela em cima.
Apesar de o comportamento de Addai ser um tanto incomum, Mine decidiu não pensar muito sobre isso e, em vez disso, dirigiu-se para a geladeira. Ao abri-la, encontrou uma fatia de bolo de morango à qual ele não iria resistir a dar uma bela garfada.
Aceitando a gentileza de seu colega, Mine sentou-se e saboreou cada pedaço da sobremesa perfeitamente feita.
Tudo o que havia acontecido era... estranho. Estaria ele ainda sonhando?
– Você é um saco, sabia? – Addai colocou Mine desmaiado no sofá como se fosse um saco pesado de batatas.
Mine havia desmaiado repentinamente no meio da Praça Central da Universidade e, por sorte, Addai estava passando ali por perto e presenciou a cena. Não deu tempo de impedi-lo de atingir o chão com tamanha brutalidade, mas ele conseguiu evitar que mais estrago fosse feito. No meio da pequena comoção de alunos e professores, Addai carregou Mine em seus braços e disse que iria levá-lo para descansar.
Bom, a missão estava cumprida, então...
– Vou indo – Addai disse e girou a maçaneta.
Quando seus pés pisaram no primeiro piso fora da sala, a voz de Mine ressoou naquela sala quieta.
– Hm... não... não rouba meu pudim... – Mine protestou enquanto dormia.
Addai conteve a risada que cobriu o seu amargor usual e não percebeu quando uma sombra se aproximou de seu tutor adormecido. Ao ver a tal sombra, seus olhos arregalaram e ele disse para a sombra deixar Mine em paz, mas aquela figura sombria era um tanto teimosa.
– Umbra... – Addai chamou a figura que se transformou num gato preto de pelos longos e bem felpudos. Vencido, Addai suspirou: — Tá bem... você pode ficar aí — resmungou e fechou a porta atrás de si.
De frente para o seu tutor adormecido, Addai cutucou sua bochecha e se inclinou para ver se ele realmente estava dormindo. De fato, Mine dormia profundamente.
Umbra subiu no peito do “belo adormecido” e aninhou-se ali. Não demorou nem cinco segundos e ela começou a ronronar.
– Não acredito – Addai fitou sua gata, embasbacado. – Você gostou dele?!
– Miau – Umbra miou baixinho, amassando pãozinho no peito de Mine.
Addai colocou a mão na cara e suspirou profundamente. Quem diria que sua gata ia forçá-lo a tratar dos ferimentos de Mine?
– Por que você fez isso? Você devia ter visto o som que sua cachola fez no chão – Addai cutucou a bochecha de Mine, que logo soltou um belo de um ronco que até assustou Umbra. – Pfffff... tá bem, tá bem... deixe-me ver sua testa.
Addai riu baixinho e Umbra pulou em seu ombro, incorporando-se na sombra de seu dono. Ele afastou a franja de Mine para ver o galo roxo que já estava ali e deslizou seus dedos sob o machucado. Sua outra mão repousou na bochecha de Mine para virar seu rosto e examinar melhor o galo que já estava se formando.
– Hm... Isso deve doer... – Addai murmurou, massageando levemente os arredores do galo.
Quando ele menos esperava, Mine se aninhou em sua mão, compartilhando um pouco mais de calor, e um sorriso leve esboçou em seus lábios.
Addai corou e seus olhos arregalaram de surpresa, mas suas mãos não saíram dali.
– Tsk, bobagem – Addai franziu a testa e continuou a massagear o machucado, ignorando o quão rápido seus batimentos cardíacos estavam.

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