“Isso não vai acabar bem...”
“De novo com esses truques? Ele vai causar problemas.”
“Quem deixou ele mexer com essas coisas perigosas?”
Os murmúrios entre os néfos mais velhos ecoavam ao meu redor enquanto eu preparava minha experiência com magia. Meu coração batia forte de excitação, ignorando as críticas. Eu sabia que aquilo ia ser incrível. Me virei para Evelyn, que me observava com seus olhos ansiosos, pronta para ver o espetáculo que eu havia prometido.
“Um, dois… três!” gritei, jogando a mistura de borato de sódio e cloreto de cobre dos fios que lancei no sal, desencadeando uma reação dos produtos químicos usando um pedaço de cristal da gruta para facilitar o processo.
Com uma piscadela confiante para minha irmã, arremessei a pequena bolsa com os materiais o mais alto que consegui. Ao manipular a Energia Primordial, forcei uma reação química que explodiu em cores brilhantes pelo céu. Faíscas verdes e azuis dançavam, iluminando tudo ao redor em um espetáculo caótico.
O problema? Rapidamente saiu do controle e começou a espalhar faiscas que criaram pequenos focos de incêncio.
“Não!” gritou um dos néfos mais velhos, recuando quando as faíscas começaram a descer perigosamente perto das pessoas.
“Kiel, cuidado!” outro berrou, apontando enquanto o fogo se espalhava, queimando a grama da praça.
“Merda,” murmurei, percebendo o quão ruim aquilo estava ficando. O fogo se voltou contra mim em uma nuvem de fogo guiada pela brisa, e as faíscas começaram a atingir minha pele, queimando dolorosamente.
Evelyn, que até então assistia encantada, agora olhava assustada. O sorriso em seu rosto desapareceu e deu lugar a um genuino medo.
“Eu... estou bem,” murmurei para Evelyn, tentando manter a compostura enquanto usava meus braços para me defender das brasas. A dor das queimaduras era suportável, mas incômoda. Eu sabia que tinha feito uma bagunça.
Os néfos mais jovens observavam com fascínio, mas os adultos, especialmente os mais velhos, estavam longe de impressionados. Nelco, o líder da vila, se aproximou, furioso.
“Kieel! Olha o que você Fez!” Rugiu Nelco, vendo impotente as explosões queimarem a grama e causarem desespero entre as pessoas presentes, que correram para proteger as crianças.
“Você destruiu a grama, maninho, queimou os tecidos da festa, se machucou e preocupou todo mundo, Reprovado!” falou em voz alta, puxando seu chapéu redondo infantil para cima.
Ofegante e sentindo o ardor das queimaduras, fui até Evelyn e segurei suas mãos pequenas e trêmulas. Seus olhos estavam cheios de preocupação e medo devido às explosões. “Eu estou bem, Evelyn,” murmurei, tentando soar confiante apesar da dor.
As pessoas ao redor ainda estavam inquietas, suas vozes em tons agudos discutindo o que havia acontecido com clara reprovação. Alguns tentavam apagar os pequenos focos de incêndio, enquanto outros ajudavam a acalmar as crianças depois da assustadas. Nelco, o "líder" entre os néfos, aproximou-se de mim com um olhar severo.
“Kiel! Olha só o estado do gramado! A festa de ano novo é hoje à noite e você fez questão de torrar toda a nossa arrumação com essa sua irresponsabilidade. Vou chamar a sua mãe para te dar mais educação. Você passou de todos os limites! Vários dias roubando e usando coisas perigosas por aí, e no que deu? Óbvio, no desastre que você está vendo.”
Baixei a cabeça, sentindo medo de encarar uma reclamação da minha mãe. “Por favor, não diga para ela. Eu prometo nunca mais pegar os produtos químicos da vila para brincar.”
Nelco suspirou, seu rosto suavizando um pouco. “Me poupe das suas justificativas!” respondeu rude.
“Por favor, tio Nelco, perdoe meu irmão. Ele errou, mas não vai acontecer de novo.” Disse Evelyn, demonstrando sua fofura de criança compreensiva.
“Oh! Evelyn, vou fazer isso, não vou dizer, mas se acontecer de novo…” concluiu o senhor.
“Saiam daqui por enquanto,” disse Nelco, mais calmo, após a confusão causada pelos fogos de artifício.
Olhei para Evelyn, que me acompanhava à esquerda. “Você me salvou de novo, Evelyn. E nem sabe o quanto,” falei rindo, me referindo às reclamações futuras que certamente viriam da nossa mãe se ela soubesse o que aconteceu.
Saímos rapidamente da área da festa, onde os néfos, apagavam os pequenos focos de fogo causados pelas explosões. O cheiro de fumaça ainda pairava no ar, mas com a brisa fresca da noite, tudo parecia se acalmar. Subimos a escadaria de pedra que levava ao pagode, afastando-nos da agitação. O som das conversas e risadas na festa se tornava mais distante, e o ambiente à nossa volta foi gradualmente se tornando mais tranquilo.
Nos sentamos na metade da subida, onde os degraus se alargavam, proporcionando uma vista deslumbrante da vila. As lanternas de papel, iluminadas por chamas tremeluzentes, dançavam na leve brisa noturna, enquanto a poeira começavam a surgir no céu noturno e brilhante.
“O que você estava tentando fazer, Kiel?” Evelyn perguntou, sua curiosidade infantil misturada com um toque de sabedoria precoce.
Eu ri, envergonhado. “Queria fazer um show de luzes só pra você, algo especial,” respondi, com um sorriso travesso. “Algo que te fizesse sorrir e dizer que sou o melhor irmão.”
Ela me olhou com seus grandes olhos brilhantes e, mesmo sendo tão jovem, apertou minha mão com carinho. “Foi bonito, mas não precisava fazer isso, Kiel. Não se machuque só pra me impressionar,” disse com um tom sincero, mas levemente triste.
As palavras dela, simples e diretas, ecoaram na minha mente. Evelyn tinha razão, como sempre parecia ter, mesmo com sua pouca idade. Olhei novamente para a área da festa, pensando. Os néfos apagavam as últimas chamas enquanto a luz do crepúsculo esverdeado, causada pelos gases extraplanetários, ainda tingia o horizonte.
Soltei um suspiro, sentindo um alívio. “Você tem razão, Eve... Acho que eu estava errado. Que bom, essa irmã que tenho é um presente inestimável.” comentei, observando o céu escuro que começava a ser preenchido pela poeira luminosa.
Ela ficou em silêncio por um momento, mas quando me virei, notei que já não estava ao meu lado. “Eve?” chamei, procurando-a ao redor.
Olhei para baixo e a vi sentada ao lado de Nene, perto da entrada da escadaria do pagode, brincando com um jogo de Jenga.
“Eu tô aqui!” ela gritou, rindo, enquanto acenava para mim. Nene, sempre imitando, também acenou animadamente.
Dei um sorriso e suspirei. “Retiro o que disse... minha irmã me abandonou pra brincar, e essa vida é uma loucura decepcionante.” pensei.
Desci as escadas com cuidado, sentindo o calor residual das queimaduras em minha pele. Cada passo me lembrava da pequena catástrofe que havia causado, percebendo também a minha cicatrização assustadora: as queimaduras haviam quase desaparecido em meia hora.
Ao me aproximar da área do evento, a agitação dos preparativos da festa de ano novo começou a ser audível, trazendo uma mistura de aromas, sons e visões que eram, ao mesmo tempo, familiares e únicas ao nosso mundo. Todos os anos, esse evento acontece, afinal.
As barracas de madeira rústica, decoradas com tecidos coloridos e flores locais, estavam espalhadas ao redor da praça principal. Os néfos trabalhavam juntos, colocando os toques finais em suas respectivas tarefas. Pequenas lanternas feitas de vidro soprado pendiam de cordas, cada uma emitindo uma luz suave e cintilante que começava a se destacar contra o céu que escurecia.
Os aromas das comidas tradicionais flutuavam no ar, me fazendo esquecer momentaneamente a dor das queimaduras. Em uma das barracas, um néfo mais velho, com mãos habilidosas, moldava massa de pão em formas intricadas quase ovalmente perfeitas, antes de colocá-las no forno a lenha.
O cheiro de pão fresco misturado com especiarias e ervas era até chamativo, mas minha preferência por carne é unânime. Outra barraca apresentava um caldeirão grande, de onde vinha o cheiro apimentado e reconfortante de uma sopa rica em legumes e pedaços de carne — infelizmente, não gosto de sopa. Mais adiante, uma mesa estava repleta de frutas brilhantes e frescas, colhidas das árvores frutíferas que cresciam nas plantações.
As decorações eram um espetáculo à parte. Remos pintados à mão, símbolo da ligação deles com o rio Alvim, que sustenta a fama de separar Loura e Florem ao mesmo tempo que é essencial para a manutenção da vida dessas pessoas, estavam dispostos ornamentalmente ao longo do caminho principal. Estatuetas de criaturas locais, várias de puppins, esculpidas em madeira e pedra, adornavam os cantos da praça. Bandeirolas feitas de tecidos trançados com cores vibrantes balançavam suavemente com a brisa, dando uma sensação de movimento contínuo, alavancando a bandeira de Florem — três flores amarelas no canto superior esquerdo postas em um azul-real.
As pessoas, vestidas em suas melhores roupas devido à ocasião, riam e conversavam enquanto trabalhavam. Crianças corriam ao redor, brincando com pequenos brinquedos feitos à mão, enquanto os adultos se concentravam em garantir que tudo estivesse perfeito para a celebração. Havia um sentimento palpável de comunidade e união, algo que sempre me tocava profundamente.
Como eles conseguem se unir tão fortemente em prol de uma causa que não seja relativa ao indivíduo? Eu sou o antiquado aqui? Que vê isso como algo irreverente e irreal à nossa natureza? Está aí, um dos pontos que eu realmente não vou mudar — Eu aceito minha família como pessoas agradáveis agora, mas não me vejo colocando eles acima de mim.
Mas a família é uma comunidade? São realmente laços de sangue a questão? Ou o pertencimento? Que complicado… Digo, é um misto dos dois, tenho 50% do sangue dos meus pais, de 37% a 61%, entre esses extremos o da minha irmã. Talvez ela seja o mais semelhante a mim nesse mundo ou menos que meus pais, palomemos. Mas amar alguém não se restringe apenas a isso… Eu não consigo dizer que preferiria um dos 3.
Kiel, bote na sua mente: se for para se sacrificar por alguém, siga a norma da natureza, procure manter seus genes, essa é a verdade, quer passar adiante seu dever natural, faça isso! Pensei, tentando encontrar um sentido a tudo, fracassando miseravelmente.
No entanto… se eu tive diferentes genes nas diferentes vidas, mesmo que fosse em animais… Então não faz sentido, isso vai além do físico e chega no metafísico! Então…
Já sei, vou fazer o que for de minha vontade.
Questão resolvida.
Me aproximei de uma das mesas de preparação, onde uma mulher mais velha estava arrumando pratos de sobremesas finamente decoradas. Ela me olhou e sorriu gentilmente, oferecendo-me um pedaço de bolo coberto com uma camada brilhante de glacê.
"Você fez um grande alvoroço hoje, Kiel," disse ela, seus olhos cheios de compreensão. "Aproveite a festa, pode aproveitar esse bolinho." Terminou, afagando meu cabelo.
Agradeci e peguei o pedaço de bolo, sentindo um calor reconfortante se espalhar dentro de mim, talvez vegonha? o mundo está me afetando de maneira irritante.
Enquanto mordia o bolo doce e macio, olhei ao redor e vi Evelyn brincando feliz com Nene, seu sorriso espontâneo no rosto.
Devo ter demorado muito na minha reflexão…
Os preparativos estavam quase completos, e a expectativa para a celebração crescia. O som de música começava a encher o ar, instrumentos tradicionais tocados entraram nos holofotes.
Sentei-me em uma mesa, saboreando meu pedaço de bolo e observando o desenrolar da festa. A cada momento, mais pessoas se juntavam à celebração, e o ar se enchia de risos e conversas animadas.
Enquanto estava perdido em meus pensamentos, senti uma presença ao meu lado. Virei-me num susto e vi Aidam sentando-se de forma inesperada. “Precisamos ter uma conversa séria, mocinho,” disse ele com um rosto seríssimo, me assustando com sua súbita aparição.
Meu coração disparou, temendo uma bronca iminente. Mas antes que eu pudesse responder, ele continuou, seu olhar curioso contrastando com o tom sério. “Sério, desde quando você aprendeu a usar magia? Me disseram que você fez fogo de várias cores! Como aprendeu isso?”
Antes que eu pudesse formular uma resposta, minha mãe, Ari, surgiu de repente, interrompendo a conversa. “Kiel!” ela exclamou, sua voz carregada de preocupação e raiva saliente, visivelmente demostrando com suas expressões faciais. “O que você estava pensando? Brincando com produtos químicos perigosos! Causando um incêndio...E você, Aidam, deveria ter mais responsabilidade e falar que ele errou e corrigí-lo! Não deveria permitir que ele fizesse algo tão arriscado e nem ser conivente com esse tipo de atitude!”
Ela puxou o cabelo de Aidam, que fez uma careta de dor. “Você foi conivente com o problema que Kiel causou,” continuou minha mãe, com um tom severo.
Virando-se de costas, ainda com raiva, ela disse “Agora, vou chamar Evelyn para jantarmos juntos.” saindo andando, com uma roupa lustrosa que ela só usa nesse tipo de ocasião que deixava-a elegante até quando estressada. “Essa conversa ainda não terminou” concluiu.
Enquanto minha mãe se afastava para chamar Evelyn, Aidam esfregava a cabeça onde tinha sido puxado, olhando para mim com um misto de alívio e curiosidade. “Então, como você conseguiu fazer aquela magia?” perguntou ele, ainda interessado na minha resposta.
Meu pai passa muito pano para devaneios adrenalinicos do seu filho, se ele fosse pai solo de outra família teria criado muitos deliquentes...

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