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Não me Esqueças

4. Um arbusto de Stellaria fontinalis(1)

4. Um arbusto de Stellaria fontinalis(1)

Sep 29, 2024


   “Por favor, não precisa se sentir constrangido, minha sala fica no final do corredor”, o anjo ajeitou sua postura, apontando para a porta branca. “Eu só preciso… De um momento pra me recuperar”, seu tom parecia cansado, e seu sorriso agora um tanto envergonhado. Cassian não teve coragem de avançar, ainda observando o anjo enquanto ele esfregava seus olhos, parecendo em dor.

   “Você quer ajuda?”, o entregador quis colocar a mão no ombro do anjo, contudo, antes de chegar a tocá-lo, o anjo levantou a mão, segurando levemente a ponta dos dedos do rapaz.

   “Eu estou bem, de verdade”, o sorriso de Lysandre era quase charmoso, se não fosse também assustador naquele cenário. Diferente de outros anjos que Cassian havia conhecido, Lysandre tinha um cuidado extra ao interagir com ele, quase que um carinho. Normalmente, seria estranho pensar que um completo estranho teria esse sentimento, mas não era como anjos funcionassem da mesma forma que um humano. 

   O anjo assobiou em tom melodioso, os números na porta mudando de posição para se tornarem um olho que, após piscar duas vezes e identificar quem o chamou, se abriu no meio de forma dramática, provocando um revirar de olhos em Lysandre. Ele direcionou a mão do rapaz para a porta, o convidando para entrar. “Eu falei sério, não precisa ficar constrangido”

   Cassian encarou a porta, pensando se ele deveria mesmo cruzar aquele corredor ou se deveria apenas fazer seu trabalho e ir embora. Nada impedia ele de virar as costas e sair. Nada. O que significava que também não havia nada o impedindo de continuar. Ele tinha um péssimo histórico em fazer decisões perigosas, uma enorme consciência do quão ruins eram seus instintos e um senso de autopreservação inexistente. Qualquer pessoa olharia para essas “qualidades” e veria que a única real ameaça na sua vida era ele mesmo.

   Não há nada a perder agora, o rapaz falou para si mesmo, dando um passo para frente e já se encontrando dentro do escritório. O cômodo era repleto de tons de vermelho, preto e prata, lembrando um pouco da sala de estar de Chester. Toda a decoração era montada para que o olhar fosse levado até o centro, onde uma mesa branca ficava, com duas cadeiras luxuosas de frente para a outra. Lysandre contornou o entregador para se sentar na cadeira que ficava atrás da mesa, parecendo um tanto desconexo daqueles tons. Não que ele não usasse branco, mas sua estética inteira lembrava Cassian dos vampiros que ele via em filmes, e mesmo que a decoração da sala em si fosse condizente com esse estilo, a mesa se tornava um ponto de quebra, seguindo o estilo minimalista e em tons claros do edifício. 

   O anjo esperou que o entregador terminasse de admirar a decoração antes de dar dois toques na mesa para chamar sua atenção. Ele tinha uma expressão contente, como se estivesse feliz de que suas escolhas haviam cativado alguém. Não eram muitos que apreciavam o esforço que ele teve para encontrar os quadros e objetos certos para colocar nas paredes, buscando ser o mais maximalista possível. Os quadros eram todos de flores, alterados para terem iluminação mais escura, criando contraste entre as plantas e o fundo, enquanto os objetos iam desde chaves antigas colocadas de forma aleatórias, para crânios de animais mortos adornados com plantas. Claro, ele não tinha apenas isso na sua sala, tendo em um lado um sofá vermelho vintage, as almofadas com capas em renda preta e uma mesa pequena ao lado, onde ele deixava uma jarra de água e copos. Do outro, uma estante de metal com gavetas, comprida o suficiente para algumas das gavetas terem etiquetas que não eram relacionadas com trabalho e sim coisas como “lanchinhos”, “livros para ler”, “materiais de desenho”, entre outras etiquetas, o que deixava a entender para Cassian que o anjo não saía muito dali.

   Ao finalmente entender o chamado, Cassian se sentou de frente com o anjo, que, com um tom muito mais gentil que anteriormente, começou a interrogá-lo, “Qual seu nome, rapaz? Sua posição, intenções e objetivos também são muito bem vindos”

   “Meu nome é Cassian, sou supervisor do setor de entregas, mas por solicitação eu vim fazer uma entrega especial ao senhor. É tudo que vim fazer aqui”, Cassian estava nervoso, nunca havia sentido uma pressão tão grande quando conversando com alguém. Fosse por Chester não estar aqui para salvá-lo caso algo desse errado, ou por ele não ter certeza de como se portar diante dele, o sentimento de que um movimento errado e toda essa interação seria jogada no lixo finalmente chegou para atormentar a cabeça do rapaz.

   “Entendo. Seu nome é Cassian por algum motivo especial? É um pouco difícil encontrar nomes assim em anjos que não sejam de um setor mais artístico. Você é de que nível?”, Lysandre tinha um rosto completamente inocente, realmente ignorante ao fato de que Cassian era um humano. Tentando não rir, o rapaz pensou bem antes de falar, não querendo soar de forma ofensiva.

   “Eu sou um anjo honorário, senhor… Achei que fosse claro pela reação que aqueles anjos da recepção tiveram…”

   “Huh? Foi por isso? Achei que eles só não tinham ido com a sua cara”, o anjo tira de sua gaveta um copo fechado, ao abrir o leve cheiro de chá de capim cidreira preenchendo o escritório. Era reconfortante ver a casualidade, tirando um pouco da tensão de Cassian. No entanto, ao dar o primeiro gole, o anjo pareceu ter processado a informação, quase se engasgando no chá, “ANJO HINORÁRIO!? Aí minha língua....”

   “Honorário-”, Lysandre coloca o indicador na frente da boca do rapaz para ele se calar, tomando mais um gole de chá para finalmente voltar a falar.

   “Você sabe quantos problemas você pode me trazer? Eu não poderia nem estar conversando com você agora! O pior nem é isso, são os problemas que você vai causar pra você mesmo! O Adinah é o maior escroto da face da história, ele vai querer arrancar teu couro!”, entrando em desespero, Lysandre continuou a falar incessantemente das coisas que poderiam acontecer, realmente preocupado com o rapaz a sua frente. O entregador não teve nem tempo de perguntar sobre o que ele estava falando, permanecendo quieto enquanto o anjo enlouquecia sozinho. Quando estava quase chorando de frustração, Lysandre entornou o copo de chá e pegou outro da gaveta, seu comportamento mudando completamente. “Ah sim, a carta”

   Surpreendido com a mudança rápida de humor, Cassian demorou para abrir sua mala e pegar o envelope de dentro, entregando ao anjo a sua frente. Lysandre não fez cerimônia para abrir o envelope externo colocado pela central, mas parou para examinar o envelope escolhido pelo seu remetente. Azul escuro, detalhes em dourado, com flores vermelhas no verso e o desenho de uma aranha no selo de cera, em cores preto e vermelho, simbolizando uma viúva negra. Com cuidado, ele retirou o selo e o colocou em cima da mesa, tirando de dentro o papel. Era estressante ver a expressão do anjo mudar tantas vezes. Cassian tinha o costume de analisar as pessoas para saber como melhor lidar com elas, mas era como estar na frente de um enigma pela primeira vez, não podendo sequer imaginar o que se passava na cabeça do outro. Lysandre levantou o olhar, completamente diferente de sua expressão inicial. Ele parecia machucado, algo dentro de si parecia errado.

   “... Posso te pedir um favor?”, sua voz parecia fraca, as decorações nas paredes impedindo que houvesse eco. “Deixe isso apenas entre nós…”
 
   “Isso?...”

   “Essa conversa, esse encontro, a carta principalmente. Não quero te prejudicar, não fez nada além do seu trabalho”, Lysandre apoiou os cotovelos em cima da mesa, se inclinando para ficar mais perto. “Se puder me fazer esse favor, eu te dou qualquer coisa em troca!”

   Cassian quis rir como primeira reação, depois quis protestar dizendo que não era engraçado brincar com ele daquele jeito. Um anjo pedindo favores e oferecendo algo em troca? Se não fosse pelo olhar sincero que Lysandre tinha, Cassian poderia dizer que ele era um péssimo manipulador. O anjo esperou pacientemente a resposta, com o olhar brilhando em antecipação, um sorriso surgindo quando o humano acenou.
“Certo, mas só se eu puder guardar para quando me for necessário”

   “Sem problemas! Vou deixar meu contato com você pra quando acontecer!”, Lysandre se levantou da mesa com rapidez, quase derrubando o que tinha em cima dela no processo. Ele definitivamente era mais animado que Cadimeus, pelo pouco que havia visto de ambos, mas Cassian conseguia entender o charme que isso trazia a ele.
Charme? Franzindo a testa pelo pensamento repentino, Cassian olhou novamente para Lysandre, agora procurando nas várias gavetas seu corvis, tão desastrado que se batia nas gavetas já abertas, tropeçando em si mesmo. Se esse charme fosse idiotice, realmente, ele tinha de sobra. Tentando tirar a ideia da cabeça, o entregador ativou o dispositivo em seu pulso, marcando na check-list que havia efetuado a entrega, mas colocando o relatório em pendência. Por outro lado, o anjo de preto parou, colocando as mãos na cintura, assobiando de forma aguda, sendo o suficiente para que o humano tivesse um arrepio.

   Do outro lado da sala, em cima do sofá, o som de notificações que Cassian já conhecia como o som padrão do corvis começou a apitar, respondendo o chamado de seu dono.O mais estranho, no entanto, era que o dispositivo não parecia com os braceletes padrões que eram distribuídos, mas sim um relógio que estava acoplado a um cinto de utilidades, que ele não havia percebido antes por seu tom vermelho ser quase imperceptível quando em cima do sofá da mesma cor. A pedra era escura, no formato de um coração, refletindo na luz um azul marinho que fazia Cassian lembrar do céu estrelado na sua cidade natal. 
 
   Em contrapartida, a interface principal era vermelha, um olho em seu centro. Ele se mexia, observando os movimentos do anjo, que brincou um pouco com ele antes de voltar a sua tarefa inicial, pedindo desculpas por perder o foco. Ao se sentar na mesa novamente, ele desacoplou o dispositivo do cinto, deixando em cima da mesa para melhor visualização. Corvis tinham um método muito simples de compartilhamento de dados e informações, semelhante a Bluetooth. Caso os dispositivos não tivessem as informações de contato um do outro, eles podiam escanear a região para adicionar tais informações dos dispositivos mais próximos. As informações de contato incluíam não apenas nome, mas também informações de emergência, contato profissional, cargo e posição na hierarquia. Não era uma função muito utilizada por anjos convencionais, por não verem necessidade de se comunicar frequentemente com outros anjos, a maioria usando os corvis para trabalho apenas, mas era uma função popular entre os honorários. Cassian via isso como apenas mais um reflexo de como eles viviam realidades completamente diferentes. Anjos eram muito 8 ou 80, por um lado poderiam ser reclusos e objetivos, raramente se distraindo com questões externas, por outro poderiam ser completamente desconexos do mundo que vivem, agindo como bem entendem. 
 
   Lysandre estava configurando seu dispositivo, sua expressão incomodada, enquanto o olho no display ria de sua situação, tendo feito de propósito. Era a primeira vez que Cassian via de perto um corvis consciente. Ele sabia que era possível, tendo ouvido histórias de Chester e Minty sobre como eles poderiam ser incômodos dependendo de sua personalidade, apesar de serem úteis para certos cargos. O de Lysandre parecia gostar de brincadeiras, o que no ramo do anjo não parecia ser tão ruim.

   Mas… Qual era realmente o cargo dele? O rapaz percebeu que não fazia ideia do que ele fazia, apenas assimilando que ele trabalhava num dos escritórios mais chiques da divisão. Vendo a reação repentina do entregador, Lysandre ofereceu algo para tomar, insistindo até que aceitasse, se levantando da cadeira para preparar um café, tirando de dentro de uma das gavetas uma garrafa térmica, um coador de café e um pacote de café moído. Como ele conseguia colocar tanta coisa dentro de uma gaveta simples era um mistério que Cassian não sabia se queria desvendar. 
Erosgrammia
Anteros Grammia

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