Na saúde e na doença. Na riqueza e na pobreza. Amando-a e respeitando-a, até que a morte nos separe.
Palavras encantadoras costumam acompanhar o momento de maior felicidade da vida de um homem. No entanto, às vezes também podem se tornar parte de suas lembranças mais dolorosas.
— Lara, você aceitaria…
A vista deslumbrante da lua cheia era refletida nas águas do lago vazio, preenchido apenas por uma única canoa de madeira. Pequenos movimentos conduziam gentilmente a singela embarcação, inspirados pela determinação de um rapaz apaixonado. Vagalumes cercavam um casal unido, enquanto espantavam a escuridão da noite para que nem mesmo o medo impedisse seus avanços.
Cabelos pretos contrastavam com a clareza de uma pele pálida, cuja cor se intensificava à medida que cada nova palavra saía da boca proativa. Coberto pelo seu reluzente traje social e agraciado com o charme de sua cartola azul-marinho, Kai persistiu em seu maior ato de coragem já exibido, mesmo considerando todos os seus vinte anos de vida.
— Você aceitaria passar o resto da sua vida comigo… E me dar a honra de ser o seu marido?
Fogos de artifício destacaram a sinceridade da declaração, uma vez que a luz evidenciava quaisquer detalhes no rosto do falante. O estouro nos céus foi como um aviso para a chegada do clímax inevitável, quando a presença de um minúsculo objeto decretou o ápice de um relacionamento.
Com seus longos cabelos — que haviam ultrapassado os limites da canoa e tocavam o lago — a mulher recebia por inteiro a atenção do seu acompanhante, o qual dobrava as mangas de um extenso vestido na busca de dedos, a princípio solitários. A aliança estava pronta para se unir à pretendida, porém, sua posição coincidiu com a de outro acessório.
— Uau, Kai… Eu mal consigo acreditar. Essa é a vista mais bonita que qualquer mulher poderia sonhar em presenciar! Esses fogos de artifício são encantadores! Fala sério, você até acertou o tempo perfeito! Tudo isso foi incrível!!!
— F-Foi? Certo, é hora da segunda parte! Você ainda não viu nada, La–
— Mas, na verdade, eu iria te pedir para terminar.
O homem verificou os seus ouvidos. Ao se certificar de que a cera contida neles não havia afetado a sua audição, ele molhou rapidamente o seu rosto com a água em sua volta. O refresco não parecia ter lhe acordado para a realidade.
— O que disse?
— Acontece que eu estou gostando de outra pessoa no momento.
— E-Espere, Lara! Eu não tenho certeza se estou conseguindo acompanhar essa conversa.
— Para ser sincera, nós já estamos namorando.
— T-Traição!?!?
— Ele até já me pediu em casamento.
— Adultério!?!?
— E eu tomei a decisão de aceitá-lo. Infelizmente, ele pediu para nos separarmos depois disso.
— Divórcio!?!?
— Eu realmente não estou no clima para novos casamentos. Sinto muito, Kai.
Sem o empolgante som das explosões comemorativas, os ânimos da dupla foram repentinamente interrompidos. A lua solitária passou a ser a única fonte de luminosidade do local, devido a saída inusitada do grupo de vagalumes, outrora responsáveis por prover novas cores à monotonia da região. A festa chegava ao seu fim.
— Se servir de consolo, saiba que o nosso relacionamento foi perfeito enquanto durou! — acrescentou a mulher.
Na ausência de nuvens, numerosas gotas preencheram o rosto do rapaz, prestes a ser tomado pelo líquido infeliz. Sua voz rouca precedeu frases que jamais poderiam ser ditas em um estado de integridade, mas se tornaram ensurdecedoras perante feridas irreparáveis.
— Argh!!! Foram momentos como esse que eu jurei que nunca mais iriam se repetir! Eu irei consertá-los, Lara! Consertarei cada um deles!!!
Um agarrão direto no próprio peito. Kai pressionou a origem de todos aqueles sentimentos despedaçados, a partir do contato abrupto com seu coração.
— O que houve, Kai? Enlouqueceu?
Após a ação desesperada, o sujeito se recompôs rapidamente do golpe em si mesmo, porém, uma mudança repentina em seu semblante alterou qualquer impressão proveniente de sua imagem. A expressão do rapaz assumiu máxima seriedade.
— Quem é você, garota?
— Que frio!
Olhos desinteressados desviavam de toda a beleza que os cercava, fosse essa natural ou humana. Kai dobrou uma de suas delicadas mangas, ao direcionar o olhar perdido para o relógio em seu pulso.
— Já está tarde. É hora de voltar para casa. Até mais, moça.
— Ei, o que você pretende–
O rapaz saltou rumo às profundezas do lago, com um mergulho ágil, assim como um competidor dá a largada em uma corrida. Sem olhar para trás, ele seguiu para a margem mais próxima, enquanto experimentava a temperatura congelante do tardar da noite.
Deixada a sós na embarcação, Lara tentava compreender a última sequência de acontecimentos, à medida que esperneava de indignação pelos absurdos recorrentes.
— Vai me deixar aqui sozinha!? Depois de tudo o que passamos!?
— Não se preocupe. Uma hora a canoa vai voltar para a terra.
— Não é esse o problema!!! Você perdeu a consciência!?
Passos pesados marcaram o retorno para a terra firme. Os cabelos assanhados de Kai reforçavam a ausência de preocupações, ao mesmo tempo em que encantavam a espectadora distante, a partir de uma postura inabalável. Ventos frios guiavam o rapaz para longe de companhias.
— Consciência? Isso é algo que certamente tenho de sobra. Você não me entenderia, afinal, parece estar apaixonada por alguém.
— Uau!!! Você fica tão legal quando está sério! Isso foi o máximo!
❥ ❥ ❥
— Isso é muito chato!!! — berrou uma jovem.
No centro de uma praça movimentada, a figura enfurecida concedia a sua imagem para o trabalho de um artista. O profissional observava atentamente a mulher, cujas reclamações eram capazes de tirar completamente o foco da produção.
Cabelos ruivos ressaltavam o calor de um ódio crescente, somado ao caos proporcionado pelos longos fios entrelaçados de alguém que parecia nunca ter frequentado o cabeleireiro. No ápice de vinte anos repletos de frustrações, Aimee era a jovem que resmungava em frente ao talentoso artista.
— Que falta de proatividade é essa, moleque!? Anda, me peça logo em namoro!!!
— Moça, eu não estou entendendo essa situação. Eu fiz algo de errado? — perguntou o pintor.
— Você está me encarando há uma hora! Até quando vai ficar com esse joguinho!?
— Você me pediu para fazer um retrato seu. Não é natural que eu olhe para a minha cliente?
O profissional tentava manter a concentração, mas era constantemente perturbado por falas cada vez mais provocativas.
— Não me venha com esse papinho! Seus olhos estavam fixados em mim desde que eu pisei nesse parque!
— Eu estava pintando uma paisagem, e você entrou na minha frente fazendo poses esquisitas. Minhas mãos estavam prestes a chamar a polícia.
— P-Polícia!? Que grosseiro! Essa conversa está encerrada! Eu nunca namoraria um canalha como você!!!
— Por que isso soou como uma rejeição?
Nas proximidades da dupla, outro homem voltava a sua atenção para Aimee. Pelas lentes de uma câmera, o mundo se tornava um jogo de luz e sombra, conforme o sujeito habilidoso posicionava cada expressão da jovem em um enquadramento perfeito.
— Ei, você aí atrás! Também está me encarando o dia inteiro! Me peça em namoro logo, seu covarde! — Ela apontou para o sujeito com o dispositivo de imagem.
— Moça, você me contratou como fotógrafo. Para usar a câmera, eu preciso ver o que está na minha frente.
Novamente desapontada, Aimee se virou para outro homem, sentado em um banco na praça. Com longos cabelos ruivos e uma aparência familiar, aquele que encarava a jovem utilizava até mesmo as roupas dela. Ao fazer uso do espelho em suas mãos, o sujeito em questão parecia avaliar continuamente a própria aparência.
— E você, seu molenga! Já faz uma semana que está me seguindo! Quando vai se declarar para mim!?
— Senhorita Aimee, eu sou seu dublê. Nós estamos em nosso horário de trabalho.
— Que se danem as suas profissões!!!
Movida por passos largos e pesados, a jovem se afastou dos acompanhantes, tomada pela fúria.

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