Alex sentia o peso do olhar dourado de Damian Velmont sobre ele, cada segundo se arrastando como uma eternidade. O duque não estava apenas olhando—ele estava estudando. Como se algo não fizesse sentido.
Os olhos de Alex—agora pertencentes a Aslan de Ravencourt—tremiam, tentando manter a compostura. Ele conhecia esse olhar. Era o mesmo olhar que Damian lançava à heroína no jogo original, quando estava prestes a testá-la.
Só que dessa vez, não havia teste algum.
Ele não deveria estar aqui.
"Aslan é só um figurante. Ele morre no prólogo, sem importância nenhuma na história. Então por que diabos Damian está me encarando desse jeito?"
A pergunta girava em sua mente como uma sirene de alerta. Ele não podia vacilar. Qualquer deslize poderia colocar sua vida em risco.
— Quem é você? — Damian perguntou, com sua voz fria e grave ecoando pelo salão.
Alex engoliu em seco.
A resposta parecia óbvia. Ele sabia quem era agora. Mas essa não era a pergunta real.
Damian não estava perguntando um nome. Ele estava perguntando por que ele estava ali.
"Isso não está certo. Damian nunca deveria falar com Aslan. No jogo, ele mal percebe que ele existe. Eu... quebrei alguma coisa?"
Sem alternativa, Alex inclinou a cabeça levemente, tentando manter a postura servil que se esperaria de um criado de baixo escalão.
— Meu nome é Aslan de Ravencourt, Vossa Graça.
A própria voz o surpreendeu. Era mais suave, refinada. A voz de um personagem que nunca deveria ter existido na versão final do jogo.
Damian permaneceu em silêncio por um instante que pareceu longo demais. Seu olhar afiado viajou lentamente sobre Alex, como se analisasse cada detalhe de sua existência.
— Ravencourt… — Ele repetiu o nome como se o provasse na língua, testando o peso da palavra. — Não me lembro de nenhuma família nobre com esse nome.
Alex sentiu um arrepio percorrer sua espinha.
"Ótimo. E agora? Se eu disser que sou só um servo qualquer, ele vai aceitar?"
Respirando fundo, ele manteve a voz firme:
— Eu sou apenas um criado, Vossa Graça.
O duque permaneceu em silêncio por mais alguns instantes. Então, para alívio de Alex, ele desviou o olhar.
— Hmph. Então desapareça.
A ordem veio fria e cortante.
Alex não hesitou. Curvou-se rapidamente, saindo da sala sem olhar para trás. Somente quando a porta se fechou atrás dele, seus ombros despencaram, e ele percebeu que estava tremendo.
Os corredores do castelo se estendiam à sua frente, longos e majestosos. As paredes eram feitas de pedra negra, iluminadas pelo brilho dourado das tochas. O chão de mármore refletia as chamas trêmulas, criando sombras que pareciam dançar ao redor.
Era exatamente como no jogo.
Mas, ao mesmo tempo… não era.
Aslan não deveria estar ali. Seu código não deveria existir.
Alex passou os dedos pelos cabelos prateados, o toque frio lembrando-lhe que aquele era seu novo corpo.
"Ok, vamos raciocinar. O que eu sei até agora?"
Primeiro: ele morreu e acordou dentro de Requiem of the Fallen Hearts.
Segundo: ele não reencarnou como a protagonista, mas como um NPC insignificante, que deveria ter morrido no prólogo.
Terceiro: Damian Velmont, o vilão final, notou sua presença—o que significa que ele, de alguma forma, quebrou as regras do jogo.
Quarto: ele precisava sair desse castelo antes que o enredo original o matasse.
Respirando fundo, ele começou a caminhar, guiando-se pela memória que tinha do jogo.
Mas então…
O ar mudou.
O ambiente ficou mais pesado.
O som das chamas tremulando tornou-se distante, como se o mundo ao redor estivesse se distorcendo.
E então, ele ouviu.
Uma voz sussurrada.
— Quem… é você?
Alex paralisou.
Seu sangue gelou instantaneamente.
O sussurro ecoava pelo corredor vazio, vindo de todas as direções.
Ele girou nos calcanhares, mas não havia ninguém ali.
"O que foi isso…?"
Ele prendeu a respiração, tentando ouvir mais alguma coisa. Mas tudo o que ouviu foi…
Linhas de código quebrado. Fluxos de dados piscando no ar, distorcidos, errados.
Era como se a própria programação do jogo estivesse desmoronando ao seu redor.
E então…
Passos.
Eles vinham de trás.
Firmes, ritmados.
O som de botas contra o mármore, aproximando-se lentamente.
Alex sentiu o pânico crescer. Se fosse Damian de novo…
Sem pensar duas vezes, ele empurrou a primeira porta que encontrou e entrou.
Mas assim que fechou a porta atrás de si…
Ele percebeu que não estava mais no castelo.
O ambiente ao seu redor não fazia sentido.
Era uma sala impossível—um espaço vazio, mas repleto de centenas de telas flutuantes, cada uma delas transbordando códigos quebrados.
No centro, havia um trono de pedra negra.
E sentado nele…
Um homem.
Um homem com cabelos prateados e olhos lilases—idêntico a ele.
Alex sentiu sua garganta secar.
Não era um espelho.
Era alguém idêntico a Aslan.
Mas seus olhos eram completamente vazios.
O homem levantou a cabeça lentamente, encarando-o.
E então, ele falou:
— Você… roubou o meu lugar.
Alex não conseguiu reagir.
A verdade o atingiu como um soco no estômago.
Ele não estava apenas dentro de um jogo.
Ele estava dentro de um sistema que nunca deveria ter sido ativado.
Morrer jogando um otome game não estava nos meus planos. Mas pior do que isso? Acordar dentro do jogo… como um mero figurante condenado a morrer no prólogo.
Agora sou Aslan de Ravencourt, um servo de baixo escalão que deveria desaparecer da história sem deixar rastros. Só que algo está errado. Os eventos do jogo estão quebrando, e o vilão mais temido, Damian Velmont, começou a me notar de um jeito perigoso.
Ele nunca deveria se apaixonar por ninguém. Ele era um personagem programado para rejeitar a protagonista… mas agora, por algum motivo, ele só tem olhos para mim.
À medida que tento escapar do destino trágico que o jogo me reservou, percebo que o mundo ao meu redor não é apenas um jogo. Há algo por trás do código, algo vivo… e que não quer me deixar sair.
Se eu não descobrir o que está acontecendo logo, não só minha história será apagada—mas eu também.
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