A tela piscava com uma luz azulada, refletindo no rosto pálido de Alex Moretti. Seus olhos estavam vermelhos, fundos, castigados por horas – não, dias – sem dormir direito. A cadeira rangia sob seu peso enquanto ele mantinha os dedos pressionados contra o teclado, oscilando entre menus, diálogos e cenas do jogo que havia consumido suas últimas horas de vida.
"Maldição."
Ele bufou, arrastando uma das mãos pelo cabelo escuro, despenteado e oleoso. Os fones de ouvido abafavam o som fraco da cidade lá fora, deixando apenas a trilha sonora melancólica de Requiem of the Fallen Hearts preenchendo seu pequeno quarto bagunçado. Latas vazias de energético estavam amontoadas ao lado do monitor, pilhas de livros e anotações espalhadas pela mesa.
Ele estava obcecado.
Por três dias inteiros, Alex havia jogado sem parar, tentando desvendar a Rota Proibida – um mistério dentro do jogo. Era uma rota que, segundo rumores em fóruns obscuros, nunca deveria ser acessada.
Mas ele queria provar que era possível.
Cada escolha, cada linha de diálogo, cada caminho alternativo… nada funcionava. Damian Velmont, o vilão supremo, rejeitava qualquer aproximação. Ele estava programado para ser inalcançável, um monstro sem coração.
"Isso não faz sentido."
O cursor piscava na tela. Ele voltou ao menu de escolhas. Apenas três opções:
1. Ficar em silêncio.
2. Implorar pela piedade de Damian.
3. Atacar Damian com uma adaga escondida.
Nenhuma delas levava à Rota Proibida. Ele já tinha testado todas.
Alex piscou, tentando afastar o peso nas pálpebras. Seu corpo estava dormente, os músculos tensos depois de tanto tempo sentado. A cabeça latejava, os olhos ardiam. Ele precisava descansar. Apenas por um momento.
Só que, quando fechou os olhos, não os abriu novamente.
Uma buzina soou distante.
O choque de algo grande, pesado.
Dor.
Então, silêncio.
Havia algo frio contra sua pele.
O cheiro no ar era diferente – limpo, mas antigo, como madeira envernizada e velas de cera derretendo devagar.
O toque de um tecido macio contra seus braços, uma leve brisa contra seu rosto.
Alex abriu os olhos.
O teto acima dele não era o do seu apartamento. Era alto, arqueado, feito de pedra cinzenta e enfeitado com lustres dourados. Cortinas de veludo pesado balançavam ao seu lado, presas a janelas altas, de onde entrava a luz suave da manhã.
"Onde...?"
Ele sentou-se abruptamente, o coração disparado. O movimento foi estranho – seu corpo não parecia o mesmo. As mãos que apoiou no colchão eram menores, pálidas, com dedos finos demais para serem os seus.
A sensação de algo pesado sobre seus ombros o fez olhar para baixo.
Ele estava vestindo roupas de outro século – uma camisa branca de mangas largas, um colete marrom e uma gravata de renda amarrada de forma impecável. Não eram suas roupas. Não era sua cama. Não era seu corpo.
Alex cambaleou para fora da cama, os pés descalços tocando um tapete bordado. Ao virar a cabeça, seu reflexo o encarou de dentro de um espelho dourado.
Cabelos prateados, bagunçados e sedosos. Olhos lilases e brilhantes. Traços delicados, quase andróginos.
O coração dele parou.
Ele conhecia aquele rosto.
"Aslan de Ravencourt."
A revelação veio como um soco no estômago. Ele estava dentro do jogo.
Não como protagonista. Não como um jogador.
Ele era um mero figurante.
E o pior?
Aslan morria logo no prólogo.
"Isso não pode estar acontecendo."
O quarto ao redor era pequeno, modesto, decorado com móveis simples. Uma cama de madeira escura, um armário gasto, um espelho antigo na parede. O sol filtrava-se pelas cortinas, lançando feixes dourados no chão de pedra polida.
Havia um peso sufocante no peito de Alex. Ele tentou inspirar fundo, mas seu corpo tremia.
"Eu morri? Isso é algum tipo de sonho?"
Não. Era real demais para ser um sonho.
Ele correu até a janela. Lá fora, um castelo imenso se erguia, suas torres douradas brilhando sob o céu azul. O pátio era movimentado – servos corriam de um lado para o outro, cavaleiros patrulhavam as muralhas. Tudo exatamente como no jogo.
Se este era o mundo de Requiem of the Fallen Hearts, então…
Ele estava condenado.
"O prólogo…"
Aslan de Ravencourt morria logo no começo do jogo. Ele era um servo de baixo escalão que, por azar, testemunhava um crime dentro do castelo. Para garantir seu silêncio, ele era eliminado sem cerimônias.
Alex apertou as mãos, sentindo os dedos gelados.
"Não. Eu me recuso a morrer de novo."
Foi então que ouviu passos se aproximando do quarto.
Ele congelou.
A porta se abriu com um rangido, e uma figura entrou.
Era ele.
Damian Velmont.
O vilão estava ali, parado à porta, vestindo trajes negros bordados com fios dourados, a postura ereta e imponente. Seu olhar dourado pousou sobre Alex – não, sobre Aslan – e algo estranho aconteceu.
Damian franziu o cenho, como se algo estivesse errado.
Ele nunca deveria olhar para um mero servo.
Alex sentiu um arrepio percorrer sua espinha.
Então Damian deu um passo à frente, os olhos estreitados.
"Você… quem é você?"
A pergunta fez o coração de Alex disparar.
Não era para ele perguntar isso.
Damian não deveria notar Aslan.
O jogo… estava quebrado.
E, pela primeira vez, Alex percebeu que não era apenas um jogo.
Havia algo no código. Algo vivo. Algo errado.
E, se ele não descobrisse o que estava acontecendo logo, não apenas a história seria apagada—mas ele também.
Morrer jogando um otome game não estava nos meus planos. Mas pior do que isso? Acordar dentro do jogo… como um mero figurante condenado a morrer no prólogo.
Agora sou Aslan de Ravencourt, um servo de baixo escalão que deveria desaparecer da história sem deixar rastros. Só que algo está errado. Os eventos do jogo estão quebrando, e o vilão mais temido, Damian Velmont, começou a me notar de um jeito perigoso.
Ele nunca deveria se apaixonar por ninguém. Ele era um personagem programado para rejeitar a protagonista… mas agora, por algum motivo, ele só tem olhos para mim.
À medida que tento escapar do destino trágico que o jogo me reservou, percebo que o mundo ao meu redor não é apenas um jogo. Há algo por trás do código, algo vivo… e que não quer me deixar sair.
Se eu não descobrir o que está acontecendo logo, não só minha história será apagada—mas eu também.
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