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Sob o Peso do Desejo

A casa

A casa

May 10, 2025

dO sol da tarde filtrava-se por entre as árvores altas da rua tranquila onde a casa se escondia atrás de um portão de ferro envelhecido. Hwan empurrou o portão, que rangeu suavemente, revelando o jardim espaçoso e um casarão de arquitetura clássica, com janelas grandes e detalhes em madeira escura.

— Aqui é — disse ele, abrindo passagem para a senhora Kim.

Ela deu alguns passos à frente, os olhos correndo pelas paredes de tijolos aparentes e pelo chão coberto de folhas secas.

— É maior do que imaginei — murmurou, impressionada.

Hwan sorriu, um pouco orgulhoso.

— A casa pertence ao prefeito. Foi onde ele morou nos primeiros anos em que chegou à cidade. Desde que se mudou para a residência oficial, ficou fechada. Mas ele a conservou. Disse que pressentia que um dia ela serviria para algo importante.

Eles entraram pela porta da frente, e um aroma leve de madeira antiga e lavanda pairava no ar.

— Aqui era a sala principal — disse Hwan, acendendo as luzes. — Poderia ser usada para as reuniões gerais, oficinas ou até uma sala de costura.

As janelas abertas deixavam entrar uma brisa suave, e a luz do sol tocava o chão de tábuas corridas com elegância.

— Temos quatro quartos no andar de cima, que podem ser transformados em salas de aula ou ambientes para as crianças. Há também um porão seco e amplo, ótimo para guardar materiais. E a cozinha... — ele apontou à esquerda — é praticamente industrial. Grande, com bancada de mármore, fogão duplo e espaço para fornos.

A senhora Kim andava devagar pelos cômodos, tocando as paredes com a ponta dos dedos, como quem sentia o passado impregnado ali. 

— É acolhedora — ela disse, emocionada. — Parece que essa casa estava esperando por nós.

Hawn assentiu.

— O prefeito quer que comece o quanto antes. Ele já autorizou a compra dos materiais e móveis essenciais. Só pediu discrição. Não gosta de publicidade quando o gesto é pessoal.

Ela sorriu, os olhos marejados.

— Pode dizer a ele que essa semente vai florescer.

Hawn a olhou por um instante, tocado com a firmeza delicada daquela mulher.

— A cidade precisa de mais gente como a senhora.

— E precisa de líderes como ele — ela respondeu. — Que, mesmo em silêncio, plantam esperança nos outros.

Após dois dias o som de martelos e vozes animadas já ecoava pelo quarteirão quando Dongae parou seu carro discretamente a alguns metros da casa. Vestia um boné simples, roupas casuais e uma máscara preta que escondia parte do rosto. Não queria que o reconhecessem. Naquele dia, precisava apenas observar... e lembrar.

Do lado de dentro, voluntários se movimentavam com energia. Tintas, rolos, madeiras e tecidos estavam espalhados pela varanda. Hwan coordenava tudo com sua prancheta na mão, sempre atento.

— Pessoal, vamos dividir por áreas! Pintura começa pela sala, marcenaria vai para os fundos! E cuidado com o piso original, o prefeito pediu que mantivéssemos — dizia, apontando para o chão de tábuas que rangia como se guardasse segredos.

Na calçada, Dongae respirou fundo antes de entrar. Passou pelo portão e cruzou o jardim sem que ninguém notasse. Assim que pisou no alpendre, uma lembrança veio forte: ele, pequeno, escondido atrás da mesma pilastra, tremendo, ouvindo a discussão abafada de seus pais dentro da casa.

As vozes... as exigências... o medo.

Entrou devagar, os olhos percorrendo os detalhes. A sala ainda tinha o mesmo cheiro de lavanda antiga e madeira úmida. Uma jovem pintava uma das paredes com tons claros. Ela o olhou, confusa, e murmurou:

— Você é... novo aqui?

Dongae apenas assentiu, com um meio sorriso.

— Vim só ver como estão as coisas. A casa é bonita.

— Está ficando mais bonita agora. Ela estava triste — disse a moça, voltando à pintura. — Mas vai ficar cheia de vida de novo.

Ele caminhou até a escada, onde seus dedos tocaram o corrimão antigo. Foi ali que, aos doze anos, sentiu pela primeira vez aquilo que nunca soube explicar. Uma pressão no peito, como se o mundo inteiro gritasse por dentro dele... mas por fora, tudo estava em silêncio. Um dom, diziam alguns. Uma maldição, ele pensava.

Subiu os degraus, cada passo trazendo ecos de infância. Quando chegou ao último quarto, encostou na porta entreaberta e olhou para dentro. O ar parecia mais denso ali. Foi onde ficou isolado por dias, quando não conseguia controlar o que sentia... onde seu corpo reagia de forma que nem os médicos entendiam.

A memória veio como um trovão: ele, gritando em silêncio, tentando conter os próprios instintos, enquanto os pais choravam do lado de fora. Foi naquela época que decidiram afastá-lo de tudo. Mandá-lo para longe. Criar uma nova vida.

Hawn apareceu na porta, chamando:

— Senhor Dongae... eu imaginei que viria. 

Dongae se virou lentamente, os olhos sombrios.

— Ela ainda tem cheiro do passado.

— E agora será o berço de novos começos — respondeu Hwan, com suavidade. — Talvez... isso cure um pouco do que ficou aqui.

Dongae passou a mão pela moldura da porta.

— Nada cura o que nunca teve nome, Hawn. Mas... talvez plantar algo novo sobre essa dor ajude.

Hawn sorriu, respeitando o silêncio que seguiu.

— Quer descer e ver a cozinha? A senhora Kim mandou fazer pães com as voluntárias. Estão dizendo que o cheiro já tomou o bairro todo.

Dongae hesitou por um segundo... e então assentiu.

— Vamos. Mas só por alguns minutos.

E desceu, passo a passo, como quem deixava uma parte da dor para trás — e abria espaço para algo diferente florescer.

A cozinha estava cheia de aromas quentes e reconfortantes. O cheiro de pão recém-saído do forno se misturava com o riso leve das voluntárias. A senhora Kim, de avental florido e cabelos presos num coque simples, organizava os cestos com os pães ainda fumegantes sobre a mesa grande.

Dongae entrou devagar, os olhos escondidos sob o boné, a máscara ainda cobrindo boa parte do rosto. Parou à porta, observando em silêncio. 

Ela o reconheceu no mesmo instante. Mesmo com o disfarce, mesmo sem dizer palavra. Havia algo naquele olhar — um peso antigo, mas também uma doçura escondida.

A senhora Kim fingiu não perceber a presença pública do prefeito. Ao invés disso, estendeu um pão quentinho com as mãos enluvadas e sorriu com delicadeza.

— Venha, meu rapaz... está fresquinho. Pode comer enquanto está quente.

Por um segundo, Dongae hesitou. Seus olhos vasculharam a sala, notando que alguns olhares se voltavam, curiosos. Mas a forma como ela falou — sem tom de bajulação, sem tentar expô-lo — era como um convite de mãe para um filho que volta para casa depois de muito tempo.

Aproximou-se devagar, tirou a máscara apenas o suficiente para levar o pão à boca, e deu a primeira mordida. Crocante por fora, macio e quente por dentro, com um toque de manteiga derretendo entre os dedos. Seus ombros relaxaram sem que ele percebesse.

— Está bom? — perguntou ela, baixinho.

Ele assentiu, mastigando com calma.

— Muito. Lembra o que minha avó fazia... mas esse é melhor — disse, num tom quase tímido.

Ela riu com leveza.

— Esse é só o começo. Teremos oficinas de pães, bolos, costura... E um dia, quem sabe, também de música ou leitura. Uma casa cheia de vozes e histórias, como deveria ser.

Dongae olhou ao redor. As paredes antes silenciosas agora carregavam o som de panelas, conversas, e sonhos se costurando aos poucos.

— Obrigado, senhora Kim — disse ele, com sinceridade. — Pelo pão... e por fazer isso acontecer.

Ela pousou a mão em seu braço por um breve instante.

— Obrigada você, por nos dar essa chance.

Com um último olhar, ele colocou a máscara de volta, ajeitou o boné e se retirou, saindo pela porta lateral.

Do lado de fora, o ar fresco tocou seu rosto com suavidade. Pela primeira vez em muito tempo, sentia o peito mais leve. Um gesto simples — um pedaço de pão quente — havia preenchido um vazio antigo.

Enquanto caminhava de volta para casa, o gosto ainda na boca, ele murmurou para si mesmo:

— Talvez... eu ainda consiga me sentir parte de algo.

E sorriu. Pequeno, contido. Mas verdadeiro. 

arquiteksampaio
Kayxo Say

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