O ambiente era envolto por um revestimento acústico quase invisível que abafava todos os sons externos. As paredes tinham um tom acinzentado fosco, sóbrio, pontuadas por discretas faixas de luz embutidas no teto, que criavam uma iluminação suave, quase reconfortante. Um aroma leve de madeira e hortelã pairava no ar, vindo de um difusor escondido próximo à entrada.
À direita, uma cama king-size de linho cinza escuro, perfeitamente arrumada, mas raramente usada. Perto dela, uma poltrona de couro marrom envelhecido repousava diante de uma pequena estante com livros que variavam de filosofia à medicina. No canto oposto, um frigobar embutido na parede de madeira guardava bebidas artesanais e comidas simples — coisas que ele gostava de consumir nos momentos em que se permitia esquecer o mundo.
Um closet menor, exclusivo do cômodo, guardava roupas mais casuais e algumas peças antigas que Dongae mantinha por apego emocional, como a blusa de lã que sua mãe havia tricotado na juventude. Havia também uma escrivaninha de madeira maciça voltada para uma parede sem janelas. Ali, ele escrevia cartas que nunca enviava, rabiscava pensamentos soltos, e às vezes só desenhava círculos enquanto a mente vagava.
Este era o lugar onde ele passava os seus ruts, e tambem os feriados, os dias de folga... quando não partia para uma pequena ilha particular, presente de seu pai quando completou 21 anos — o único lugar no mundo onde ele sentia que poderia existir sem máscaras. Mas quando não conseguia fugir para lá, ele se trancava ali, entre quatro paredes que sabiam seus segredos.
Era um refúgio e uma prisão. Um espaço onde ele podia ser ele mesmo... mas onde também se lembrava, com cada silêncio, do quão sozinho estava.
Ele se levantou de súbito, andou até o pequeno banheiro dentro da suíte e ligou a torneira. Lavou o rosto com água fria, na tentativa de se recompor, mas o reflexo no espelho só o fez desmoronar mais uma vez.
— Eu... só queria... alguém pra dividir a vida. Só isso. — sussurrou, encarando os próprios olhos vermelhos. — Mas até isso... até isso me foi negado.
Apoiado na pia, Dongae tremia. A dor não era só da solidão. Era o peso de uma vida inteira reprimindo algo que ele nem conseguia explicar em palavras. Era o medo constante de machucar, de ser rejeitado, de ser descoberto.
Voltou à poltrona e encarou a escrivaninha. Ali, sobre ela, estava a carta que ele havia começado semanas antes. Uma carta sem destinatário. Ele passou os dedos sobre o papel, leu a primeira linha e a odiou. Amassou a folha, jogando-a no chão, onde outras já repousavam.
— Não adianta. Eu nunca vou poder ter isso.
A última frase veio baixa, quase um sussurro sufocado pela dor. Ele encostou a cabeça no encosto da poltrona, deixou as lágrimas escorrerem livremente e fechou os olhos.
No fundo, ele sabia que ninguém jamais poderia entender o que havia dentro dele.
E talvez, pensava com amargura, fosse melhor assim.

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